Tensão no STF: Moraes e Gilmar acusam Mendonça de atuação política no caso Master e levantam suspeitas
Fonte: fatoatual.com | Data: 15/09/2026 17:11:22
STF: Moraes e Gilmar Mendes em confronto com André Mendonça por atuação política no caso Master
O Supremo Tribunal Federal (STF) viveu uma terça-feira (15) de extrema tensão e embates verbais entre seus membros. A sessão plenária, que visava decidir sobre a abertura de investigação contra o ministro Alexandre de Moraes com base em relatórios da Polícia Federal sobre supostos diálogos com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, foi marcada por acusações mútuas de atuação política e questionamentos sobre a condução de processos.
O ponto alto das discordâncias ocorreu durante uma discussão acirrada entre os ministros Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e André Mendonça. Moraes acusou Mendonça de ter interferido junto à Polícia Federal para posicionar um aliado seu nas negociações da delação premiada de Vorcaro, afirmando possuir testemunhas. Mendonça, por sua vez, negou veementemente as acusações, chamando-as de mentira.
A sessão, que foi retomada após um intervalo, também viu os ministros Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques declararem impedimento ou suspeição para votar no caso, adicionando mais um elemento de complexidade ao cenário já conturbado. As informações foram divulgadas em tempo real pelos veículos de comunicação que acompanham as sessões do STF.
Alexandre de Moraes acusa André Mendonça de agir a serviço de grupo político
O ministro Alexandre de Moraes elevou o tom durante a discussão com André Mendonça, acusando-o de ter incluído supostas provas de seu envolvimento com Daniel Vorcaro por estar “a serviço de um grupo político que quis dar um golpe neste país”. Moraes citou a existência de testemunhas, incluindo policiais e advogados, que comprovariam a intervenção de Mendonça. “Eu tenho testemunhas que o ministro André, em reunião, disse ‘peçam’”, declarou Moraes, ao que Mendonça rebateu: “Mentira, pode chamar quem você quiser, vão mentir”.
Moraes também criticou a alegação de Mendonça de que o relatório da Polícia Federal utilizado em sua citação no inquérito das fake news teria origem “apócrifa”, ou seja, sem assinatura formal. Segundo Moraes, essa alegação demonstra uma “assimetria” e parcialidade na condução das investigações do caso Master, com o objetivo de atingir adversários políticos e poupar aliados. “Toda essa investigação fraudulenta contra mim já começou lá atrás, não dá para julgar uma coisa sem outra”, argumentou.
A tensão se estendeu com a participação do ministro Edson Fachin, que pouco antes também discutiu com Flávio Dino sobre a relatoria de processos envolvendo Moraes e Mendonça. Fachin, presidente do STF, tentou intermediar os debates, mas a atmosfera permaneceu carregada.
Gilmar Mendes entra no embate e acusa Mendonça de condução político-eleitoral
Em outro momento de alta voltagem, o ministro Gilmar Mendes tomou a palavra para criticar as discussões, especialmente a atuação de agentes da Polícia Federal, e entrou em um bate-boca com o ministro Luiz Fux sobre o mesmo tema. Mendes também confrontou diretamente André Mendonça, insinuando uma suposta atuação política na condução do processo do Banco Master.
Gilmar Mendes relacionou a divulgação do relatório contra Moraes à proximidade do Dia da Independência, em 7 de setembro, sugerindo um viés político-eleitoral. “É evidente e até as pedras sabem que há um inequívoco viés político-eleitoral na forma como o tema foi conduzido nos autos dessa petição (processo). Com toda sinceridade: escolha de data, 7 de setembro, todo esse cenário, envolvendo essa Corte em campanha eleitoral”, afirmou Mendes.
André Mendonça reagiu, chamando a fala de Gilmar de “leviana”, mas foi rebatido por Mendes com a afirmação de que ele “vai escutar com tranquilidade”. Após uma interrupção de Fachin, Gilmar Mendes retomou suas críticas em alto tom, reafirmando a “evidente condução político-eleitoral, escolha do 7 de setembro e até pixulecos”. Ele acrescentou: “Isto não se faz, pessoas decentes não fazem isso”. A troca de farpas continuou, com Mendonça pedindo respeito e Mendes respondendo que “quem não se dá respeito, não merece respeito”.
Mendonça rebate acusações e questiona vazamentos de informações sigilosas
O ministro André Mendonça, alvo das críticas de Moraes e Gilmar Mendes, defendeu sua atuação e, em determinado momento, reagiu às insinuações de Gilmar Mendes sobre a escolha da data de divulgação do relatório. Mendonça também questionou a origem dos vazamentos de informações sigilosas sobre as investigações do caso Master. “Quem é que vaza, é a Polícia Federal? É o gabinete do André? É a secretaria do Supremo?”, questionou, apontando para Luiz Fux e afirmando que em seus gabinetes as informações não vazam.
Mendonça afirmou que todos os vazamentos já são alvos de investigação pela própria Polícia Federal. Ele também interveio na discussão entre Dino e Fachin, sinalizando que identificou indícios de práticas delitivas nas dependências do plenário, o que, segundo ele, justificaria a instauração de inquérito de ofício pela Presidência.
