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Uma luta que transforma o Brasil

Fonte: oglobo.globo.com | Data: 21/09/2026 00:27:26

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Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência é, sim, uma data para ser celebrada

O instituto Benjamim Constant idealizou um álbum de figurinha da Copa do Mundo 2022 para  menino com deficiência visual
O instituto Benjamim Constant idealizou um álbum de figurinha da Copa do Mundo 2022 para menino com deficiência visual — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

O 21 de setembro carrega uma palavra que diz muito sobre a história das pessoas com deficiência no Brasil: luta. Luta por direitos, autonomia, acessibilidade, educação, trabalho, independência, transporte, oportunidades, dignidade, respeito e pelo combate à discriminação. Uma luta que ainda não terminou, mas já derrubou barreiras, virou lei, abriu portas e tem ajudado a transformar a maneira como a sociedade enxerga milhões de brasileiros.

Por isso, o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência é, sim, uma data para ser celebrada. Celebrar quem nunca aceitou que uma deficiência pudesse significar menos direitos, menos sonhos ou menos possibilidades. Celebrar famílias, movimentos, entidades e organizações que fizeram dessa causa uma pauta essencial. E celebrar cada conquista sem esquecer o quanto ainda precisamos avançar.

Há mais de 20 anos, essa luta também se tornou parte da minha história pessoal.

Quando minha filha, a princesa Ivy, nasceu com síndrome de Down, conheci essa causa primeiro como pai. Vieram dúvidas, aprendizados e uma nova maneira de olhar o mundo. Mais tarde, como homem público, entendi sua verdadeira dimensão. Aquilo que aprendi com a Ivy passou a ser uma das maiores missões da minha vida política.

No Senado, tive a honra de ser relator da Lei Brasileira de Inclusão (LBI). A LBI ajudou a consolidar uma mudança que faz toda a diferença e representa um marco civilizatório no país. Desde 2015, a pessoa com deficiência é sujeito de direitos e deve ter asseguradas condições para exercer sua cidadania com liberdade, autonomia e igualdade de oportunidades.

Também aprendi que falar de pessoa com deficiência é falar de famílias inteiras. Foi desse olhar que nasceu uma lei de minha autoria, em vigor desde 2016, que garante ao servidor público federal que tenha cônjuge, filho ou dependente com qualquer tipo de deficiência o direito a horário especial de trabalho, sem a obrigação de compensar posteriormente essas horas. Parece uma mudança simples. Para quem precisa conciliar trabalho com terapias, consultas e cuidados, pode mudar uma vida. Precisamos cuidar de quem cuida.

É disso que a política precisa tratar: de não ficar só na teoria e transformar a vida real das pessoas.

Avançamos muito. Mas ainda encontramos pessoas com deficiência fora do mercado de trabalho, crianças enfrentando barreiras para estudar, cidades que não oferecem acessibilidade, assistência social ou transporte adequado. Infelizmente, muitas famílias ainda lutam por uma saúde pública de qualidade e pelo acesso aos tratamentos de que necessitam pelo SUS. E existe uma barreira que é prioridade ser eliminada de vez e que pode ajudar a derrubar muitas outras: o preconceito.

Conscientizar também é transformar. É entender que inclusão não é favor, concessão ou gesto de bondade. É direito. E acessibilidade não beneficia apenas quem tem uma deficiência. Uma sociedade que elimina barreiras se torna melhor para idosos, crianças, famílias e, no fim, para todos nós.

Talvez uma das maiores mudanças ao longo desses anos tenha sido perceber cada vez mais pessoas com deficiência ocupando os espaços e falando por si mesmas. Pessoas que estudam, trabalham, praticam esportes, constroem famílias, defendem seus direitos e escolhem os próprios caminhos.

Vejo isso também na Ivy. Hoje, aos 21 anos, ela cursa Artes Cênicas, trabalha, ganha seu dinheiro, faz planos e sonha em ser atriz. A menina que me apresentou essa causa cresceu. E eu cresci muito com ela. Sei que falo de um lugar de privilégios.

Mas olho para trás e tenho orgulho de cada direito conquistado por 15 milhões de pessoas com deficiência. Olho para frente e sei que ainda há muito para avançar. Precisamos olhar para o país que queremos deixar para as futuras gerações.

Neste 21 de setembro, celebro cada pessoa com deficiência que abriu uma porta para quem veio depois; cada família que transformou dificuldade em mobilização; cada movimento que fez da indignação uma conquista; e todos aqueles que entenderam que um Brasil verdadeiramente democrático precisa ser um país para todos.

Minha filha me apresentou essa causa. Milhões de brasileiros me ensinaram o tamanho dela.

A luta das pessoas com deficiência já mudou o Brasil. E, enquanto houver uma barreira a derrubar, essa luta também continuará sendo a minha.

*Romário Faria é senador (Sem partido-RJ), relator da Lei Brasileira de Inclusão e autor da Lei 13.370/2016

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