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Publicidade médica: visibilidade não substitui reputação, afirma neurocirurgião

Fonte: alagoasnanet.com.br | Data: 19/09/2026 20:38:13

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Foto: Magnific

Publicidade médica: visibilidade não substitui reputação, afirma neurocirurgião

A publicidade médica voltou à pauta do Conselho Federal de Medicina nesta semana. Em 9 de setembro, o tema foi discutido em reuniões da diretoria do CFM com presidentes dos Conselhos Regionais de Medicina e conselheiros do CRM do Espírito Santo. Os encontros antecederam o II Encontro Nacional dos Conselhos de Medicina, realizado nos dias 10 e 11, em Vitória (ES), cuja programação também incluiu uma discussão sobre a exposição de imagens de pacientes à luz do Manual da Publicidade Médica e do Código de Ética Médica.

Para o neurocirurgião e empresário Isaac Bertuol, com 23 anos de atuação na medicina, a ampliação das possibilidades de comunicação trouxe uma questão que vai além de saber o que pode ou não ser publicado nas redes sociais. O médico, segundo ele, precisa compreender que visibilidade é apenas uma parte da construção da carreira. “Eu vivia a lógica comum a muitos médicos, foco total na técnica e na agenda. Quando comecei a estruturar modelo de receita, posicionamento e gestão, os resultados se tornaram mais previsíveis”, afirma.

A experiência de Bertuol reúne a prática assistencial e a gestão. Médico com mais de duas décadas de carreira, ele acumula mais de 10 mil procedimentos e mais de 70 mil pacientes atendidos, segundo dados do Tittanium DOC, frente de educação empresarial da qual é mentor.

A discussão ganha relevância porque a Resolução CFM nº 2.336/2023 ampliou as possibilidades de divulgação profissional. Desde março de 2024, médicos podem, seguindo critérios específicos, divulgar o próprio trabalho nas redes sociais, mostrar equipamentos disponíveis no local de atendimento, informar preços de consultas e utilizar imagens de pacientes em determinadas situações de caráter educativo. Ao mesmo tempo, permanecem limites relacionados a sensacionalismo, promessa de resultados, concorrência desleal e uso inadequado de imagens.

A própria norma estabelece que as redes sociais podem ser utilizadas para informar a sociedade sobre competências, qualificações e locais de atuação dos médicos. Também admite que esses canais tenham como finalidade a manutenção ou ampliação da clientela, desde que as demais regras éticas sejam respeitadas.

Para Bertuol, no entanto, a possibilidade de comunicar mais não deveria levar o profissional a reduzir posicionamento a exposição.

“Eu percebi que excelência cirúrgica não garantia estabilidade. Quando organizei processos, defini posicionamento claro dentro da especialidade e passei a tomar decisões com visão empresarial, minha carreira ganhou direção”, relata.

Quando a agenda cheia deixa de ser suficiente

Durante boa parte da formação e da prática médica, o desempenho profissional costuma ser associado ao domínio técnico, ao número de atendimentos e à ocupação da agenda. A experiência como empresário levou Bertuol a olhar também para indicadores que raramente fazem parte da graduação médica.

Finanças, processos, liderança, experiência do paciente e posicionamento passaram a integrar a análise da própria carreira.

Essa mudança não significa tratar medicina como uma atividade puramente comercial. Para o neurocirurgião, ocorre justamente o contrário: uma operação organizada pode dar ao profissional melhores condições para exercer a atividade médica sem depender permanentemente de uma rotina de atendimentos no limite da capacidade.

“Empreender é estruturar. É garantir que o médico tenha clareza financeira, tempo e sustentabilidade para exercer a profissão com tranquilidade”, afirma.

A lógica também altera o significado de crescimento.

Ter mais pacientes pode representar aumento de receita, mas também pode produzir jornadas maiores, atrasos, sobrecarga da equipe e perda de qualidade quando a estrutura não acompanha a demanda.

Por isso, Bertuol defende que o médico observe a carreira sob duas perspectivas simultâneas: a do profissional responsável pela assistência e a do gestor responsável pela sustentabilidade da operação.

Autoridade começa antes das redes sociais

A discussão sobre publicidade médica tende a colocar Instagram, produção de conteúdo e exposição profissional no centro da conversa. Para Bertuol, porém, a autoridade começa antes da publicação.

Ela aparece na forma como o médico conduz o atendimento, organiza a jornada do paciente, prepara a equipe, estabelece processos e se posiciona dentro da própria especialidade.

