Morre a jornalista e ativista dos direitos humanos Amelinha Teles
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br | Data: 15/09/2026 17:14:00
Morreu nesta terça-feira (15) em São Paulo a jornalista, escritora e ativista dos direitos humanos Amelinha Teles, aos 81 anos. Presa e torturada pela ditadura militar, ela teve uma vida marcada pela luta contra a tortura e em defesa dos direitos das mulheres. O velório de Amelinha aconteceu no começo da tarde desta terça-feira na reitoria da Unifesp, na zona sul da capital paulista.

Maria Amélia de Almeida Teles, a Amelinha, nasceu em Contagem, em Minas Gerais, em 1944. Começou sua trajetória na militância política na década de 1960 no Partido Comunista Brasileiro e viveu na clandestinidade por oito anos.
Em dezembro de 1972, Amelinha foi levada por agentes da ditadura militar, sendo torturada em frente aos filhos pequenos, por ordens de Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do DOI-CODI, órgão de repressão e tortura. Ficou presa por um ano.
A ativista enfrentou o passado e transformou o sofrimento em motivo para seguir lutando: em 1975, fez parte da criação do jornal Brasil Mulher, feito por e para mulheres, em defesa da anistia e da igualdade de direitos.
Em 1981, fundou a União de Mulheres de São Paulo, movimento que luta pelos direitos das mulheres. Fez parte de projetos como o “Promotoras Legais Populares” e “Maria, Marias” que contribuem para a educação popular de mulheres no acesso à justiça, serviços e políticas públicas.
Em 2016, em entrevista à TV Brasil, Amelinha Teles comentou o que esperava do país.
“Quero um Brasil igualitário, um Brasil justo. Eu queria lá no tempo da ditadura, que era agora também, então esse é meu crime, né? E aí os militares entenderam que isso era ser contra a segurança nacional. Eu tenho muito orgulho de ter cometido esse crime, não me arrependo, e continuo defendendo as mesmas ideias”.
Em 2008, a ação movida pela família Teles, que acusou o coronel Ustra pelo sequestro e tortura de César, Maria Amélia, Criméia, Janaína e Edson Teles, foi crucial para Ustra ser reconhecido como torturador pela Justiça.
Amelinha atuou como assessora da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo, fez parte da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e contribuiu para a efetivação da Lei Maria da Penha.
Repercussão
Nas redes sociais, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência do Brasil, Guilherme Boulos, lamentou a morte de Amelinha e afirmou que “sua coragem diante da violência da ditadura, sua luta incansável pelas mulheres, pelos direitos humanos, pela memória, pela verdade e pela justiça são um legado imenso para o nosso país”.
Em nota, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos destacaram sua atuação histórica na defesa dos direitos humanos, na busca e identificação de pessoas desaparecidas e no movimento feminista no Brasil. A pasta citou a contribuição da ativista nas ações ligadas à identificação de remanescentes ósseos na vala clandestina de Perus e à defesa dos direitos das mulheres.
Em março deste ano, a militante participou de audiência pública sobre enfrentamento à violência doméstica e denunciou a sensação de insegurança gerada pelos recordes de feminicídio no país.
Em suas entrevistas, Amelinha Teles destacava que “um povo que não conhece sua história está fadado ao fracasso”.
* Com produção de Dayana Vitor.