De turbulências, a vida entende
Fonte: hojeemdia.com.br | Data: 04/09/2026 05:59:06
“Eu sou mais forte do que eu”. A frase de Clarice Lispector parece, à primeira vista, uma dessas contradições que a gente lê e precisa voltar para entender. Como alguém pode ser mais forte do que si mesmo? Se sou eu quem sente medo, quem duvida, quem calcula os riscos, quem conhece as próprias fragilidades, de onde viria uma força que consegue ser maior do que aquilo que eu mesmo reconheço como força? Pode ser que Clarice não estivesse falando de músculos, coragem ou resistência no sentido que costumamos dar a essas palavras. Criamos uma ideia sobre nós mesmos, estabelecemos limites, fazemos previsões sobre o que conseguiríamos suportar e, quando a vida muda o cenário, descobrimos que o nosso tamanho era outro.
Penso nisso quando lembro de uma frase do piloto e mecânico de aeronaves Lito Sousa: “Turbulência não derruba avião.” A frase serve para a aviação, mas também pode servir para a vida. A turbulência assusta porque mexe com aquilo que deveria permanecer estável. O avião parece que sobe, desce, balança, faz barulhos que não estamos acostumados a ouvir e, por alguns segundos, o corpo interpreta aquela movimentação como uma ameaça.
Dentro da aeronave, alguém aperta o braço da poltrona, outra pessoa fecha os olhos, alguém começa a rezar, enquanto uma criança pergunta se o avião vai cair. A turbulência não precisa ser uma catástrofe para provocar em nós a sensação de que alguma coisa saiu do controle.
Na vida, acontece coisa parecida. Uma notícia inesperada, uma perda, uma mudança de trabalho, uma doença na família, uma separação, uma porta que se fecha, um projeto que fracassa, uma amizade que termina. De repente, aquilo que parecia organizado começa a balançar, e a primeira conclusão costuma ser que não vamos conseguir atravessar.
Quem sempre precisou controlar cada detalhe aprende, ainda que contra a vontade, a conviver com aquilo que não pode controlar. Não se trata de romantizar o sofrimento, como se toda dor viesse acompanhada de uma lição bonita e obrigatória. Algumas experiências ferem, deixam marcas e exigem tempo. O que muda é a percepção que podemos ter de nós mesmos depois de atravessá-las. A pessoa que saiu daquele momento não é necessariamente a mesma que entrou. Heráclito dizia: “ninguém entra duas vezes no mesmo rio”. A frase traduz uma percepção que atravessa o que estamos discutindo: o rio fluiu, assim como se espera que aconteça com cada um de nós.
E há algo que é importante dizer: na vida, as turbulências acontecerão. Umas são evitáveis, outras não. A descoberta maravilhosa é que é sempre muito bom ter alguém em quem se confia por perto para, na hora em que a instabilidade chegar, ter em quem se apoiar, ter uma mão para segurar.
Por isso, “eu sou mais forte do que eu” não me parece uma frase de autoajuda. Ela não diz “acredite em você”, nem promete que tudo dará certo. Ela diz alguma coisa mais desconcertante: você ainda não sabe completamente quem é. E esse desconhecimento é uma das partes mais bonitas da condição humana.
Se soubéssemos exatamente até onde conseguimos ir, viver seria apenas cumprir uma previsão. A surpresa de existir está também no encontro com partes de nós que aparecem quando são chamadas. A mãe que encontra forças depois de perder alguém, o homem que aprende a viver sozinho depois de décadas acompanhado, a mulher que muda de profissão aos cinquenta, o jovem que enfrenta uma situação que julgava impossível, o professor que continua entrando em sala mesmo depois de um dia difícil: todos eles encontram uma versão de si mesmos que não conheciam antes da experiência.
Não vamos negar que admitir nossas fraquezas, dar um tempo e refletir são, em algumas situações, caminhos necessários. Força também pode estar em reconhecer os próprios limites, pedir ajuda e compreender que não precisamos atravessar tudo sozinhos.
A gente passa boa parte da vida construindo uma imagem de si mesmo, dizendo: “eu sou assim”, “isso eu não consigo”, “isso não é para mim”, “eu não suportaria”. Então vem a turbulência, aquela que não estava prevista, e obriga a revisar algumas certezas.
