O que é preciso para prevenir suicídio?
Fonte: diariodonordeste.verdesmares.com.br | Data: 21/09/2026 15:15:44
Quando lemos essa palavra ela pode causar uma série de emoções. Emoções estas impactadas pelo tabu, pelo preconceito, que pode ocasionar vergonha ou receio em falar sobre o tema. Ao longo da história a morte tem sido alvo de reflexões filosóficas, religiosas, literárias e científicas.
O sentido da vida envolve enigmas, mistérios e nos confronta com o mais radical da nossa dimensão humana: nossa finitude e o que necessitamos para sustentar o sentido de uma vida. Somos seres biopsicossociais, de fantasias, desejos, impactados pelas relações, por fatores externos e que diante das mudanças dos processos sociais e históricos necessitam realizar adaptações e ajustes subjetivos criativos, muitas vezes difíceis e sem as condições adequadas.
A discussão sobre o assunto, o esclarecimento sobre os mitos que envolvem a conduta suicida, a oferta de informações sobre onde e como procurar ajuda, são elementos fundamentais para a prevenção e a diminuição dos indicadores.
Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), ocorrem por ano mais de 720 mil mortes por suicídio, com 73% dos casos em países de baixa e média renda. Além disso, para cada suicídio consumado existem 20 tentativas, e em 2021 foi a terceira causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos.
O suicídio é um problema complexo, multifatorial, considerado problema de saúde pública que necessita de fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial, pois a existência de um Caps no território, reduz em 14% os índices de suicídio.
Acrescenta-se a premência de qualificação e valorização dos profissionais, oferta de condições para trabalhos intersetoriais e que deem conta das questões interseccionais, ou seja, para prevenir suicídio é necessário políticas robustas de saúde mental, de arte, de habitação, de trabalho, de esportes, de segurança, de educação, de cultura, de enfrentamento ao racismo, à violência, ao patriarcado, à lgbtfobia e feminicídio.
A vida necessita do fortalecimento das ações de solidariedade, das ações de base comunitárias, de habilidades para resolver problemas e para lidar e enfrentar os desafios da vida (principalmente entre jovens), de políticas públicas para cuidados com o uso abusivo de álcool e outras drogas, restrição do uso de pesticidas e construção de recursos diversos diante da impulsividade e rigidez; é preciso identificar pessoas em situação de risco e oferecer o projeto terapêutico necessário e adequado.
É importante garantir ambientes sociais e íntimos protetivos, como família, vizinhança, amizade, trabalho, escola, confiáveis, pois violências e inseguranças destroem a nossa confiança, esperança e forças internas.
Para uns, é necessário cuidar de um transtorno mental e mudar de trabalho, desenvolver novas habilidades de comunicação, fortalecer a rede de apoio; outros podem necessitar cuidar de feridas causadas pela violência que foram minando o sonho e a esperança; outros precisam lidar com o que causa vergonha e medo; outros precisam aprender a pedir ajuda e construir a experiência de existir para poder viver; outros precisam de proteção social, emprego digno, respeito.
É preciso ouvir o que pede cada dor. A dor, o adoecimento, transita entre o singular e o coletivo sendo impactada por mudanças sociais, políticas, econômicas e culturais.
A sustentação da vida necessita de cuidados contínuos e constantes. É preciso atenção diante de experiências de perda, solidão, discriminação, conflitos nos relacionamentos, problemas financeiros, dor e doenças crônicas, violência em todas as suas dimensões, transtornos mentais sem rede de apoio e acesso a tratamento, desemprego, emergências humanitárias e histórico de tentativas anteriores.
Prevenção ao suicídio é sobre vida digna, ter acesso a trabalho que garanta qualidade de vida, respeito, valorização, ambiente para crescer e ser valorizado, sobre acesso a cuidados de saúde, arte, lazer, cultura, uma cidade solidária com garantias de direitos humanos, convívio com as diferenças, possibilidade de trabalho e vida para crianças e adolescentes e valorização dos idosos.
É indispensável Polícias Públicas que ofereçam suporte para as diferenças religiosas, para pessoas com deficiência, para garantia de direitos da população indígena, pois quando as matrizes identitárias são perdidas, quando existem inseguranças institucionais, financeiras, situações de conflitos e guerra, quando não há matriciamento, quando falta supervisão para as equipes, e espaço para discussão de caso, cuidado compartilhado e busca criativa de estratégias, amplia-se o desalento e aumentam-se os riscos.
A vida precisa de cidadania efetivada na garantia de direitos básicos, pois o sofrimento possui uma dimensão coletiva.
Caso alguém esteja em profundo sofrimento psíquico e questione a dimensão do viver é sempre importante considerar o sofrimento, retirar meios que possam ser utilizados para se causar danos, oferecer acolhimento integral e presença, acionar a rede de apoio e os serviços necessários para o cuidado: pode ser Samu 192, UPA, Caps, Postos de Saúde, pronto socorro ou hospitais.
Não menospreze o sofrimento, não critique, não desqualifique, não ache que vai passar sem nenhuma intervenção, não faça comparações com sua vida ou a de outras pessoas. Não é falta de fé, de força nem de coragem. O sofrimento pode produzir um adoecimento que interfere e distorce a capacidade de olhar e interpretar a si e à realidade.
Os segredos, o medo de falar das dores, as vergonhas, o não ter retaguarda para ser ouvido, aprofundam as crises. Não basta falar da prevenção nem conscientizar sobre a necessidade de busca por ajuda, se não houver ajuda disponível e qualificada com retaguarda para dar seguimento a um Projeto Terapêutico Singular integral, amplo e robusto.
A espetacularização do sofrimento, abordagens sem fundamentação científica e preparo, não ajudam. Perguntar sobre os desejos de morte durante a consulta profissional não amplia riscos, pelo contrário, oferece a oportunidade honesta e legítima de acolhimento de um sofrimento muitas vezes escondido sob a vergonha. A oferta de ajuda genuína e acesso aos serviços, pode salvar muitas vidas.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) desenvolve há décadas um serviço 24h, disponível à população, gratuito, através do 188 e os postos de saúde possuem profissionais qualificados para atender caso apresente ideias de colocar a vida em risco. Mas ainda temos muitos desafios como a articulação de um serviço 24h articulado ao SUS, financiamento da Raps, e as demandas citadas anteriormente.
Não basta uma cor para garantir o cuidado. A prevenção inicia no Janeiro branco, conforme escrevi anteriormente. É trabalho contínuo, que diz do projeto de sociedade e da forma como nossa humanidade valoriza a vida ou a barbárie, a destruição, a violência, o lugar dos direitos humanos, os projetos coletivos, a fragilidade dos vínculos, a retração dos processos simbólicos, a relação com a natureza e o respeito à diversidade.
As escolas precisam de projetos de saúde mental para toda a comunidade escolar, inseridos no projeto pedagógico; da mesma forma que desde 2026 a gestão da Saúde Mental no trabalho é obrigatória no país.
Uma vida precisa de muitas mãos para se sustentar. É preciso cuidar das famílias, dos lutos, criar espaços para que os sofrimentos encontrem palavras e que humanos encontrem outros humanos que se importem, pois quando o desespero encontra cuidados, novos caminhos podem surgir.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.