Escavações no Nepal buscam rastros históricos do homem por trás de Buda
Fonte: aventurasnahistoria.com.br | Data: 20/09/2026 09:29:05
Em Lumbini, localidade no sul do Nepal, perto da fronteira com a Índia, a rotina de peregrinos e orações divide espaço com investigações científicas no subsolo.
Na região reverenciada por devotos como o berço de Sidarta Gautama, o líder espiritual conhecido como Buda, arqueólogos realizam escavações para rastrear a existência do homem histórico e definir o período em que ele viveu.
Conforme reportado pela revista Smithsonian, os trabalhos se concentram no Templo Maya Devi e nas ruínas de Tilaurakot, a cerca de 27,36 quilômetros de distância, apontada por especialistas como a antiga cidade de Kapilavastu, onde o mestre teria passado a infância.

Busca pelas origens históricas
A investigação arqueológica ocorre em meio a divergências conceituais sobre a figura do fundador do budismo. Em abordagens seculares ocidentais, o líder é interpretado como um pensador que alcançou percepções sobre a mente humana por meio da meditação.
Em tradições asiáticas, a narrativa sobre sua vida inclui episódios místico-religiosos. A ausência de registros escritos contemporâneos à sua vida motivou debates sobre a precisão das biografias espirituais.
John S. Strong, professor emérito de estudos religiosos no Bates College, nos Estados Unidos, explicou:
Cada narrativa sobre ele foi influenciada por memórias históricas, ênfases doutrinárias, preocupações rituais, lealdades políticas, fatores sociais e culturais, ou simplesmente pelo desejo de contar uma boa história”.
No século 19, parte da comunidade acadêmica considerava a biografia de Buda uma construção alegórica. No século 20, consolidou-se a hipótese da existência de um indivíduo real, sustentada pela descoberta do pilar de arenito erguido em Lumbini pelo imperador Ashoka, que governou a região no século 3 a.C..
Em 2017, David Drewes, docente na Universidade de Manitoba, no Canadá, reacendeu o debate ao publicar um artigo no Journal of the International Association of Buddhist Studies afirmando que “mais de dois séculos de estudos falharam em estabelecer qualquer coisa sobre ele”.
Já o Dalai Lama, líder espiritual tibetano, defendeu em livro publicado em 2012 a realização de exames científicos em relíquias, registrando considerar “bastante vergonhoso que ninguém, nem mesmo os budistas, saiba quando nosso mestre realmente viveu”.
Estruturas subterrâneas em Tilaurakot
As pesquisas em Tilaurakot revelaram vestígios de uma cidade fortificada cercada por muralhas, com malha viária e assentamentos urbanos datados do século 6 a.C., além de um templo com parede curva.
Robin Coningham, arqueólogo da Universidade de Durham, na Inglaterra, e co-líder das escavações, avaliou que “o templo apsidal é realmente empolgante, porque você só obtém templos apsidais neste período em locais centrais associados à peregrinação budista”.
Segundo a Smithsonian, a equipe de pesquisadores também desenterrou moedas de prata com marcas de punção do século 3a.C. e estruturas de apoio ao longo do caminho de peregrinos que liga Lumbini a Tilaurakot. O governo do Nepal apresentou a candidatura de Tilaurakot ao título de Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
A identificação definitiva do local como a antiga Kapilavastu permanece como hipótese, dada a ausência de inscrições textuais no complexo. Michael Croft, ex-representante da Unesco no Nepal, destacou que o subsolo da região guarda uma enorme densidade de restos arqueológicos, afirmando que “você chuta a terra lá e há algo debaixo dela”.
Desafios para a preservação
O avanço urbano e o crescimento do turismo na Municipalidade Cultural de Lumbini, criada em 2014, trouxeram desafios de preservação. O local abriga hoje mais de 80 hotéis e um comércio voltado aos visitantes.
Com a expansão do aeroporto de Bhairahawa em 2022 para voos internacionais, Hit Bahadur Tamang, ministro da Cultura, Turismo e Aviação Civil do Nepal, declarou que “o governo do Nepal está pronto para receber milhões de visitantes em Lumbini”. O aumento das atividades econômicas e a poluição provocam a degradação das ruínas históricas.
Kosh Prasad Acharya, arqueólogo nepalês e co-líder das escavações locais, manifestou preocupação com o impacto do fluxo de pessoas, observando que “as pessoas ficam muito felizes em desenvolver os locais para o turismo, porque obtêm renda instantânea com isso”, mas “não consideram a capacidade de carga dos locais”. Em 2024, pareceristas da Unesco recomendaram colocar Lumbini na lista de patrimônios mundiais em perigo devido à deterioração do conjunto.
Basanta Bidari, arqueólogo nepalês que atua na região desde 1985, sintetizou a transformação econômica ao afirmar que “atualmente, onde há um Buda há um dólar”.
Divergências sobre a cronologia
Escavações sob o Templo Maya Devi identificaram os buracos de estaca de uma estrutura de madeira ao redor de uma árvore, datada do século 6 a.C., situada abaixo dos níveis construídos por Ashoka. Os responsáveis pela pesquisa consideram que a estrutura pode representar o santuário budista mais antigo da região.
Essa interpretação é contestada por outros pesquisadores. Oskar von Hinüber, professor emérito de indologia na Universidade de Freiburg, na Alemanha, argumentou que a estrutura pode ser apenas um santuário animista dedicado a espíritos de árvores:
Não há o menor traço de algo que conecte o santuário a Buda, exceto o fato de estar localizado em Lumbini”.
Líderes religiosos locais acompanham as descobertas científicas com diferentes perspectivas. Chökyi Nyima Rinpoche, abade do Templo dos Mil Budas em Lumbini, declarou que “respeitamos a ciência, mas o que quer que a ciência diga não é necessariamente 100 por cento correto”, destacando que a fé estimula virtudes humanas.
A monja nepalesa Ani Choying Drolma lembrou que o próprio mestre desencorajava a aceitação cega de dogmas:
O Buda disse: ‘Não acredite em nada só porque estou dizendo. Só acredite em algo quando você mesmo tiver feito a pesquisa.’ Ele nunca diz: ‘Eu vou libertar você.’ Ele apenas diz: ‘Eu vou lhe mostrar o caminho’”, citou a monja.
*Sob supervisão de Fabio Previdelli