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Projetos de ao menos R$ 204 bi em infraestrutura ficam para próximo presidente

Fonte: c-level.folha.uol.com.br | Data: 19/09/2026 23:00:00

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São Paulo e Brasília


O próximo presidente herdará uma extensa carteira de concessões de infraestrutura que o atual governo prometeu levar a leilão em 2026, mas não conseguiu tirar do papel. Projetos de rodovias, ferrovias, portos e hidrovias foram adiados e agora avançam para 2027 ou até para os anos seguintes, somando ao menos R$ 204 bilhões de investimento previsto.

Os atrasos atingem alguns dos principais projetos anunciados pela gestão Lula. Dos 13 leilões rodoviários inicialmente previstos para este ano, a expectativa agora é realizar sete.

Nos portos, apenas três dos 18 certames anunciados haviam ocorrido até setembro, enquanto as cinco concessões de hidrovias previstas foram empurradas para frente. A agenda ferroviária também ficou quase toda para o próximo governo.

Trem de carga azul com várias locomotivas e vagões segue sobre ponte elevada de concreto que cruza rio de água barrenta. Vegetação densa e área rural cercam a ponte sob céu claro.

Trem de carga trafega por ferrovia em Rondonópolis, no sul de Mato Grosso


Zanone Fraissat – 06.nov.25/Folhapress

Os projetos de portos que ficaram para 2027 ou depois concentram ao menos R$ 20,8 bilhões em investimentos previstos. O valor considera 13 dos 15 projetos que faziam parte da carteira de leilões anunciada pelo governo para 2026 e que ainda não foram realizados, mas para os quais já existem estimativas de investimento.


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A cifra deverá aumentar, porque há outros empreendimentos ainda em fase de definição. O valor não incorpora projetos para os quais ainda não há uma estimativa consolidada de investimento nem as concessões de hidrovias que também foram adiadas.

Suspensões de estudos, mudanças de cronograma, acúmulo de projetos na ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) e acordo frustrado no TCU (Tribunal de Contas da União) foram alguns dos entraves que fizeram o governo federal adiar projetos.


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Apesar do cenário de atraso em 2026, o atual mandato de Lula se consolidou como a gestão que mais fez concessões de infraestrutura, com 50 leilões de rodovias, portos e aeroportos, de 2023 a 2025, segundo levantamento dos ministérios dos Transportes e de Portos e Aeroportos. O número supera o de projetos executados durante os governos de Jair Bolsonaro e Fernando Henrique Cardoso.

O Ministério dos Transportes havia divulgado, em novembro do ano passado, uma carteira de 13 certames de rodovias para 2026. A previsão não se cumprirá, e projetos com capex (investimento) previsto de R$ 28,8 bilhões ficarão para o próximo mandato.

Até o momento, três leilões já foram realizados: o lote das Rotas Gerais (BR-116/251/MG), a Rota dos Sertões (BR-116/324/BA/PE) e o trecho de 383 km da rodovia Régis Bittencourt (BR-116/SP/PR), que passou por repactuação.

A pasta prevê realizar, até o fim do ano, mais quatro leilões, totalizando sete em 2026. O ministério afirma ter 32 projetos rodoviários em planejamento e estudos para os próximos ciclos de concessões, além dos projetos previstos para este ano que foram reprogramados para 2027.

A definição do cronograma e das datas dos próximos leilões será divulgada em novembro, segundo a pasta.

Anteriormente divulgadas para 2026, as otimizações da Rodovia Transbrasiliana (SP), da Rota Planalto Sul (PR e SC) e da Rota Litoral Sul (PR e SC) ficarão para o próximo mandato presidencial. Essas concessões fazem parte dos contratos estressados, projetos antigos que fracassaram e tiveram de passar por repactuação.


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Também foram adiados os leilões dos lotes 1 e 3 das Rodovias Integradas de Santa Catarina.

No setor de ferrovias, projetos com R$ 154,9 bilhões de investimento previsto vão passar para o próximo mandato.

Somente um dos oito leilões previstos pelo Ministério dos Transportes deve ser realizado ainda neste ano, o do Corredor Minas-Rio, marcado para dezembro.

O ministro dos Transportes, George Santoro, disse em entrevista à Folha que o governo planeja publicar ainda neste ano os editais do Anel Ferroviário do Sudeste (EF-118), que conecta Rio e Espírito Santo, e da Malha Oeste, entre São Paulo e Mato Grosso do Sul. Afirma querer resolver, também em 2026, o imbróglio da Ferrogrão (EF-170), que entrou em nova polêmica envolvendo o pagamento dos estudos que embasam o projeto ferroviário.

Ainda não há data para os leilões.

O Ministério dos Transportes apresentou na terça-feira (15) a empresas e bancos, em evento em São Paulo, uma carteira de sete trechos ferroviários “shortline” (de curta extensão) com potencial para transporte de cargas e passageiros. A pasta prevê levar a leilão, até o fim do ano, pelo menos dois deles, no modelo de autorização.

Na modelagem, empresas privadas podem construir e operar essas malhas por conta própria.


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“Concessão é muito mais complexo, eu não vou fazer na afobação. Eu vou fazer seguindo o rito tranquilo: vou publicar os editais, e o próximo governo faz leilão”, afirma.

