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Motorista da 90 Mobilidade já faturou R$ 25 mil; app cobra mensalidade de R$ 300

Fonte: 55content.com.br | Data: 04/09/2026 18:18:42

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Gerido por Daiane das Graças Cunha Falcão, o 90 Mobilidade atua em cidades do Espírito Santo e de Minas Gerais, tem foco em regiões do interior, reúne cerca de 100 motoristas cadastrados, soma mais de 12,4 mil passageiros na base e registrou R$ 66,7 mil em corridas no mês de agosto até o dia 26.

A trajetória de Daiane das Graças Cunha Falcão na mobilidade começou como motorista. Moradora de Pedra Azul, em Domingos Martins, no Espírito Santo, ela entrou no setor perto do período da pandemia, depois de ser convidada por um amigo para trabalhar com transporte por aplicativo.

No início, a expectativa era complementar a renda. Daiane imaginava que conseguiria tirar cerca de R$ 600 por mês, mas logo percebeu que o potencial era maior. Na primeira vez em que saiu para trabalhar, não parou de rodar e voltou para casa de manhã com o dinheiro na mão.

“Eu cheguei em casa de manhã cedo com uma sacolinha de pão na mão e o dinheiro, toda boba. Tinha feito literalmente R$ 600 naquele dia”, lembra.

Interior sem Uber abriu espaço para aplicativos regionais

Daiane nunca chegou a trabalhar com Uber ou 99, porque as grandes plataformas não operavam em sua região. A experiência começou diretamente com aplicativos regionais, em uma área onde o transporte por app depende muito da confiança, do conhecimento local e do atendimento próximo.

Depois de trabalhar com um amigo, ela passou a procurar franquias para atuar em Pedra Azul. Como o aplicativo em que ele trabalhava já tinha operação na região, Daiane pesquisou outras opções e encontrou a 90 Mobilidade. Primeiro, comprou duas franquias, em Domingos Martins e Marechal Floriano, regiões próximas, para evitar conflitos de área. Depois de um ano como franqueada, foi convidada a se tornar sócia da empresa.

“A gente comprou as duas franquias logo para não ficar aquela rixa de ‘aqui você pode vir, aqui você não pode’. Quando você dá sorte de pegar uma pessoa boa para conversar, é tranquilo, mas nem sempre é assim”, afirma.

Ser mulher na liderança foi um desafio

Uma das dificuldades relatadas por Daiane foi a resistência de alguns homens à liderança feminina. Segundo ela, em um setor ainda majoritariamente masculino, houve situações em que motoristas não aceitavam bem receber orientações de uma mulher.

Com o tempo, a gestora afirma que aprendeu a se impor mais e a lidar melhor com essas situações.

“Parece que eles não aceitam ver uma mulher vencendo, uma mulher patroa. E nem é ordem, porque eu sempre fui muito tranquila”, diz.

Atendimento regional é baseado em confiança

Para Daiane, os aplicativos regionais têm uma vantagem importante sobre grandes plataformas: o atendimento humanizado. Em cidades pequenas, a relação entre passageiro, motorista e central é mais próxima, o que permite resolver problemas com mais rapidez e criar vínculos de confiança.

Essa confiança aparece em serviços cotidianos: “As pessoas confiam na gente para buscar os filhos na escola, levar pai e mãe ao médico, hospital. É um atendimento totalmente humanizado”, afirma.

Divulgação começou com carro de som, adesivos e boca a boca

A captação de motoristas e passageiros começou com estratégias locais. Daiane investiu em carro de som, adesivos nos veículos e divulgação boca a boca. Segundo ela, por morar na região há muitos anos, o reconhecimento pessoal ajudou a acelerar a aceitação do aplicativo.

A cidade também tem forte vocação turística, com hotéis, restaurantes e choperias, o que ajudou a ampliar a demanda.

“O fato de a gente morar na cidade desde que o mundo é mundo facilita. Um começa a falar para o outro: ‘é a Daiane, filha do Baixão’”, conta.

Investimento inicial foi de R$ 10 mil

O investimento inicial de Daiane foi de R$ 10 mil, sendo R$ 5 mil por cada uma das duas franquias compradas. Segundo ela, o retorno veio rápido: em cerca de três meses, o valor investido já havia sido recuperado.

Na época, a operação chegou a ter dez motoristas trabalhando com ela. Como franqueada, Daiane optou por cobrar mensalidade, e não percentual por corrida, para adaptar o modelo à realidade do interior, onde muitos passageiros ainda chamam pelo WhatsApp.

