Cortes de geração renovável crescem 18% e revelam “vulnerabilidade escondida” do sistema elétrico
Fonte: neofeed.com.br | Data: 17/09/2026 20:17:13
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Um estudo da Volt Robotics revela que os cortes de geração de energia eólica e solar, conhecidos como ‘curtailment’, aumentaram 18,3% em 2026, atingindo uma média de 3.853 MWh. Esses cortes não apenas representam desperdício, mas indicam que o Sistema Interligado Nacional (SIN) opera com margens cada vez mais estreitas. O relatório destaca que a solução não é aumentar os cortes, mas reavaliar suas causas, que variam entre flexibilidade operacional e disponibilidade de linhas de transmissão.
O estudo sugere que o Brasil deve adotar uma abordagem mais estruturada para lidar com o curtailment, reclassificando os cortes e implementando um plano integrado que envolva o Ministério de Minas e Energia e o ONS. Isso incluiria investimentos em transmissão, inércia e flexibilização térmica, visando reduzir o desperdício e permitir a expansão das energias renováveis.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Um novo estudo da consultoria Volt Robotics mostra que os cortes de geração de energia eólica e solar de usinas centralizadas pelo Operador do Sistema Elétrico Nacional (ONS) mudaram de patamar em 2026.
Conhecidos pela expressão curtailment, os cortes – ordenados pelo ONS para não sobrecarregar o sistema elétrico – não simbolizam apenas desperdício de energia renovável e prejuízos para as usinas centralizadas afetadas, mas também um sinal de que o Sistema Interligado Nacional (SIN) opera com margem cada vez mais estreita.
Com base nos dados levantados, o relatório conclui que a solução não é aumentar os cortes de geração. “O erro atual é tratar o curtailment como um problema genérico de sobra de energia, quando, na verdade, as causas são distintas e exigem respostas específicas”, diz Donato Filho, CEO da Volt Robotics.
O levantamento compreende o período de janeiro a agosto de 2026. Nesses primeiros oito meses do ano, o volume médio de cortes chegou a 3.853 megawatts-hora (MWh) médios – uma alta de 18,3% em comparação com o mesmo período de 2025.
Para se ter uma ideia do tamanho do desperdício, esse volume médio de energia solar e eólica cortado daria para abastecer todas as residências das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza no mesmo período. Além do aumento do volume de cortes de geração em relação a 2025, o estudo detectou um crescimento relevante de cortes de geração mais intensos.
No período analisado, foram registrados 51 dias com cortes críticos – nos quais, em ao menos um momento do dia, o corte de geração solar e eólica superou 60% da energia renovável disponível. Em 12 desses dias, os cortes chegaram a 80%.
Considerando o acumulado dos dias críticos deste ano, comparado ao total de 243 dias transcorridos, chega-se à média de um dia crítico a cada cinco dias. No mesmo período de 2025, foram 30 dias com cortes acima de 60%, sendo 7 com patamar de 80%.
Donato afirma que o avanço de 18% no índice de curtailment em 2026 foi menor que o esperado. Segundo ele, o principal achado do levantamento é justamente esse aumento da profundidade dos cortes, acima de 60%.
“Isso mostra que a operação está no limite: para garantir energia no fim do dia, operadores mantêm usinas térmicas ligadas ao longo do dia, reduzindo a margem de manobra nas manhãs com alta geração solar e provocando desequilíbrios”, diz.
De acordo com o executivo, os dados mostram que os cortes atuais mais intensos decorrem de falta de flexibilidade operacional, não de excesso de energia jogada na rede – térmicas precisam estar disponíveis no fim do dia; desligá-las pela manhã dificulta religar depois.
Essa constatação chamou a atenção dos técnicos da Volt, pois evidenciou a necessidade de se reavaliar a classificação dos cortes pelo ONS. Hoje eles são divididos em três modalidades.
Os Cortes de Razão Energética (ENE) são causados pelo excesso de geração, quando há mais oferta do que consumo. Os de Razão Elétrica (REL) são provocados pela indisponibilidade de linhas de transmissão devido a manutenções ou falhas.
Já os de Razão Confiabilidade (CNF) são acionados porque a rede elétrica, apesar de disponível, pode se comportar de forma indesejável caso toda a geração renovável seja escoada, elevando as chances de uma falha (“apagão”).
“Ou seja, os cortes deveriam ser classificados por flexibilidade, refletindo restrições operativas, e não como excedente sistêmico”, afirma Donato.
Nova abordagem
A constatação de que os cortes de geração renovável – que vêm crescendo ano a ano – precisam de uma nova abordagem pelo órgão regulador ganhou peso com a perspectiva de que a solução que vem sendo adotada tende a se esgotar no médio prazo.
Isso porque, quando quase toda a geração solar e eólica controlável for cortada, restará pouco recurso para responder a uma nova queda de consumo, a um desvio de previsão ou à perda de outro elemento da rede elétrica.
“Sem ação e com a expansão da geração distribuída solar, os cortes profundos se intensificarão”, afirma Donato. Segundo ele, a resposta tenderá a cortar cada vez mais agentes – como Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), usinas de biomassa e as usinas de energia distribuída –, todos renováveis, aumentando o desperdício.
Nessa toada, o sistema tende no máximo a avançar para investimentos elevados em automação de cortes sem atacar causas — flexibilidade, transmissão, inércia —, gerando ineficiência cara.
Com essa premissa, os técnicos da Volt Robotics desenvolveram modelos e correlações para simular cenários com base em saídas adotadas por outros países que também enfrentavam índices elevados de curtailment.
No estado do Texas (EUA), por exemplo, o gargalo identificado foi a falta de transmissão. A solução veio por meio de uma regulação que incentivou a entrada rápida de sistemas de transmissão, conectando a geração concentrada no oeste do estado aos centros de carga no leste e sul, o que reduziu drasticamente os cortes.
Na China, o governo percebeu que o excesso de usinas inflexíveis, especialmente térmicas a carvão, impedia a geração das novas fontes renováveis construídas. A resposta foi um programa acelerado de flexibilização dessas térmicas, permitindo que o sistema absorvesse melhor a nova oferta.
No caso da Espanha, o problema diagnosticado foi a falta de inércia no sistema, tornando a rede vulnerável a distúrbios. A solução foi a instalação de compensadores síncronos, equipamentos que conferem inércia e amortecem falhas, impedindo que distúrbios se propaguem e causem apagões.
De acordo com Donato, todos adotaram soluções diferentes para o mesmo problema, o curtailment.
“O Brasil precisa abandonar a visão rasa sobre o curtailment e adotar um plano de ação estruturado”, sugere. O primeiro passo, segundo ele, é reclassificar os cortes com uma metodologia auditável e transparente, identificando se a causa raiz é falta de flexibilidade, necessidade de inércia ou gargalos de escoamento.
A recomendação é que o Ministério de Minas e Energia, como grande orquestrador, lidere um plano integrado com a participação de ONS e outros órgãos do setor elétrico.
Para o executivo, esse plano deve ser cirúrgico: aplicar inércia onde falta estabilidade, expandir transmissão onde falta escoamento e investir em baterias ou flexibilização térmica onde falta agilidade operacional.
“Essa visão sistêmica permitiria que os geradores planejassem investimentos com previsibilidade, retomando a expansão das renováveis e reduzindo o desperdício de energia no País”, assegura Donato.