Pesquisador campista é finalista de hackathon para reduzir desperdício de energia
Fonte: j3news.com | Data: 23/09/2026 10:39:55
Carlos Alberto Bisogno integra equipe finalista do Hackathon IA COPPE 2026, que busca soluções de inteligência artificial
Um problema que pode representar bilhões de reais em perdas para o Brasil e envolve o desperdício de energia renovável está no centro do projeto desenvolvido pelo pesquisador campista Carlos Alberto Bisogno, de 45 anos. Especialista em operações industriais e computação científica, ele integra uma das 13 equipes finalistas do Hackathon IA COPPE 2026, evento dedicado ao desenvolvimento de soluções de inteligência artificial para a transição energética.
Promovido pela Incubadora de Empresas da COPPE/UFRJ e pela plataforma Made in Rio, em parceria com o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), AWS, NVIDIA, Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) e Prefeitura do Rio de Janeiro, o evento reúne profissionais selecionados entre mais de mil inscritos de todo o país.
A etapa final será realizada entre os dias 25 e 27 de setembro, no Instituto 12, no Leblon, no Rio de Janeiro. Ao todo, serão distribuídos R$ 22 mil em prêmios, além de US$ 10 mil em créditos AWS para cada uma das três equipes vencedoras e períodos de utilização do supercomputador Santos Dumont, do LNCC.
O desafio do desperdício de energia renovável
O projeto parte de um dos desafios que acompanham a expansão das fontes renováveis no Brasil: o curtailment, termo utilizado para designar o corte ou redução da geração de energia quando o sistema elétrico não consegue absorver toda a produção disponível.
Com o crescimento da geração eólica e solar, situações de excesso de oferta podem levar o sistema a limitar a produção de usinas renováveis. Na prática, isso significa que parte de uma energia que poderia ser gerada deixa de ser aproveitada.
Segundo dados apresentados no âmbito do projeto, os cortes de geração registrados em 2025 alcançaram níveis elevados, aumentando a preocupação do setor com a capacidade de planejamento e operação do sistema elétrico.
Para Bisogno, o desafio não está apenas na expansão da geração, mas também na capacidade de prever os momentos em que haverá excesso de energia e apoiar os operadores na tomada de decisões.
“O curtailment não é um problema conjuntural, é estrutural. O Brasil está desperdiçando a energia que deveria ser a base da sua transição energética. O que falta não é geração, é inteligência para operar a rede existente com mais eficiência.”
Da operação da Petrobras à inteligência artificial
A experiência profissional de Bisogno ajudou a definir a maneira como ele encara o problema. Formado tecnicamente em Química Industrial pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), o pesquisador também possui formação e estudos em áreas como Física, Psicologia e Análise e Desenvolvimento de Sistemas.
Ele acumulou mais de 13 anos de experiência em operações industriais críticas, incluindo nove anos na Petrobras, onde atuou como Operador de Produção Pleno em Painel de Controle (CRO/PLC), na Bacia de Campos.
A experiência em salas de controle, ambientes nos quais decisões precisam ser tomadas rapidamente e com base em informações confiáveis, tornou-se uma referência para o desenvolvimento da proposta apresentada no hackathon.
Segundo Bisogno, ferramentas de inteligência artificial utilizadas no setor elétrico precisam ir além da simples previsão.
“O operador de sistema elétrico precisa de ferramentas que não apenas prevejam, mas que expliquem e prescrevam ações seguras. Não adianta um modelo caixa-preta que ninguém entende.”
Uma plataforma para apoiar decisões
Na competição, Bisogno integra a equipe WattSteer, formada por cinco profissionais com experiências complementares nas áreas de energia, desenvolvimento de software, dados, inteligência artificial e gestão de produtos.
Além do pesquisador, participam Guilherme Machado, profissional com experiência no setor elétrico e mestrado em Métodos de Apoio à Decisão pela PUC-Rio; Vitor Torres, desenvolvedor sênior especializado em engenharia de software, dados e infraestrutura; Guilherme Chaves, desenvolvedor full stack com atuação em produto e inteligência artificial generativa; e João Azevedo, responsável pela área de produto e negócios.
A proposta da WattSteer é desenvolver uma camada de apoio à decisão entre o planejamento diário da operação do sistema elétrico e a operação em tempo real.
A plataforma utiliza técnicas de machine learning e mecanismos de explicabilidade para antecipar riscos de cortes de geração, indicar possíveis causas e apresentar informações de situações semelhantes registradas anteriormente.
A intenção é transformar grandes volumes de dados em informações que possam ser utilizadas pelos profissionais responsáveis pela operação do sistema.
“O que a plataforma faz é transformar essa previsão de corte da ONS em decisão auditável. Nossa abordagem é radicalmente transparente: cada alerta vem em duas linguagens — uma para o operador, outra para o engenheiro e o auditor.”
Mais do que uma competição
Para Bisogno, a participação no Hackathon IA COPPE representa uma oportunidade de aproximar conhecimento técnico, experiência profissional e demandas concretas do setor elétrico.
A competição também oferece às equipes finalistas acesso a uma estrutura tecnológica que inclui créditos de computação em nuvem e utilização do supercomputador Santos Dumont, do LNCC.
As três primeiras colocadas receberão R$ 10 mil, R$ 7 mil e R$ 5 mil, respectivamente, além dos créditos AWS e acesso à infraestrutura computacional prevista na competição.
Para o pesquisador campista, entretanto, o principal objetivo está relacionado ao potencial de aplicação da tecnologia desenvolvida.
“Não estou participando por um prêmio em dinheiro. Estou participando porque acredito que a soberania tecnológica do Brasil passa pela capacidade de resolver seus próprios problemas com inteligência nacional.”
A etapa final do Hackathon IA COPPE 2026 será realizada no fim de setembro. Para Bisogno, a iniciativa representa também uma oportunidade de demonstrar como a integração entre experiência operacional, ciência, tecnologia e inteligência artificial pode contribuir para enfrentar desafios concretos da transição energética brasileira.
“Quero deixar para minha filha um país que não desperdiça o futuro”, afirma.