Um perfil com grande audiência não corrige uma experiência ruim no consultório. Da mesma forma, a publicação frequente de conteúdo não substitui uma proposta profissional clara.

Na avaliação do neurocirurgião, o primeiro passo é responder a uma pergunta aparentemente simples: pelo que aquele médico pretende ser reconhecido?

A partir dessa definição, comunicação, especialização, experiência do paciente e modelo de atendimento precisam seguir uma direção coerente.

É justamente nessa diferença entre aparecer e construir reputação que a psicóloga e empresária Fernanda Tochetto, fundadora do Tittanium Club, concentra parte do trabalho desenvolvido ao lado de Bertuol com profissionais da saúde.

“Autoridade não é sobre ter seguidores. É sobre gerar impacto. Ela precisa ser sustentada por coerência, posicionamento e pelos resultados que o profissional entrega”, afirma Fernanda.

O médico também virou gestor

A transformação mais difícil, segundo Bertuol, acontece quando o profissional percebe que ser tecnicamente preparado não significa estar preparado para administrar uma clínica ou a própria carreira.

O médico que trabalha de forma independente passa a lidar, ainda que não tenha recebido formação específica para isso, com contratação de pessoas, fluxo financeiro, experiência do paciente, processos, marketing, relacionamento, precificação e planejamento.

Quando essas decisões continuam concentradas exclusivamente no profissional, surge outro problema: o médico pode se transformar no principal gargalo da própria operação.

Se toda decisão depende dele, mais pacientes significam também mais demandas sobre a mesma pessoa.

É nesse ponto que gestão deixa de ser uma discussão restrita ao faturamento e passa a envolver qualidade de vida e sustentabilidade profissional.

Bertuol resume essa transformação a partir da própria experiência: “Eu sei o que é viver apenas de agenda. Também sei o que muda quando você estrutura a carreira. Compartilhar isso com outros médicos é dividir um aprendizado que faz diferença real”.

Essa visão passou a orientar sua atuação como mentor do Tittanium DOC, iniciativa voltada a médicos que pretendem incorporar gestão, autoridade, modelo de negócio e previsibilidade à carreira. A proposta parte da transição do papel exclusivamente técnico para uma atuação que também considere liderança e organização empresarial.

Cinco pontos que o médico precisa observar além da divulgação

Na avaliação de Bertuol, a discussão sobre presença profissional deveria avançar sobre cinco áreas.

A primeira é o financeiro. Saber quanto entra na conta não significa conhecer a saúde da operação. Custos, margem, capacidade de investimento, previsibilidade e dependência da produção individual precisam ser acompanhados.

A segunda são os processos. Da marcação da consulta ao acompanhamento posterior, a experiência não pode depender exclusivamente da memória ou da intervenção direta do médico.

A terceira é a equipe. Profissionais que crescem precisam aprender a formar pessoas capazes de sustentar o padrão de atendimento sem exigir que toda decisão chegue ao dono da clínica.

A quarta é o posicionamento. A presença digital deve refletir a trajetória e a área em que o médico pretende construir reconhecimento, respeitando as regras estabelecidas pelo CFM.

Por fim, está a experiência do paciente. Comunicação, acolhimento, organização e acompanhamento também participam da percepção de valor e confiança construída ao longo da relação.

Mais liberdade para comunicar exige mais responsabilidade

Ao atualizar suas regras, o CFM deixou de trabalhar com uma lógica predominantemente restritiva e passou a permitir novas formas de divulgação. O próprio relator da resolução, Emmanuel Fortes, resumiu a mudança à época como uma ampliação da liberdade de anúncio acompanhada de responsabilidade e vedação ao sensacionalismo.

A retomada do assunto pelo Conselho nesta semana mostra que o debate permanece atual.

Para Bertuol, essa liberdade torna ainda mais importante separar marketing de construção de carreira.

O profissional pode utilizar as redes para explicar sua atuação e tornar seu conhecimento mais acessível, mas a reputação médica continua sendo construída em um horizonte muito mais longo do que o alcance de uma publicação.

Depois de 23 anos na profissão, o neurocirurgião vê nessa combinação entre técnica e gestão uma mudança necessária para quem deseja construir uma carreira sustentável.

“A medicina continua sendo o centro. Gestão, processos e posicionamento não substituem o conhecimento médico. Eles criam uma estrutura para que esse conhecimento possa ser exercido com mais direção, organização e sustentabilidade”, conclui.