Steinbruch deixa CSN e Schvartsman assume o comando

A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) anunciou na noite desta quarta-feira que Benjamin Steinbruch deixará a presidência executiva da empresa, encerrando um ciclo de mais de três décadas à frente da operação. Fabio Schvartsman, executivo conhecido no mercado por ter comandado Vale e Klabin, assume a posição já a partir desta quinta-feira, em um movimento que marca uma nova fase na gestão do grupo siderúrgico. Steinbruch, por sua vez, retorna à presidência do Conselho de Administração, posto que havia deixado em abril.

A transição ocorre em um momento sensível para a companhia, que atravessa um amplo programa de reorganização patrimonial e redução de alavancagem financeira. A CSN reportou no segundo trimestre uma dívida líquida de R$ 42,13 bilhões, o que levou a diretoria a estruturar um plano de desinvestimentos com foco em ativos não estratégicos, como a unidade de cimento e participações em infraestrutura logística. Agora, o novo presidente herda a missão de dar continuidade a esse processo em um ambiente de forte pressão no mercado de capitais, com a ação acumulando queda de 33,6% no ano e valuation de R$ 7,9 bilhões.

O legado de Steinbruch na construção do grupo CSN

Benjamin Steinbruch entrou para a história da siderurgia brasileira ao liderar, em 1993, o consórcio vencedor do leilão de privatização da CSN. A partir daquele momento, assumiu o comando da empresa e passou a transformar uma operação essencialmente voltada à produção de aço em um conglomerado industrial diversificado, com presença relevante nos segmentos de mineração, cimento, logística e geração de energia. Essa expansão consolidou a CSN como um dos principais grupos industriais do país.

Sob sua gestão, a companhia também participou de um dos episódios mais marcantes da economia brasileira na década de 1990. Em 1997, Steinbruch liderou o consórcio que arrematou o controle da então Companhia Vale do Rio Doce em um leilão de privatização avaliado em US$ 3,3 bilhões. A passagem da CSN pela estrutura de controle da mineradora, porém, foi curta: quatro anos depois, em 2001, o grupo se desfez de sua participação e seguiu caminho próprio na siderurgia e em novos negócios.

Fabio Schvartsman: um executivo de peso em novos desafios

Fabio Schvartsman desembarca na CSN com um currículo robusto construído em diferentes setores da economia. Ele comandou a Vale entre 2017 e 2019, período interrompido após a tragédia do rompimento da barragem em Brumadinho, que matou 270 pessoas e se tornou um dos maiores desastres ambientais do país. Antes disso, passou seis anos à frente da Klabin, entre 2011 e 2017, onde consolidou sua reputação como gestor industrial, e teve passagens pela Duratex e pelo Grupo Ultra, áreas de madeira e energia, respectivamente.

A chegada do executivo à presidência da CSN acontece em um contexto no qual o mercado observa de perto a capacidade da empresa de executar seu plano de desinvestimentos e equilibrar o fluxo de caixa em meio a uma conjuntura desafiadora para o setor siderúrgico, marcada por oscilações no preço do minério de ferro e pela queda na demanda por aço no mercado interno. A combinação entre a experiência de Schvartsman em grandes companhias de capital aberto e o processo em curso de enxugamento do portfólio é vista como um dos principais pontos de atenção para investidores e analistas nos próximos meses.

O programa de desinvestimentos e a redução do endividamento

A CSN vem conduzindo uma série de operações para reduzir seu endividamento desde o início do ano. Em janeiro, a companhia anunciou um plano que prevê a venda de sua unidade de cimento, um dos negócios considerados fora do núcleo estratégico. Em junho, o movimento ganhou nova etapa com a decisão de alienar participações relevantes em ativos de infraestrutura, incluindo terminais portuários, a participação na MRS, empresa de transporte ferroviário, e na Tora, companhia de logística.

Essas operações são fundamentais para a trajetória de desalavancagem da siderúrgica, que busca reduzir o peso de suas obrigações financeiras em um cenário de juros elevados e menor apetite do mercado por dívida corporativa. A entrada de Schvartsman, portanto, não representa apenas uma troca de comando, mas a chegada de um profissional com histórico de gestão em ambientes complexos e com conhecimento profundo das relações entre grandes mineradoras, indústria e mercado de capitais.

O que esperar da nova gestão na relação com o mercado

A saída de Steinbruch da presidência executiva e a ascensão de Schvartsman ao posto mais alto da operação recolocam a CSN sob os holofotes do noticiário financeiro. O movimento sinaliza que a companhia quer separar de forma mais clara a atuação do Conselho de Administração, ligado ao acionista de referência e às decisões estratégicas de longo prazo, da gestão executiva do dia a dia, agora nas mãos de um profissional de carreira com forte experiência em empresas listadas.

Internamente, a expectativa é que o novo presidente imprima ritmo ao plano de vendas de ativos e promova uma gestão mais enxuta, que priorize a geração de caixa e a redução progressiva da alavancagem financeira. Para o mercado, a chegada de um executivo com a trajetória de Schvartsman adiciona um ingrediente relevante à leitura do risco da companhia, especialmente em um momento em que a CSN negocia um portfólio diversificado de ativos e tenta se reposicionar para um ciclo econômico ainda incerto.