Ibaneis Rocha encaminhou a banqueiro decisão judicial e lei que beneficiaram compra do Banco Master pelo BRB
Fonte: gazetamercantil.com | Data: 21/09/2026 16:45:56
Prints de conversas de WhatsApp revelados neste fim de semana mostram que o ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) manteve canal de comunicação direto com o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, durante o período em que a aquisição da instituição pelo Banco de Brasília (BRB) avançava por etapas jurídicas e legislativas decisivas. O material, divulgado inicialmente pelo site Fatos Online e repercutido pelo Metrópoles, abrange diálogos entre setembro de 2024 e agosto de 2025, época em que Ibaneis ainda exercia o mandato no Palácio do Buriti.
A troca de mensagens chama a atenção pela coincidência temporal com dois marcos formais da operação: a decisão judicial que removeu o obstáculo para a assinatura do contrato definitivo, em maio de 2025, e a publicação da lei distrital que autorizou a compra, em agosto do mesmo ano. Em ambos os episódios, o então governador encaminhou ao banqueiro os atos oficiais recém-publicados.
A operação culminou na aquisição, pelo BRB, de 49% das ações ordinárias e 100% das ações preferenciais do Master, configuração que confere ao banco público o controle econômico da instituição privada. O negócio, no entanto, tornou-se alvo de investigação da Polícia Federal que resultou na prisão do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, suspeito de ter recebido vantagens indevidas de Vorcaro para viabilizar a transação.
Troca de mensagens coincide com marcos decisivos da operação
O primeiro registro apresentado data de 19 de setembro de 2024. Na ocasião, Ibaneis agradece a Vorcaro por um almoço — “Excelente almoço. Obrigado” — e aceita a sugestão de um jantar para a semana seguinte: “Vou deixar reservado”. O teor social do diálogo contrasta com os registros posteriores, de caráter estritamente administrativo e jurídico.
O segundo bloco de mensagens situam-se entre março e maio de 2025. Os prints mostram três chamadas de voz perdidas registradas no aplicativo. No dia 10 de maio, um sábado, Ibaneis envia a Vorcaro a íntegra de uma decisão judicial assinada pelo desembargador João Egmont, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT). A liminar derrubava a proibição para a assinatura do contrato definitivo de compra do Master pelo BRB, restrição que havia sido imposta em primeira instância.
A decisão do desembargador Egmont foi o ponto de virada processual que permitiu a continuidade do negócio. Até então, uma ação popular ou cautelar impedia a formalização do contrato. Com a suspensão da liminar em segunda instância, o caminho jurídico para a escritura de compra e venda foi desobstruído.
Decisão judicial e lei sancionada foram encaminhadas pelo governador
O terceiro episódio ocorre em agosto de 2025. Os prints indicam ao menos três chamadas de voz efetuadas entre Ibaneis e Vorcaro no dia 20, com duração de 1 minuto e 42 segundos, 1 minuto e 4 segundos e 51 segundos, respectivamente. Horas após a última ligação, o ex-governador encaminha ao banqueiro a edição extra do Diário Oficial do Distrito Federal (DODF) daquela data.
A edição continha a publicação da Lei nº 7.739, de 20 de agosto de 2025, sancionada por Ibaneis após aprovação pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). A norma autorizou expressamente o BRB a adquirir a participação acionária no Banco Master nos termos que viriam a ser executados: 49% do capital votante (ações ordinárias) e a totalidade das ações preferenciais (sem voto, mas com prioridade na distribuição de dividendos).
A estrutura societária desenhada pela lei blinda o controle político do banco público — que permanece majoritário nas decisões de assembleia — ao mesmo tempo em que transfere ao BRB a totalidade do risco e do retorno econômico da operação. A modelagem foi defendida à época pela diretoria do BRB como necessária para viabilizar a incorporação de ativos e a regularização do passivo do Master sem ferir a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Contexto: aquisição do Master e prisão de ex-presidente do BRB
A aquisição do Banco Master pelo BRB foi anunciada publicamente no primeiro semestre de 2024 como estratégia de expansão do banco público no mercado de crédito consignado e de varejo de alta renda, nichos em que o Master detinha carteira relevante. O negócio, contudo, sempre gerou controvérsia entre técnicos de controle e parlamentares de oposição, que questionaram a avaliação dos ativos do Master e a necessidade de aporte de capital público em uma instituição com histórico de prejuízos recorrentes.
