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O ‘ingrediente’ da longevidade que quase ninguém conhece – mas que tem chamado a atenção da ciência

Fonte: estadao.com.br | Data: 05/09/2026 10:28:46

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Dez hábitos que podem te ajudar a viver mais e melhor

Crédito: Amanda Botelho/Estadão

A capacidade intrínseca, definida pela OMS em 2015, é uma métrica holística que avalia a saúde física e mental. Pesquisadores, como John Beard da Columbia University, acreditam que ela pode ajudar a monitorar o envelhecimento e guiar intervenções precoces. Estudos na França e nos EUA investigam seu uso clínico. A ARPA-H busca validar a capacidade intrínseca para aprovar medicamentos de longevidade pela FDA. Andrew Brack lidera o projeto, que pode revolucionar o tratamento do envelhecimento.

E se houvesse uma única métrica capaz de captar todos os aspectos da sua saúde — o quão forte você é, quão nítida é sua visão, quão bem você consegue pensar? Esse é o objetivo da capacidade intrínseca, uma medida holística do que o corpo e a mente de uma pessoa são capazes de fazer.

“Não é exatamente um termo sexy”, mas faz sentido do ponto de vista científico, afirma John Beard, professor de envelhecimento produtivo na Columbia University Mailman School of Public Health, que ajudou a desenvolver o conceito. “‘Intrínseca’ significa todos aqueles atributos que podem ser atribuídos ao indivíduo, da pele para dentro”, explica. “E ‘capacidade’ diz respeito ao funcionamento.”

Você ainda não pode pedir ao seu médico que avalie sua capacidade intrínseca, mas especialistas esperam que, no futuro, os médicos utilizem essa medida com pacientes mais velhos para acompanhar a saúde e o bem-estar — e potencialmente também com pacientes mais jovens. Mais imediatamente, cientistas que estudam a longevidade acreditam que ela pode ser a chave para demonstrar se um medicamento ou uma mudança no estilo de vida voltados a retardar o envelhecimento realmente funcionam.

A capacidade intrínseca, uma medida holística do que o corpo e a mente de uma pessoa são capazes de fazer, está rapidamente se tornando uma forma preferencial de medir e avaliar o envelhecimento humano

 

Foto: Madison Ketcham/The New York Times

Como funciona essa métrica?

A capacidade intrínseca foi formalmente definida em 2015 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como parte de sua iniciativa de envelhecimento saudável, que, entre outros objetivos, busca fazer com que médicos e cientistas deixem de se concentrar apenas nas doenças e passem a priorizar a maximização e a manutenção das capacidades funcionais dos adultos mais velhos.

Os especialistas calculam a pontuação de capacidade intrínseca de uma pessoa a partir de seu desempenho em cinco “subdomínios”:

  • cognição
  • locomoção (força e mobilidade)
  • capacidade sensorial (visão e audição)
  • bem-estar psicológico e vitalidade (níveis gerais de energia e resiliência a fatores de estresse físico)

Muitos dos testes que avaliam esses subdomínios já são usados para avaliar a saúde de adultos mais velhos, como a força de preensão manual e a velocidade de caminhada.

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Pesquisadores demonstraram que a capacidade intrínseca está associada ao risco de incapacidade e mortalidade entre adultos mais velhos. Mas especialistas dizem que o verdadeiro valor clínico virá do acompanhamento da capacidade intrínseca de uma pessoa ao longo do tempo. Isso poderia permitir aos médicos identificar precocemente sinais de declínio e tomar medidas para interromper ou desacelerar essa trajetória.

Mesmo quando as pessoas são “bastante robustas e não têm nenhuma doença, ainda podemos detectar mudanças na capacidade”, comenta Beard. “E isso permite começar a pensar: bom, certo, o que está fazendo com que a capacidade das pessoas seja diferente e como podemos intervir muito mais cedo para tentar prevenir os declínios que ocorrem mais tarde na vida?”

