Por que a crise no STF pesa mais contra Lula?
Fonte: radiocom.org.br | Data: 16/09/2026 14:57:50
A sessão que travou o Supremo Tribunal Federal e terminou sem qualquer decisão sobre a abertura de investigação contra o ministro Alexandre de Moraes deve cobrar seu preço mais alto de um lado só da disputa eleitoral. Para o cientista político Renato Della Vechia, doutor em Ciência Política, professor do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e coordenador do Instituto Mário Alves, quem sai mais arranhada da crise é a campanha de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva.
Em entrevista ao Contraponto desta quarta (16), Della Vechia afirmou que o resultado do julgamento é quase irrelevante para medir esse impacto. O estrago, na avaliação dele, já está feito — e foi feito antes mesmo de o plenário se reunir.
O ônus está dado, e não depende do que o Supremo decidir
“A crise, independentemente do desdobramento que ela tiver, joga o maior ônus para a campanha do Lula“, afirmou o professor. A frase foi dita sem hesitação e repetida duas vezes ao longo da conversa, como quem antecipa a objeção óbvia: não importa se o Supremo abre a investigação contra Moraes, se arquiva o caso ou se segue meses sem decidir nada.
O raciocínio é de custo político, não de mérito jurídico. Moraes é, na percepção pública, o ministro mais associado ao governo — associação construída, segundo Della Vechia, a partir da condução dos processos sobre a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. Cada hora de transmissão ao vivo do Supremo em crise devolve essa associação ao eleitor num pacote de desgaste institucional.
O professor apontou então o que considera o ponto cego da cobertura: enquanto Moraes concentra as manchetes, um dos candidatos à Presidência escapa do mesmo grau de escrutínio. “A mídia não está focando naquilo que é fundamental. Nós temos um candidato à Presidência que está diretamente vinculado à origem de toda essa crise“, afirmou.
As suspeitas a que Della Vechia se referiu envolvem desvio de finalidade de recursos, remessas ao exterior e valores não contabilizados. Mais adiante na entrevista, ao tratar do segundo turno, o professor deixou claro de quem falava: para ele, Flávio Bolsonaro chega à reta final com um volume maior de questões de ordem legal a responder do que o adversário — e com menos espaço para contorná-las quando o debate se concentrar em dois nomes.
O efeito, na leitura dele, é que a crise institucional virou abrigo. “Esse elemento passa despercebido porque se esconde dentro da crise e ainda tenta surfar em cima dela, jogando a culpa para uma parcela do Supremo”, disse.
Della Vechia não defendeu poupar Moraes. Ao contrário: sustentou ao longo de toda a conversa que o ministro precisa ser investigado, assim como os demais integrantes da Corte cujos nomes aparecem no caso Master. O que contesta é a assimetria — a mesma crise que expõe um lado funciona como cortina para o outro.
A crise não caiu do céu na véspera da eleição
Della Vechia rejeita a leitura de que a crise irrompeu por acaso em pleno período eleitoral. “Ela não ocorreu por acaso durante o processo eleitoral. Ela ocorreu em função do processo eleitoral“, afirmou. E chamou atenção para o calendário: a escalada começou às vésperas do 7 de Setembro, data que o bolsonarismo transformou em ato político anual.
O professor relatou ter assistido a uma entrevista em que Flávio Bolsonaro exibiu, mais de uma vez e de forma deliberada, palavras escritas na própria mão — entre elas, a data de 7 de setembro. “Ele era um sinal. Ou seja, no 7 de Setembro vai acontecer alguma coisa, prestem atenção”, interpretou. O gesto, segundo ele, repetia recurso já usado pelo pai em campanha anterior.
Para Della Vechia, isso indica coordenação, não coincidência. “É um processo em que as ações são pensadas, os momentos em que elas devem ser feitas são escolhidos e articulados entre membros do Judiciário, do Legislativo e da mídia”, declarou. Nessa leitura, os vazamentos seletivos de informação sigilosa cumprem papel central: liberam o que interessa, no momento em que interessa, e retêm o restante.