As suspeitas ganharam contorno criminal com a deflagração de operação da Polícia Federal que prendeu, em 2024, o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa. A investigação aponta que Costa teria atuado para favorecer a compra do Master em troca de pagamentos oriundos de Vorcaro. O ex-presidente do BRB nega as acusações. Vorcaro, por sua vez, não foi alvo de mandado de prisão na mesma fase, mas figura como investigado no inquérito que apura a suposta corrupção ativa e passiva, além de lavagem de dinheiro.
A existência de um canal de comunicação direto e frequente entre o chefe do Executivo distrital e o beneficiário final da operação, nos exatos momentos em que o Estado praticava atos necessários à conclusão do negócio, reforça a tese do Ministério Público e da PF de que a decisão política pela compra não se limitou à esfera técnica do banco público.
Defesa de Ibaneis: atuação institucional e convicção de bom negócio
Procurado pela reportagem que revelou os prints, Ibaneis Rocha confirmou a autenticidade das imagens, mas contestou a interpretação de que as mensagens foram trocadas diretamente com Vorcaro. “A mensagem é um print de uma conversa que teve com terceira pessoa, e não com Daniel Vorcaro”, declarou o ex-governador.
A explicação, no entanto, não elide o fato de que o conteúdo encaminhado — a decisão do TJDFT e a edição do Diário Oficial — refere-se a atos que interessavam diretamente a Vorcaro e ao Master. Ibaneis afirmou que, à época, “estávamos todos convencidos pelo Paulo Henrique que seria um excelente negócio para o BRB e para Brasília”. A menção ao ex-presidente preso como o articulador da convicção do governo sobre a viabilidade do negócio aproxima a narrativa de defesa da linha de investigação da PF, que aponta Costa como o operador do esquema dentro da máquina pública.
A assessoria do ex-governador reiterou que todos os atos praticados — a sanção da lei, o envio de informações públicas — inserem-se na rotina administrativa e não configuram irregularidade. A Lei nº 7.739 foi aprovada pela Câmara Legislativa em votação aberta e publicada no diário oficial, sendo, portanto, documento público acessível a qualquer cidadão. O mesmo vale para a decisão judicial de segunda instância.
Trajetória política recente e investigações em curso
Ibaneis Rocha deixou o cargo de governador em 31 de março de 2026 para concorrer ao Senado Federal nas eleições de outubro. A renúncia era requisito legal para a disputa. Semanas depois, porém, o ex-governador anunciou a desistência da candidatura, alegando razões pessoais e a vontade de dedicar-se à advocacia. A saída da disputa eleitoral retirou-lhe o foro privilegiado no Superior Tribunal de Justiça (STJ) para eventuais processos criminais decorrentes do mandato, remetendo eventuais apurações à primeira instância da Justiça Federal no DF.
O inquérito que apura a compra do Master pelo BRB segue em tramitação sob sigilo parcial. A Polícia Federal já realizou buscas e apreensões em endereços ligados a Vorcaro, a Costa e a ex-assessores do governo distrital. A quebra de sigilo telemático dos investigados, autorizada judicialmente, é a origem provável dos prints agora tornados públicos. A defesa de Vorcaro nega qualquer irregularidade na aquisição e sustenta que a operação foi avaliada por auditores independentes e aprovada pelos conselhos de administração e fiscal do BRB, além do Banco Central.
O Banco Central, por sua vez, homologou a transferência do controle acionário em dezembro de 2025, após análise de conformidade da operação com a legislação bancária e as normas de prevenção à lavagem de dinheiro. A autarquia não se manifestou publicamente sobre o conteúdo das mensagens trocadas entre o ex-governador e o banqueiro.
A revelação dos diálogos adiciona elemento factual ao debate sobre a independência das agências reguladoras e a blindagem de bancos públicos contra interferências políticas em operações de mercado. A proximidade entre o agente público com poder de sanção legislativa e nomeação de dirigentes e o controlador da instituição adquirida, documentada em tempo real, será necessariamente analisada pelas instâncias de controle — Tribunal de Contas do DF, Ministério Público de Contas e o próprio Banco Central — na avaliação da regularidade do ato de autorização legislativa e da posterior homologação regulatória.
Fontes:
Diário Oficial do Distrito Federal – edição extra de 20 de agosto de 2025 com a publicação da Lei nº 7.739
Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios – decisão do desembargador João Egmont que suspendeu liminar impedindo a assinatura do contrato de compra do Banco Master
Câmara Legislativa do Distrito Federal – processo legislativo e votação do projeto de lei que originou a Lei nº 7.739
Polícia Federal – inquérito que apura supostos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro na aquisição do Banco Master pelo BRB
Banco Central do Brasil – ato de homologação da transferência de controle acionário do Banco Master para o Banco de Brasília