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Cães sob medida? Startup edita DNA de beagles para tentar evitar alergias em humanos

Fonte: exame.com | Data: 05/09/2026 19:07:07

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A edição genética está criando novas possibilidades para modificar características de cães. Uma startup de biotecnologia anunciou recentemente o nascimento de dois beagles geneticamente modificados para não produzir um dos principais alérgenos caninos.

Os animais em questão foram desenvolvidos pela Kindred Companion Sciences, empresa de biotecnologia sediada em Nova York. A equipe utilizou a técnica CRISPR para desativar o gene responsável pela produção da proteína Can f 1.

A proteína está entre os principais componentes associados às alergias provocadas por cães. A expectativa é que a alteração possa facilitar a convivência com animais para pessoas que apresentam reações alérgicas.

Como foram criados os cães geneticamente modificados

De acordo com o estudo publicado na revista The CRISPR Journal, os pesquisadores começaram o processo em células de cães. Com o CRISPR, eles alteraram o gene relacionado à produção da Can f 1. Depois, utilizaram clonagem para transferir o material genético modificado para embriões. Esses embriões foram implantados em uma cadela da raça beagle, que serviu como mãe de aluguel.

Do processo nasceram dois cães, chamados Alfie e Bailey. Eles estão com quase dois anos e, segundo a empresa, apresentam desenvolvimento considerado normal.

Testes realizados pela Kindred não identificaram a proteína alergênica nos dois animais. Matt Walker, cofundador da empresa e tutor de Bailey, também não apresentou reações alérgicas ao cão.

Os resultados, porém, ainda não permitem concluir que a alteração seja totalmente segura. Efeitos que aparecem apenas com o envelhecimento ou alterações raras podem exigir acompanhamento por mais tempo.

CRISPR pode ter efeitos que ainda não são conhecidos

A edição genética permite modificar regiões específicas do DNA. Mesmo assim, especialistas citados pelo jornal The New York Times destacam que alterações genéticas podem produzir consequências inesperadas.

Uma preocupação é que problemas de saúde só sejam identificados depois de muitos animais serem produzidos. Quanto maior a população modificada, maior também a possibilidade de detectar efeitos adversos pouco frequentes.

Por isso, os dois beagles representam apenas uma etapa inicial do desenvolvimento da tecnologia. Ainda é necessário acompanhar os animais durante períodos mais longos.

A possibilidade de criar cães com características escolhidas pelos humanos também levanta questões sobre os limites da intervenção genética.

A criação de cães já provocou problemas de saúde

O debate não envolve apenas a biotecnologia. A própria criação seletiva de cães alterou profundamente características físicas e genéticas de diversas raças.

Ao longo de gerações, criadores selecionaram animais com determinadas características. O processo ajudou a estabelecer raças modernas, mas também favoreceu algumas doenças hereditárias.

Características físicas extremas são um exemplo. Focinhos muito achatados e costas excessivamente longas estão associados a problemas de saúde em determinadas raças.

A seleção artificial também contribuiu para a disseminação de alterações genéticas relacionadas a doenças. Para especialistas em bem-estar animal, isso mostra que a criação de cães já envolve decisões com consequências para a saúde.

Cães hipoalergênicos ainda não estão disponíveis

Apesar dos resultados apresentados pela Kindred, os animais geneticamente modificados ainda não estão disponíveis para consumidores.

O desenvolvimento de gatos geneticamente modificados para reduzir alergias também já foi anunciado anteriormente. Mais de dois anos após a divulgação, esses animais ainda não chegaram ao mercado, de acordo com o jornal.

No caso dos beagles, também são necessários novos estudos para avaliar se a ausência da Can f 1 permanece estável e se a alteração não produz outros efeitos.

A proposta, portanto, ainda está distante de permitir a compra de cães geneticamente modificados por pessoas interessadas em animais com menor potencial alergênico.

Edição genética também pode ser usada para a saúde dos cães

A mesma tecnologia pode ter aplicações diferentes da criação de características voltadas aos humanos. Pesquisadores já demonstraram que a edição genética pode, em determinadas situações, corrigir mutações associadas a doenças caninas.

Um estudo publicado em 2022 mostrou ser tecnicamente possível editar uma mutação relacionada a problemas no quadril de cães da raça labrador. Isso não significa que a edição de um único gene seja capaz de eliminar doenças complexas. Muitos problemas de saúde resultam da combinação de fatores genéticos e ambientais.

Por isso, especialistas defendem que a melhoria da saúde dos cães também passe por outras medidas. Entre elas estão mudanças nos padrões das raças, maior diversidade genética e exames genéticos mais amplos.

O debate vai além da tecnologia

A criação de animais geneticamente modificados coloca uma questão que não depende apenas do CRISPR. É preciso avaliar para quais objetivos a tecnologia está sendo utilizada e quais consequências podem surgir para os animais.

No caso dos cães hipoalergênicos, o benefício pretendido é permitir a convivência entre pessoas alérgicas e animais de estimação. Ao mesmo tempo, o processo de desenvolvimento pode envolver animais usados como doadores de células ou óvulos, ou como mães de aluguel.

Especialistas em bioética também questionam a necessidade de criar novos animais para atender características desejadas pelos humanos. O debate envolve, portanto, tanto a segurança dos cães modificados quanto as próprias práticas de criação.

A tecnologia pode abrir novas possibilidades para a saúde animal. Mas determinar quais modificações devem ser feitas exige avaliar também seus efeitos sobre o bem-estar dos cães.