Diário do fim do mundo
Fonte: uol.com.br | Data: 03/09/2026 05:36:13
Uma jornada por Ushuaia, no extremo-sul da Argentina, onde o frio, o mar e as montanhas ditam as regras
Por Marê Sanz, de Ushuaia, Argentina
Por que Terra do Fogo?
Ushuaia também é chamada assim pois os europeus avistaram do mar as fogueiras dos povos originários e se assustaram. Para enfrentar o frio, nativos também protegiam o corpo nu apenas com gordura animal: algo inacreditável para os turistas de hoje, cobertos por camadas de roupa.
Em Ushuaia faz frio o ano todo. O verão atinge, no máximo, 18 °C. No inverno, o sol demora a nascer. O dia só clareia completamente perto das 10h, enquanto a temperatura pode cair para abaixo dos -10 °C. Foi assim que vi as ruas e montanhas mudarem de cor com a neve.
Mas por que as pessoas escolheriam viver num lugar tão frio? A origem da cidade é curiosa e explica: ela nasceu de um presídio de segurança máxima, cercado pelo mar gelado e pelos Andes, onde fugir parecia impossível. De dia, os próprios prisioneiros construíam a cidade; à noite, voltavam às celas.
Uma das principais construções? O Trem do Fim do Mundo, que os prisioneiros fizeram para buscar madeira no gigante Monte Susana. Hoje, o trem atravessa cenários deslumbrantes até o Parque Nacional Tierra del Fuego. Eu fiz o trajeto num vagão premium, com café da manhã. Vale muito a pena.
É no Parque Nacional Tierra del Fuego que o mar encontra os Andes e nos brinda com paisagens inesquecíveis. É também ali que termina o trecho argentino da Rodovia Pan-Americana, que cruza o continente desde o Alasca. Um marco para os aventureiros que decidem fazer toda a rota ou parte dela.
Ushuaia é também um famoso destino de esqui e snowboard. Exemplo disso é o Cerro Castor, o centro de esqui mais austral do mundo. Pude presenciar a descida das tochas, quando esquiadores transformam a montanha coberta de neve em um caminho de luz para celebrar o inverno.
O Cerro Castor é referência para esportes de neve e recebe até equipes olímpicas do mundo todo. Tem pistas de vários níveis e estrutura completa, com lojas, restaurantes, hospedagem, spa, piscina aquecida e armários que secam roupas. Foi lá que fiz minha segunda aula de esqui. Mas e a primeira?
Minha estreia foi no Cerro Martial. Menor e com pistas para iniciantes, é um ótimo lugar para os primeiros movimentos em esportes de neve. Ele reabriu depois de anos fechado e é um xodó para os moradores locais (os fueguinos, como preferem ser chamados). No verão, a neve dá lugar a trilhas ao Glaciar Martial.
Ao anoitecer, subi o Cerro Martial da forma mais inesperada: numa máquina de limpeza de neve adaptada para passageiros. Lá no alto, coloquei correntes nos sapatos, peguei bastões e uma lanterna e comecei um trekking noturno enquanto a neve caía. Duas atividades surpreendentes.
Mas nem só de esqui e snowboard se vive aqui. No Centro Invernal Tierra Mayor, fiz uma das atividades que mais gostei: andar de moto de neve. Durante uma hora, atravessamos caminhos entre árvores e montanhas congeladas. Coisa de cinema, literalmente: cenas de “O Regresso” (2015) foram gravadas aqui.
Aprender a esquiar e fazer um passeio de moto de neve foram duas das experiências mais incríveis que eu já vivi. Voltei para casa já planejando retornar a Ushuaia para continuar aprendendo”
Outro passeio a ticar na viagem é navegar pelo Canal de Beagle, rota histórica percorrida por Charles Darwin a bordo do HMS Beagle (daí vem o nome do canal que, anteriormente, se chamava Onashaga). Passamos pelo farol Les Éclaireurs, por ilhas de cormorões e por colônias de leões-marinhos.
Percorrer o Canal de Beagle foi emocionante. Eu conhecia esse lugar das aulas na escola, por conta de Darwin, então foi um dos pontos altos da viagem. E ainda vi leões-marinhos pela primeira vez. Uma bela despedida do Fim do Mundo – ou seria o começo?”
Vamos lá?
Como chegar?
Eu fiz um voo direto pela GOL, que opera essa rota sazonal durante a temporada de inverno. Agora, à partir de setembro, a melhor opção é fazer o trajeto com conexão em Buenos Aires, disponível em várias companhias. Mas tem novidade para o verão: de 26 de novembro a 27 de março de 2027, a GOL irá operar um voo direto até El Calafate, também na Patagônia argentina, que segue depois para Ushuaia, em uma perna final de pouco mais de 1 hora.
Texto e imagens: Marê Sanz
Edição: Eduardo Burckhardt
Design: Kiki Tohmé
Imagens adicionais: Adobe Stock, Allan Rodrigues/Unsplash, Luuk Wouters/Unsplash, Rafael Peier/Unsplash, @cerrocastor, @cerromartial
* A repórter viajou a convite da GOL Linhas Aéreas