A engrenagem do vazamento, aliás, já é objeto em outra investigação. Segundo apuração da Polícia Federal enviada ao Supremo, o perito criminal João Cláudio Nabas acessou em dezembro de 2025 os dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro e produziu dois arquivos sem identificação oficial, batizados de “Moraes.pdf” e “Toffoli e esposa.pdf”, com diálogos e menções aos dois ministros.
Em depoimento, a delegada Janaína Palazzo relatou ter recebido os arquivos do perito, acompanhados de um áudio em que ele afirmava manter contato havia anos com a colunista Malu Gaspar, de O Globo, e sugeria que ela procurasse a jornalista. A delegada recusou e comunicou os superiores. Dias depois, em 9 de dezembro, os dados apareceram publicados na coluna — exatamente como compilados nos arquivos, segundo o relato. Nabas foi afastado e virou alvo da sétima fase da Operação Compliance Zero. O inquérito registra que profissionais de imprensa não são investigados, já que o sigilo de fonte é protegido por lei.
Foi a esse mecanismo que Della Vechia se referiu ao falar de vazamentos seletivos: informação sigilosa que sai pela porta dos fundos, no tempo certo e sobre o alvo certo.
Dois impedimentos que dizem mais do que pretendiam
Dois ministros ficaram fora da votação. Kassio Nunes Marques declarou-se impedido alegando presidir o Tribunal Superior Eleitoral. Dias Toffoli declarou suspeição por foro íntimo. Para Della Vechia, a justificativa do primeiro é a peça mais reveladora da sessão inteira.
“Se ele dissesse que se sente impedido porque existe uma acusação envolvendo o filho dele, daria para entender”, avaliou o professor, referindo-se às menções ao advogado Kevin Marques nos diálogos extraídos do celular de Vorcaro. “Mas o argumento que ele usou foi o de que preside o Tribunal Superior Eleitoral. Se ele presidisse o Tribunal Superior do Trabalho, também se sentiria impedido?“
A pergunta carrega a conclusão. Ao escolher justamente o cargo eleitoral como motivo para não votar, Nunes Marques admitiu publicamente aquilo que está no centro da disputa. “Ele está reconhecendo que esse processo todo foi gerado em função das eleições”, resumiu Della Vechia.
O professor aplicou raciocínio semelhante à declaração de Flávio Bolsonaro de que tem um lado dentro do Supremo. “Numa Corte dividida em que os dois lados têm pessoas com irregularidades, ao dizer que tem um lado, ele está dizendo que uma parte da investigação deve ser conduzida e a outra não“, afirmou. Nos dois casos, segundo ele, os próprios protagonistas confirmaram o vínculo entre a crise institucional e o calendário eleitoral.
O jogo real começa no segundo turno
Se o diagnóstico de curto prazo é desfavorável ao governo, a projeção de Della Vechia para outubro não é de derrota anunciada. Ele descarta, isso sim, o cenário que a campanha petista perseguia. “Eu não acredito que haja um quadro que reverta isso e faça o Lula ganhar no primeiro turno”, disse. Segundo turno, para ele, está dado dos dois lados: ninguém desbanca Lula nem Flávio até lá.
E é exatamente ali que a equação muda. “No segundo turno é outro modelo de eleição“, explicou. “Não é uma eleição sufocada por uma enormidade de candidaturas de governadores, deputados e senadores. Passam a ser dois projetos em disputa.” Mesmo tempo de televisão, debates diretos, duas biografias sob a mesma luz.
Nesse formato, avalia o professor, a vulnerabilidade se inverte. Lula terá de responder por economia, por condução de governo e pelo que não entregou. Já a candidatura adversária, na leitura dele, chega com um volume maior de questões de ordem legal a explicar — e menos espaço para escondê-las quando o debate se concentra em dois nomes.
O que não está garantido é a capacidade da campanha governista de ocupar esse espaço. Della Vechia foi crítico da estratégia atual. “A linha que o Lula está adotando, de dizer que fez muita coisa, que foi o governo que mais fez na educação e em diversas áreas, é insuficiente para as pessoas“, afirmou. “As pessoas querem saber o que vem daqui para a frente. O que vai ser apresentado de novo?” Sem essa resposta, argumenta, a disputa vira comparação entre o que existe e o que se apresenta como novidade.