Modelo mensalista foi escolhido para evitar corridas não registradas

Na operação de Daiane em Pedra Azul, os motoristas pagam R$ 300 por mês. A escolha pela mensalidade teve relação direta com o comportamento dos passageiros e motoristas no interior. Como muitos clientes idosos não usam aplicativo e preferem chamar por WhatsApp, a taxa fixa foi considerada mais justa e mais simples de administrar.

Segundo a gestora, quando a cobrança é por percentual, alguns motoristas deixam de abrir a corrida no sistema para evitar o desconto.

“No interior, muita gente não tem acesso ao aplicativo ou não sabe mexer. A mensalidade ficou mais justa para o motorista e evita aquela história de não abrir a corrida para não pagar porcentagem”, explica.

90 Mobilidade tem três mulheres na sociedade

Hoje, a 90 Mobilidade tem três mulheres na sociedade: Daiane, sua esposa e Rosane, que permaneceu com a marca depois que Rodrigo, ligado à Urban 90, seguiu outro caminho empresarial. O aplicativo existe há cerca de quatro anos, e Daiane está como sócia há quase dois.

Na divisão da rotina, a esposa de Daiane fica mais concentrada na parte administrativa e financeira, enquanto Daiane atua com a rua, o relacionamento com motoristas e o treinamento prático. Rosane auxilia mais na organização do painel e na estrutura da plataforma.

Resistência de taxistas levou gestoras à delegacia

No início, uma das maiores dificuldades foi a resistência dos taxistas. Daiane afirma que houve denúncias contra a operação, e a equipe chegou a ser chamada à delegacia. Segundo ela, a situação foi contornada porque a empresa tinha documentação, registro e argumentos jurídicos para demonstrar que o serviço estava regular.

O episódio aconteceu em um momento em que Rodrigo estava na cidade, o que ajudou na apresentação dos documentos e na conversa com as autoridades.

“A gente deu sorte porque, no dia em que chamaram a gente na delegacia, o Rodrigo estava aqui. Ele já tinha enfrentado isso em outras regiões e a gente estava com os documentos no carro”, relata.

Falta de mão de obra ainda é obstáculo

Hoje, a principal dificuldade está na contratação de motoristas. Segundo Daiane, muitas pessoas da região ainda são presas à carteira assinada e têm receio de atuar como prestadores de serviço, mesmo diante dos ganhos possíveis no aplicativo.

A falta de mão de obra, segundo ela, não afeta apenas o aplicativo, mas a região de Pedra Azul como um todo.

“O pessoal aqui é muito preso à carteira assinada. Mesmo a gente falando dos ganhos, ainda existe medo de trabalhar sem registro”, afirma.

Primeira ligação internacional mostrou potencial do negócio

Daiane percebeu que a operação estava dando certo quando recebeu uma ligação internacional. Uma turista do Reino Unido havia pegado seu contato em um hotel da região e queria contratar um tour no fim de semana.

O episódio mostrou que o aplicativo poderia ir além das corridas urbanas e também atuar com turismo.

“Eu estava no curso técnico de Administração quando apareceu aquele número internacional. Achei que era golpe. Atendi só de sacanagem, e era uma mulher do Reino Unido querendo contratar um tour”, lembra.

90 também atua com turismo

Além da mobilidade urbana, Daiane usa a estrutura da 90 para atender turistas em Pedra Azul. Durante a semana, o aplicativo leva passageiros para compromissos como banco, médico e serviços do dia a dia. Aos fins de semana, parte da operação se volta para tours turísticos na região.

Segundo ela, as duas áreas se complementam. O turismo só se tornou possível porque a 90 já existia, e a 90 também se fortalece com a demanda turística.

“Hoje, se você me perguntar se consigo separar a 90 do turismo, eu não consigo. O turismo só existe porque tem a 90”, afirma.

Diagnóstico tardio ajudou Daiane a entender sua trajetória

Ao falar sobre a mudança pessoal após empreender, Daiane cita maturidade e autoconhecimento. Ela conta que recebeu diagnóstico tardio de TDAH e autismo aos 30 anos, depois de uma crise de ansiedade. A partir disso, passou a entender por que tinha dificuldade em empregos com rotina fixa e horários rígidos.

Dirigir, por outro lado, trouxe liberdade: cada dia tem uma pessoa diferente, uma história diferente e um destino diferente.