Por enquanto, muitos dos testes que avaliam elementos da capacidade intrínseca, como os usados para detectar comprometimento cognitivo, são úteis apenas em adultos mais velhos, já que quase todas as pessoas mais jovens e saudáveis obtêm uma pontuação perfeita ou próxima da perfeição. Mas os cientistas estão investigando se outras medidas, que apresentem maior variabilidade em todas as idades, também poderiam ser usadas para avaliar a capacidade intrínseca em pessoas mais jovens.

Como essa métrica está sendo usada atualmente?

A capacidade intrínseca está sendo estudada em ensaios clínicos, incluindo um experimento realizado em condições reais que está em andamento na França. No estudo, adultos mais velhos preenchem regularmente um questionário para avaliar sua capacidade intrínseca e recebem recomendações personalizadas com base em sua pontuação. Se a pontuação de uma pessoa começa a cair, ela é rapidamente encaminhada ao médico ou a uma enfermeira geriátrica treinada para a realização de exames de acompanhamento e tratamento.

A pesquisa ainda é preliminar, e os cientistas ainda não sabem se uma intervenção precoce, orientada pela pontuação de capacidade intrínseca, ajudará uma pessoa a viver mais. “Esperamos que sim”, diz David Furman, professor do Buck Institute for Research on Aging que colaborou com os pesquisadores responsáveis pelo estudo, “mas ainda não temos os dados”. (Um estudo semelhante sobre capacidade intrínseca, o primeiro nos Estados Unidos, acaba de começar no Novo México.)

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A capacidade intrínseca também é o foco de um novo programa de pesquisa financiado pela ARPA-H (Advanced Research Projects Agency for Health, ou Agência de Projetos de Pesquisa Avançada para a Saúde), ligada ao Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos. O objetivo final do programa é abrir caminho para que medicamentos capazes de prolongar o período de vida saudável sejam aprovados pela Food and Drug Administration, a FDA (agência similar à Anvisa no Brasil).

Ainda não existem medicamentos para longevidade aprovados, por alguns motivos. Primeiro, é muito difícil para os pesquisadores determinar se um medicamento aumenta a expectativa de vida, porque isso exigiria um ensaio clínico com duração de várias décadas, o que seria proibitivamente caro. Os cientistas vêm procurando indicadores substitutos do envelhecimento que possam ser usados no lugar disso, e acreditam que a capacidade intrínseca pode ser um deles.

Outro obstáculo é que a FDA não considera o envelhecimento uma doença e, portanto, não avalia medicamentos com base em sua capacidade de alterar o processo de envelhecimento. Andrew Brack, que lidera o programa da ARPA-H, acredita que a capacidade intrínseca poderia ser uma forma de contornar esse problema.

A ideia não é sem precedentes: depois de um longo debate sobre a possibilidade de classificar a velhice como uma doença, em 2022 a OMS acrescentou “declínio associado ao envelhecimento na capacidade intrínseca” à 11ª edição da Classificação Internacional de Doenças. (A maioria dos países, incluindo os Estados Unidos, ainda usa a versão anterior, a CID-10.)

Por meio do projeto da ARPA-H, os cientistas estão tentando demonstrar duas coisas principais: primeiro, que a capacidade intrínseca de uma pessoa corresponde à forma como ela se sente ou funciona, ou ao tempo que vive; e, segundo, que é possível melhorar a capacidade intrínseca de uma pessoa com intervenções no estilo de vida, como exercícios, ou com medicamentos já existentes que foram apontados como potencialmente benéficos para a longevidade, como os agonistas de GLP-1.

Se for bem-sucedida, a capacidade intrínseca poderá se tornar uma métrica usada para avaliar medicamentos que têm o envelhecimento como alvo, o que poderia, em última instância, abrir caminho para o primeiro medicamento para longevidade aprovado pela FDA. “Precisamos deixar claro que não sabemos se isso vai funcionar”, pondera Brack. Mas, acrescenta: “somos cientistas. Precisamos fazer o experimento”.

Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.