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Fui plateia de sitcom nos EUA e até gravei as risadas de claque; conheça bastidores

Fonte: noticiasdatv.uol.com.br | Data: 20/09/2026 08:20:40

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Como jornalista especializado em televisão há quase duas décadas, já tive a oportunidade de assistir a gravações de novelas, talk shows e programas de auditórios. Enquanto fã, faltava acompanhar uma sitcom, aquelas comédias com plateia estilo Friends (1994-2004) e The Big Bang Theory (2007-2019). No fim de agosto, pude realizar esse sonho –e ainda consegui gravar a claque, a risada de fundo que acompanha as piadas do episódio.

A série escolhida foi Happy’s Place, ainda inédita no Brasil. Protagonizada pela cantora Reba McEntire, ícone da música country e ex-técnica do The Voice norte-americano, ela conta a história de Bobbie, uma mulher que descobre que tem uma meia-irmã bem mais jovem, Isabella (Belissa Escobedo), fruto de um caso extraconjugal de seu pai. As duas precisam aprender a conviver ao mesmo tempo em que administram um bar que herdaram juntas.

Para conseguir um lugar na plateia, é preciso muito planejamento: pedi em 15 de julho o ingresso para a gravação de 25 de agosto –como ia passar uma semana em Los Angeles, minhas opções de datas eram limitadas. A aprovação veio em 3 de agosto, com uma série de regras e recomendações sobre roupas a vestir, horário de chegada e comportamento no estúdio.

Horas antes da gravação, um baque: a cantora Dolly Parton (1946-2026) havia morrido. As duas artistas eram grandes amigas –não por acaso, foi Reba quem fez a homenagem à rainha do country na cerimônia do Emmy realizada na última segunda-feira (14). A gravação ia acontecer normalmente? Ou Reba a cancelaria por não ter condições de trabalhar? Ninguém sabia dizer.

O exterior do estúdio onde Happy’s Place é gravada (Luciano Guaraldo/Notícias da TV)

Na dúvida, segui normalmente para o ponto de encontro marcado, no estacionamento do Universal Studios Hollywood (sim, o parque de diversões também funciona como estúdio, e filmes e séries são rodados lá, ao lado de montanhas-russas e outros brinquedos). Deveríamos estar no local às 16h, mas cheguei por volta das 15h40 e já havia uma fila de pessoas passando pelo detector de metais e esperando a hora de seguir para a gravação.

As produtoras e assistentes que organizavam a plateia logo deram o alerta: “Caso Reba se aproxime para conversar, ninguém comenta sobre a morte de Dolly Parton. É um dia difícil para todos, mas queremos manter a energia lá no alto e trazer um pouco de diversão em um momento triste”.

O aviso se provou inútil: a própria Reba fez questão de mencionar a amiga antes de iniciar a gravação. “Hoje é um dia muito duro, mas Dolly acreditava que o show tem que continuar e ficaria brava comigo se eu cancelasse tudo. Então, em homenagem a ela, vamos seguir. O episódio de hoje será dedicado à minha amiga Dolly Parton!”, anunciou a protagonista.

Por uma coincidência mórbida (ou por uma forcinha do destino), o episódio em questão ainda retratava o feriado do Día de los Muertos, versão latina (e mais festiva) do nosso Finados. Um altar repleto de oferendas aos mortos foi montado no bar cenográfico, com destaque para o pai de Bobbie e Isabella. Reba confidenciou à plateia que colocou uma foto de Dolly no cenário, um detalhe que provavelmente passará despercebido ao público de casa.

A gravação em si é bastante demorada. O horário marcado para a chegada era 16h, mas só deixamos o estúdio às 21h30, quando o parque de diversões já estava até fechado. Tudo isso para gravar um episódio de 20 minutos –isso porque duas cenas que envolviam efeitos especiais e um cenário secundário já tinham sido rodadas no dia anterior e foram apenas exibidas em um televisor para que as risadas da plateia pudessem ser capturadas.

As cenas são repetidas duas, três, quatro, cinco vezes. Qualquer coisa é motivo para refazê-la: uma atriz que virou de costas para a câmera, uma fala esquecida, uma iluminação estourada, uma marcação errada… Em alguns momentos, eu sequer consegui descobrir por que uma sequência precisava ser refeita, já que a tentativa anterior parecia perfeita.

Para a plateia, o desafio é rir das piadas como se estivesse as vendo pela primeira vez. E aí vem o pulo do gato: todos os roteiristas e produtores da série acompanham a gravação do estúdio, em um cenário ao lado do bar de Bobbie e Isabella, e sugerem novas piadas conforme os trabalhos acontecem. Se o roteiro original não funciona como o esperado, há um brainstorm ao vivo de zoeiras e trocadilhos, e as melhores são testadas com a plateia ali.

Uma piada que surgiu de repente, sobre a barwoman Gabby (Melissa Peterman) usar fraldas geriátricas na época de Halloween porque promove uma competição de sustos com o cozinheiro Emmett (Rex Linn), pegou a plateia tão de surpresa e gerou tantas risadas inesperadas que foi recuperada outras duas vezes ao longo do episódio. Percebe-se que não há nenhum apego pelo roteiro original, e tudo pode mudar em cima da hora caso aumente o nível de humor –mantendo-se sempre o fio principal da narrativa, é claro.

Entre uma cena e outra, enquanto a equipe arrumava o cenário e a diretora Pamela Fryman conversava com os atores, um humorista surgia para interagir com a plateia e manter a energia lá em cima. Bill Sindelar distribuiu prêmios, contou histórias de bastidores e fez piadas com um ou outro visitante –algo que também acontece nos talk shows norte-americanos.

Para aguentar a maratona de mais de cinco horas, todos receberam um lanche (com sanduíche natural, barrinha de cereal e uma garrafa de água). Já o uso de celular era expressamente proibido, mesmo quando nada estava sendo gravado. Os aparelhos precisavam ser desligados (apenas colocar no modo avião não bastava) e, se alguém fosse flagrado tentando usá-los às escondidas, seria retirado do estúdio na mesma hora –o que não aconteceu.

luciano guaraldo/Notícias da tv

Fotos do elenco na entrada do estúdio; raro momento para tirar foto

O elenco também aproveitava as pausas para conversar com o público. Rex Linn brincou que nós rimos demais de uma piada sobre seu corpo, Melissa Peterman fez dancinhas, e até Reba McEntire respondeu perguntas da plateia sobre sua coleção de sapatos e sobre o mundo do entretenimento.

No fim da gravação, enquanto a plateia lotava o ônibus que nos levaria de volta ao estacionamento do Universal Studios, o elenco e a equipe se preparavam para começar tudo de novo: no dia seguinte, eles fariam a primeira leitura de mesa do próximo episódio, reiniciando o ciclo que repetem 18 vezes por temporada.