“Quando eu descobri que era isso que eu gostava, minha vida mudou, a empresa andou e tudo casou”, afirma.

Operação soma cerca de oito cidades

A 90 Mobilidade atua em cerca de oito cidades. Entre os locais citados na entrevista estão Pedra Azul, Domingos Martins, Marechal Floriano, Venda Nova, Afonso Cláudio e outras praças. Ao todo, a empresa tem cerca de 100 motoristas cadastrados e já teve 840 condutores passando pela plataforma ao longo da trajetória.

A base de passageiros cadastrados é de 12.402 usuários. Em agosto, até o dia 26, a plataforma havia registrado 3.579 corridas.

Corrida mínima fica entre R$ 12 e R$ 13

A corrida mínima da 90 Mobilidade fica entre R$ 12 e R$ 13 e cobre cerca de 5 km. Na operação de Daiane, a mensalidade cobrada dos motoristas é de R$ 300. Para franqueados da marca, o modelo citado é de R$ 500 mensais com direito a até dez motoristas; acima disso, há cobrança adicional de R$ 50 por motorista.

Em outras franquias, há modelos diferentes, como cobrança percentual de 10% por corrida.

Motorista já faturou R$ 25 mil em um mês

Segundo Daiane, um motorista da operação de Venda Nova já faturou R$ 20 mil em um mês. Em outra cidade, ela cita outro caso em que um motorista chegou a fazer cerca de R$ 25 mil, trabalhando muitas noites seguidas porque precisava de dinheiro após bater o carro.

Ela mesma afirma já ter faturado cerca de R$ 15 mil em alta temporada. Para motoristas que trabalham em ritmo mais tranquilo, como renda extra ou em horário comercial, a média pode ficar entre R$ 4 mil e R$ 5 mil.

“Eu mesma já fiz uns R$ 15 mil brincando na alta temporada”, conta.

Plataforma movimentou R$ 66,7 mil em agosto até o dia 26

Até 26 de agosto, a 90 Mobilidade havia movimentado R$ 66.789,03 em corridas no mês. No mesmo período, registrou 3.579 corridas.

A operação de Pedra Azul conta atualmente com dez motoristas ativos sob a gestão direta de Daiane.

Motoristas clandestinos incomodam mais que concorrência formal

Para Daiane, um dos principais incômodos do mercado são os motoristas clandestinos. Segundo ela, a atuação irregular prejudica a imagem dos aplicativos, porque muitos passageiros associam qualquer transporte particular ao serviço por app.

Na 90, os motoristas precisam ter seguro app. A gestora afirma que a exigência é importante para proteger passageiros e condutores em caso de acidente.

“Se acontece alguma coisa com um clandestino, ele não tem nada para ajudar a pessoa. E aí acaba sobrando para os motoristas de aplicativo”, afirma.

Meta é vender mais franquias e alcançar o interior

Para os próximos anos, a meta da 90 Mobilidade é investir mais em tráfego pago, divulgação e venda de franquias. A intenção é levar a marca ao maior número possível de cidades, com foco no interior.

Daiane avalia que tentar disputar diretamente com Uber e 99 em grandes centros exige um investimento alto, enquanto o interior ainda tem muito espaço pouco explorado.

“A gente tem um mercado tão próspero no interior que não tem ninguém aproveitando”, afirma.

Para Daiane, o mercado regional tende a crescer

Na visão da gestora, o mercado de aplicativos regionais ainda tem espaço para crescer. Ela acredita que podem ocorrer fechamentos por má administração, mas não necessariamente por concorrência. Para se manter, o aplicativo precisa divulgar bem, ouvir motoristas e passageiros e adaptar a operação à realidade local.

“Eu sempre tive essa visão de que o sol brilha para todos. Se a pessoa souber trabalhar, a tendência é aumentar”, diz.

Legado é incentivar mulheres e pessoas neurodivergentes

O legado que Daiane quer deixar com a 90 Mobilidade vai além da operação em si. Para ela, a própria trajetória mostra que mulheres podem ocupar espaços de liderança em setores masculinos e que pessoas neurodivergentes também podem empreender.

A gestora afirma que quer incentivar outras mulheres a terem o próprio negócio e encorajar pessoas que, como ela, já começaram projetos e não conseguiram dar continuidade antes de encontrar o caminho certo.

“Eu sou a prova viva de que, se eu consegui, todo mundo consegue. As mulheres estão cada vez mais na liderança e vão chegar a lugares que nunca imaginaram”, conclui.