“A grande questão é que a gente não tinha uma trajetória de fazer concessões de ferrovias, principalmente greenfield [novos projetos]. A gente está colocando no mercado projetos gigantescos. Sem modelagens, sem previsão de cobertura de ‘gap’ de viabilidade, sem previsão de tudo isso, a gente teve que trabalhar no TCU, e tudo isso foi aprovado recentemente. Eu acredito que a gente vai publicar editais neste ano para os leilões acontecerem no início do próximo ano”, acrescenta Santoro.

Para Maurício Portugal, especialista em infraestrutura e concessões e colunista da Folha, a redução do número de projetos levados a leilão também está relacionada ao calendário político.

“É natural você conseguir fazer menos leilões no ano eleitoral. O governo fica muito mais sensível a esse tipo de pressão”, afirma.

Há atraso também no cronograma de projetos anunciados pelo Ministério de Portos e Aeroportos, que deveria ter avançado ao longo de 2025 e 2026.


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No início deste ano, o MPor apresentou uma carteira de 18 leilões portuários para 2026, além da intenção de avançar com cinco concessões de hidrovias. Até setembro, apenas três foram realizados. Os outros 15 permanecem pendentes, parte deles ainda em consultas públicas, ajustes de estudos, análise regulatória ou sem data definida para licitação. As cinco concessões de hidrovias foram adiadas.

O quadro expõe a dificuldade para tirar do papel uma agenda considerada estratégica para aumentar os investimentos privados na infraestrutura aquaviária.

No caso das hidrovias, a proposta é transferir para concessionárias serviços como dragagem, sinalização, balizamento, monitoramento e manutenção dos canais navegáveis, em contratos de longo prazo.

Nos portos, a carteira inclui desde arrendamentos de terminais até concessões de canais de acesso.

O governo chegou a prever para 2026 o primeiro leilão de uma hidrovia federal, no rio Paraguai.

Para os rios Madeira, Tocantins, Tapajós e outros projetos, os calendários foram sendo alterados à medida que os estudos avançavam e encontravam dificuldades técnicas, ambientais e jurídicas.

Os projetos estão hoje em estágios diferentes e ainda dependem de definições básicas.


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No Madeira, o governo teve de rever a modelagem após embates com comunidades locais e indígenas. O mesmo ocorreu com o plano para o Tapajós e Tocantins, hoje sem datas para leilão.

Do lado dos portos, até setembro, apenas três dos 18 leilões foram efetivamente realizados: o POA26, no porto de Porto Alegre; o MCP01, no Porto de Santana, no Amapá; e o NAT01, no porto de Natal.

Isso deixa 15 projetos da carteira original ainda sem leilão. Entre eles estão alguns dos empreendimentos apontados pelo setor como os mais aguardados, como o Tecon Santos 10, no porto de Santos, que se transformou em campo de batalha sobre o modelo de licitação e acabou dividindo o próprio governo.

O projeto prevê R$ 6,4 bilhões em investimentos.


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Há projetos que sequer concluíram etapas anteriores ao lançamento do edital. O ITJ01, em Itajaí (SC), por exemplo, passou por consulta e audiência pública apenas entre junho e agosto deste ano. A previsão é de investimento de R$ 2,66 bilhões.


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A Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários) abriu o processo para receber contribuições sobre os documentos técnicos e jurídicos. Eles servirão de base para a futura licitação do terminal de cargas gerais e contêineres no porto catarinense.

Outro exemplo é o canal de acesso ao porto de Santos, com R$ 6,45 bilhões de investimento previsto. A audiência pública ocorreu somente em 1º de setembro, e o prazo para envio de contribuições permanece aberto até 29 de setembro. Depois disso, as sugestões ainda precisam ser analisadas antes das etapas seguintes do processo.

Os canais de acesso são uma nova fronteira do programa de concessões do governo. Em 2025, o Brasil realizou em Paranaguá, no Paraná, o primeiro leilão desse tipo.

O modelo transfere para um agente privado obrigações como dragagem e manutenção do acesso marítimo, em troca de cobrança pelos serviços.

Por meio de nota, o MPor declarou que “a carteira de leilões portuários segue em execução, com projetos em diferentes etapas de estruturação, análise técnica, avaliação regulatória, controle externo, consulta pública e preparação para publicação de edital”.

O MPor disse que trabalha também para leiloar, ainda neste ano, pelo menos mais dois aeroportos regionais e busca uma solução para incluir outros seis em negociação em andamento com a renovação da concessão de Viracopos.


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Depois de Paranaguá, o governo pretendia avançar em 2026 com quatro novos projetos ligados aos acessos de Santos, Itajaí, Rio Grande e Salvador. Nenhum desses quatro novos canais foi levado a leilão até setembro, e não há data marcada para ocorrer neste ano.

Isadora Cohen, sócia da ICO Consultoria e especialista em infraestrutura, avalia que parte da explicação está no perfil dos projetos que permaneceram na carteira.

Depois da realização das concessões mais atraentes, sobraram empreendimentos mais difíceis de estruturar. “A gente tinha projetos que iam misturar um pouquinho de filé com osso”, diz.