Em resposta às acusações de Moraes, Mendonça negou veementemente qualquer participação em um esquema para favorecer ou prejudicar partes em negociações de delação premiada. Ele reiterou que sua atuação sempre pautou-se pela legalidade e pela busca da verdade nos processos sob sua responsabilidade.
Impedimentos e suspeições: Toffoli e Nunes Marques se afastam do julgamento
A sessão plenária do STF foi marcada por mais um incidente: os ministros Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli declararam-se impedidos ou suspeitos para julgar a petição que visa investigar Alexandre de Moraes. Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), afirmou que não se sentia confortável devido à sua atuação na condução das eleições, negando qualquer contato com Daniel Vorcaro e rebatendo informações sobre pagamentos feitos pelo Banco Master a seu filho, Kevin Marques.
Dias Toffoli, por sua vez, declarou sua suspeição para o caso por razões de “foro íntimo”. Toffoli foi o primeiro relator do caso Master no STF, mas havia se afastado voluntariamente dos processos em fevereiro, após surgirem indicações de que ele teria ligação com Vorcaro. A declaração de impedimento e suspeição de ambos os ministros adiciona um novo elemento de incerteza sobre a continuidade e o julgamento do caso.
A decisão de não participar do julgamento por parte de Toffoli e Nunes Marques pode impactar a formação de quórum e a própria decisão final sobre a abertura da investigação contra Moraes, especialmente considerando a atmosfera de polarização e desconfiança que se instalou entre os membros da Corte.
Flávio Dino contesta Fachin por “avocação” de processos e levanta suspeitas sobre imparcialidade
O ministro Flávio Dino também protagonizou um embate com o presidente do STF, Edson Fachin, questionando a conduta de Fachin em assumir a relatoria de processos que antes estavam sob responsabilidade de outros ministros, incluindo a investigação sobre Alexandre de Moraes e o inquérito das fake news. Dino argumentou que a figura da “avocatória”, a tomada de um processo pelo presidente do tribunal, foi abolida pela Constituição de 1988 e que o Regimento Interno do STF impede tal prática.
Dino alertou que a aceitação da destituição de relatores e a avocação de processos pelo presidente poderiam abrir um precedente perigoso, criando uma “avenida de corrupção, de autoritarismo, de despotismo e de tirania nos tribunais”. Diante do impasse, Dino sugeriu a transferência do julgamento sobre Moraes para o dia 23, data em que Mendonça também será julgado por sua atuação no pedido de investigação contra Moraes. As duas questões propostas pelo ministro devem ser analisadas no retorno da sessão.
Em sua defesa, Fachin rechaçou a classificação de que teria “avocado” os processos, explicando que a remessa dos autos à Presidência foi feita pelo próprio relator sorteado, André Mendonça, em razão da competência do plenário para julgar membros do tribunal. O presidente argumentou ainda que a suspensão de andamentos visou garantir a ordem e o cumprimento dos protocolos, mas a argumentação de Dino encontrou apoio em Gilmar Mendes, que defendeu as garantias do “juiz natural”, da imparcialidade e da neutralidade.
O caso Master e o contexto da investigação contra Alexandre de Moraes
A sessão tensa no STF gira em torno de uma investigação que busca apurar supostos diálogos entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso no âmbito da Operação Lava Jato e investigado por crimes financeiros relacionados ao Banco Master. Relatórios da Polícia Federal teriam indicado a existência dessas conversas, levantando suspeitas sobre a conduta de Moraes.
O caso ganhou contornos ainda mais polêmicos com as acusações de atuação política e parcialidade na condução das investigações. Ministros como André Mendonça e Gilmar Mendes apontam para um possível uso político das apurações, com o objetivo de atingir determinados alvos ou influenciar o cenário político. A proximidade das eleições e a natureza das investigações contribuem para um clima de forte polarização no Supremo.
A discussão sobre a legitimidade dos relatórios da Polícia Federal, a origem das informações e a conduta dos próprios ministros envolvidos adiciona camadas de complexidade ao caso. A atuação de cada ministro, as declarações feitas e os impedimentos e suspeições declarados refletem um momento de profunda crise institucional e de questionamento sobre a imparcialidade e a independência do judiciário.
O que pode acontecer a partir de agora no STF
A sessão desta terça-feira (15) no STF, marcada por intensos debates e acusações mútuas, deixa um cenário de incertezas quanto aos próximos passos. A decisão sobre a abertura da investigação contra Alexandre de Moraes, que seria o foco principal, foi adiada ou está em curso de forma tensa, com a possibilidade de novos pedidos de impedimento ou suspeição.
A polêmica em torno da relatoria de processos e a acusação de “avocatória” por parte do presidente Edson Fachin também podem gerar desdobramentos, com potencial para questionamentos sobre a validade de decisões futuras. A intervenção de ministros como Gilmar Mendes em defesa das garantias processuais e a crítica à condução de alguns procedimentos indicam uma possível busca por maior transparência e rigor nas apurações.
O caso Master e as investigações que o cercam prometem continuar gerando debates acalorados no STF. As próximas sessões serão cruciais para definir como a Corte lidará com as acusações de parcialidade, interferência política e vazamentos de informações, buscando restabelecer a confiança pública em suas decisões e em sua autonomia diante de pressões externas e internas.