Quem for eleito decide o Supremo dos próximos vinte anos
Há uma consequência da eleição que não aparece nas pesquisas e que Della Vechia considera decisiva: pelo menos três ministros do Supremo se aposentam no próximo mandato presidencial. “Quem for presidente vai ter nas mãos o destino do Supremo Tribunal Federal para os próximos períodos“, afirmou.
O problema é que indicar ministro deixou de ser gesto tranquilo. No final de abril, o Senado rejeitou em Plenário a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, escolhido por Lula para a vaga aberta com a aposentadoria de Luís Roberto Barroso — episódio sem paralelo na história recente da Corte. “O governo está fragilizado para fazer indicações e ter maioria”, avaliou Della Vechia, apontando que o resultado da disputa pelo Senado tende a apertar ainda mais esse espaço, num contexto em que setores da direita defendem abertamente usar a Casa para abrir processos de impeachment contra ministros.
Sobre a proposta de mandato fixo, que voltou à pauta depois que Lula prometeu uma reforma do Judiciário, Della Vechia apresentou um desenho concreto. “Não é um mandato de quatro anos, mas também não é um mandato que vai até a aposentadoria”, disse. “Se alguém entra lá com 35 anos e fica até os 75, são 40 anos dentro do Supremo.” Ele defende algo entre dez e doze anos, sem recondução.
O critério de escolha, porém, importa mais que o prazo, na avaliação dele. Ninguém é ingênuo a ponto de esperar neutralidade política nas indicações, ponderou, mas há diferença entre considerar o fator político e transformar a vaga em recompensa. “Os senadores têm que ser mais cautelosos, embora isso não resolva, porque existe um elemento político: está do meu lado ou está contra mim.”
A reforma que ninguém está disputando
Para Della Vechia, reforma do Judiciário isolada não resolve — e pode até piorar. Ela precisa vir junto de uma reforma política que mexa no financiamento de campanha e no sistema eleitoral, sob risco de o país seguir remendando. “A população tem a ilusão de que elege seus representantes, quando as próprias pesquisas mostram que os que recebem mais recursos dos partidos são os que se elegem“, afirmou, defendendo a adoção de lista fechada como forma de dar transparência a essa escolha.
O professor foi duro ao avaliar quem deveria estar puxando esse debate. Sindicatos e movimentos sociais, disse, estão voltados demais para dentro. “Reconheço que há pessoas fundamentais, lutadores que dedicam a vida a isso, mas o movimento sindical brasileiro, no geral, é muito cartorial“, avaliou, referindo-se à concentração em dissídios e negociações salariais em detrimento de uma disputa política mais ampla.
Esse vazio, segundo ele, foi ocupado por quem soube fazer o trabalho de base. “A extrema direita conseguiu fazer algo que a esquerda deixou de fazer, que é disputar ideologicamente na base da sociedade”, afirmou. E completou com o diagnóstico mais incômodo da entrevista: “A esquerda hoje está completamente refém da legalidade do processo eleitoral”, dependente de estruturas mantidas por recurso público que poderiam desaparecer com uma canetada.
Della Vechia lembrou que esse debate já foi popular no Brasil, e ilustrou com uma cena que fala direto a quem vive aqui. Na campanha de 1989, o programa de governo virou cinco revistas vendidas em banca de jornal — uma delas dedicada à reforma do Judiciário e das instituições. “Aqui em Pelotas tinha banca de jornal que vendia programa de governo“, disse. A reforma que hoje aparece como novidade de crise já esteve nas mãos do eleitor, por preço de revista, há quase quarenta anos.
Entre a banca de jornal de 1989 e a sessão transmitida ao vivo na terça, o que mudou foi o palco, não a pergunta. Em 4 de outubro, o eleitor decide quem governa até 2030 — e, junto, quem indica pelo menos três ministros ao Supremo. Della Vechia não arrisca dizer se a reforma sai. Arrisca dizer o que acontece se ela não sair: “Se a gente quiser continuar com um sistema que vai permanentemente gerando crises, é só manter esse. Se a gente quer estabilidade no sistema político, tem que mudar.”
Confira a entrevista completa no canal da RádioCom Pelotas no YouTube.
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