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O que o setembro amarelo exige das empresas?

Fonte: folhape.com.br | Data: 02/09/2026 21:05:59

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Primeira semana do mês de setembro e nada mais pertinente do que escrever sobre a campanha nacional Setembro Amarelo. A verdade é que o calendário da saúde ganhou cores: janeiro é branco (saúde mental e autoconhecimento), fevereiro é laranja (leucemia), outubro é rosa (câncer de mama) e por aí vai…
Cada mês traz uma causa e uma paleta que tinge as redes sociais, as fachadas dos prédios e os comunicados internos das empresas. E, nos próximos dias, as fotos de perfil das redes sociais vão ganhar laços dourados e as paredes das empresas vão receber cartazes com frases de incentivo ao cuidado com a saúde mental. 
A campanha, aliás, nasceu no Brasil em 2015, ampliando o alcance do Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, celebrado em 10 de setembro. A campanha é conduzida pelo Centro de Valorização da Vida (CVV) e, em 2026, traz o tema é “Escutar é estar presente”, em um convite à escuta acolhedora, sem julgamento, sem pressa. 
A pergunta que a coluna Ponto Trabalhista faz hoje é: a empresa brasileira está preparada para escutar seus funcionários?

O QUE OS NÚMEROS DIZEM

Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por transtornos mentais e comportamentais, crescimento de 15,66% em relação a 2024, que já havia sido o maior número em dez anos. O custo para o INSS ultrapassou R$ 3,5 bilhões em benefícios pagos. Ansiedade e depressão respondem, juntas, por quase metade de toda a demanda registrada: foram 182.937 casos só nesses dois diagnósticos. No Brasil, a taxa de suicídio cresceu 43% em uma década, assumindo o 8º lugar entre as nações com os maiores índices, com uma média de 38 mortes por dia. Em 2025, o CVV realizou 2 milhões de atendimentos. 
O recado dos números é direto: o adoecimento mental do trabalhador brasileiro não é um fenômeno marginal. Ele ocupa o centro das relações de trabalho e, a partir de 2026, passa a ocupar também o centro da legislação trabalhista.

SETEMBRO AMARELO E A NR-1

Quem acompanha a coluna Ponto Trabalhista desde maio deste ano sabe que já tratei da entrada em vigor da NR-1 atualizada, que passou a exigir das empresas a identificação, a avaliação e o gerenciamento dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho, como parte do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. A obrigatoriedade, agora de caráter punitivo, não é coincidência no mês do Setembro Amarelo: trata-se do mesmo debate, porque tudo, no fim, converge para a saúde mental do trabalhador.
No meu entendimento, a chegada da NR-1 atualizada transforma o Setembro Amarelo de ação voluntária em ponto de encontro entre o que a empresa deveria fazer por cultura e o que a lei agora exige por obrigação. Nesse cenário, a empresa não pode mais tratar o adoecimento mental como pauta secundária, ele passa a ocupar o centro da dinâmica organizacional.

A RESPOSTA DA JUSTIÇA DO TRABALHO

A Justiça do Trabalho não fica só no discurso. O TST, por meio do Programa Trabalho Seguro, integra o setembro amarelo à sua agenda institucional com a mensagem de que a saúde mental no trabalho é fundamental na prevenção ao suicídio e não apenas um tema de bem-estar corporativo.
Aqui em Pernambuco, o TRT-6 tem promovido o mês com campanhas de conscientização voltadas tanto ao servidor quanto ao trabalhador. Em 2025, o Tribunal aderiu à campanha “Seja o Farol”, com publicações semanais sobre promoção da saúde mental embasadas em pesquisas e orientações de profissionais da área. A ação, no entanto, não se esgota na comunicação: o setor de saúde do TRT-6 mantém atendimento especializado em psiquiatria e psicologia, disponível pelo telefone (81) 3225-3496 / 3497.
O Ministério Público do Trabalho também entra no debate: reforça, neste mês, que a saúde mental no trabalho não é problema individual do empregado, mas responsabilidade coletiva da organização que o contrata.

COMO A EMPRESA DEVE SE ORGANIZAR NESSE PERÍODO 

Campanha mal conduzida não é neutra: pode gerar mais risco do que proteção. É o alerta que especialistas em saúde mental vêm repetindo, o  que se aplica com precisão ao Setembro Amarelo nas empresas. Há erros típicos que se repetem, ano após ano, e vale nomeá-los.

O primeiro é recorrer a frases prontas sem construir, por trás delas, um espaço real de acolhimento.  “Você não está sozinho”, “fale sobre seus sentimentos”, “a vida é preciosa”, são exemplos de mensagens que, quando não contextualizadas podem não cumprir a função de prevenção. O trabalhador que está em sofrimento real não precisa só de um laço amarelo na parede, ele precisa saber onde buscar ajuda, a quem recorrer dentro da empresa e o que acontece quando ele decide se abrir. O que nos leva a concluir que a empresa precisa construir uma estrutura para recepcionar essa campanha. 
Outra conduta mal gerida pela empresa é confiar a condução do tema a quem não tem preparo técnico. Falar sobre suicídio exige linguagem segura, capacidade de lidar com reações inesperadas do público e conhecimento sobre o que não dizer. Um colaborador bem-intencionado, sem formação específica, pode, sem querer, fazer exatamente o contrário do que se pretende.
Há ainda quem enxergue uma simples palestra como a solução do problema. É certo que uma ação pontual tem valor, mas abertura sem continuidade não constrói cultura. Afinal, o que faz a diferença é o que acontece depois: gestores capacitados para identificar sinais de risco, fluxo claro de encaminhamento quando alguém precisa de ajuda e um canal de escuta que funcione durante o ano todo.

NÃO BASTA O CARTAZ NA PAREDE

Muito mais do que construir políticas de prevenção que durem apenas um mês, o Setembro Amarelo aponta para algo que não se resolve em campanha. É preciso efetivamente construir uma cultura empresarial que compreenda que os seus funcionários precisam de gestores zelosos e atenciosos com a saúde mental dos seus subordinados. Não é apenas compreender isso como “obrigação” legislativa, mas é preciso estar incorporado na forma como os gestores conduzem as reuniões de equipe, como o RH responde a pedidos de afastamento, como a liderança reage quando alguém diz “não estou bem”.
A empresa que constrói essa cultura não apenas cumpre a NR-1, mas reduz o absenteísmo, retém talentos e, no limite mais importante de todos, pode estar presente quando um trabalhador mais precisa. 
Ao trabalhador que está passando por um momento difícil: o Setembro Amarelo existe para lembrar que há escuta disponível também fora da empresa. O CVV atende 24 horas por dia, 7 dias por semana, pelo telefone 188 e pelo chat e e-mail em cvv.org.br. A conversa é sigilosa e gratuita.
Ao empregador e ao gestor de RH: o cartaz no mural cumpre um papel, mas não cumpre a NR-1. E o que o Setembro Amarelo cobra da sua empresa, a partir de agora, a lei também cobra.

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