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‘Vamos precisar entrar na Justiça contra o BC’, escreveu Vorcaro antes de veto à venda do Master

Fonte: oglobo.globo.com | Data: 24/09/2026 04:45:02

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Enquanto o Banco Central fechava o cerco contra o Master, apontando dificuldades da instituição em captar recursos e honrar compromissos, Daniel Vorcaro discutiu com o seu advogado, Walfrido Warde, entrar com uma ação na Justiça contra a autoridade monetária e pediu para avisar o “presidente” sobre a ofensiva jurídica. É o que revelam mensagens extraídas do celular de Vorcaro pelos investigadores e que foram obtidas pela equipe da coluna.

Em 17 de julho de 2025, Vorcaro escreve a Warde, às 22h13m: “Vamos precisar entrar na Justiça contra Bacen entre amanhã e segunda”. O banqueiro prossegue: “Galípolo acabou reunião agora. Inventou nova desculpa. Que agora tem erros contábeis. Falou pro Hugo [possível referência ao presidente da Câmara, Hugo Motta]. Não dá mais. Eles não vão fazer”.

Naquela data, a agenda oficial do presidente do BC, Gabriel Galípolo registrou “despachos internos” e uma reunião com o ministro-chefe da Controladoria-Geral da União (CGU), Vinícius Carvalho. Mas a equipe da coluna apurou que Galípolo fez uma reunião com sua equipe sobre a compra do Master pelo BRB, o banco estatal de Brasília. Na época da troca de mensagens, Vorcaro vinha tentando pressionar o BC a dar aval ao negócio de R$ 12 bilhões, que acabaria vetado em 3 de setembro.

“Ele não tem coragem”, afirma Warde, em referência a Galípolo. Vorcaro responde: “Temos que ir pro embate. Esse cara é um merda. Agora chega, não dá mais.”

“Vamos pra cima. Mas façamos do meu jeito. Primeiro notificação”, escreve Warde. Vorcaro dá aval à ofensiva: “Do jeito que quiser. Avise presidente amanhã e vamos pra guerra.”

Na sequência de diálogos, Warde diz, logo depois: “Já fiz isso. Tem que notificar e tomar medidas”, encaminhando ao banqueiro o print de uma conversa com um interlocutor não identificado pelo blog

Indícios de crime contra o sistema financeiro

Dois dias antes da troca de mensagens entre Vorcaro e Warde, em 15 de julho, o Banco Central havia alertado o Ministério Público Federal no Distrito Federal (MPF-DF) que, no primeiro semestre de 2025, “foi constatada cessão de créditos inexistentes ao BRB, adquiridos pelo Banco Master S.A. de empresa terceira”, o que configura indícios de crimes contra o sistema financeiro nacional.

A situação do Master só se deteriorava, e uma intervenção do BC já vinha sendo discutida na autoridade monetária. A área de supervisão, em que trabalhavam dois chefes de departamento que a investigação descobriu terem recebido dinheiro de Vorcaro, era contra e trabalhava para dar aval à venda do Master para o BRB. Já a diretoria de organização do sistema financeiro, comandada por Renato Gomes, era contra e defendia a intervenção.

“Temos que entrar com suspeicao dó [sic] Renato em funcao do inquerito mpf. Essa e a notificação. Que ele ta obstruindo transação”, escreve Vorcaro para Warde, também em 17 de julho, às 23h16m.

Warde, que se divertia com o apelido de “pitbull”, em referência ao estilo beligerante de atuação, complementa: “Eu mesmo vou escrever. To com ódio desse cara. Ele vai sentir o peso da minha mão.”

Vorcaro comenta: “[Renato] Engoliu o Galípolo. Cara tá indo contra você, STF, Câmara, Senado, Presidente”.

“Esse pessoal todo é moleza. Vamos ver se ele aguenta 5 minutos de Warde”, responde Warde, referindo a si mesmo em terceira pessoa.

No dia seguinte, 18 de julho, Warde ainda procurou Vorcaro, dizendo que pretendia elaborar duas notificações (uma para Galípolo e o Banco Central; e outra para Renato Gomes) e pedindo para falar com o banqueiro.

Um dia depois, num sábado, Vorcaro conseguiu ser recebido por Galipolo na sede do BC para uma reunião da qual também participou seu sócio, Augusto Lima. Na época, fontes do BC disseram à Folha de S. Paulo que o encontro serviu para acelerar a análise dos documentos da transação com o BRB, e que novas reuniões ocorreriam na segunda (21) e na terça-feira (22).

No dia 23, porém, Warde disse a Vorcaro ter se encontrado com o então chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. E encaminhou uma mensagem que havia recebido de alguém que ele não identifica: “Descobri o seguinte aqui: o PR falou com Guido ontem por telefone, Guido informou que está em Londres. PR disse que vai chamar assim que retornar. Vamos dar outro jeito”. O Guido mencionado é Guido Mantega, ex-ministro de Lula que era consultor do Master. PR, no jargão de Brasília, significa Presidente da República.

Vorcaro então responde: “Alexandre”, e Warde retruca: “Sim. Vou pavimentar”

Em nenhum momento das conversas é mencionado o nome de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro do STF Alexandre de Moraes, que havia fechado com o Master em janeiro de 2024 um contrato de R$ 3,6 milhões, ao longo de um período de três anos, que previa a sua atuação em uma série de órgãos, inclusive no Banco Central.

A ofensiva jurídica, no entanto, não foi retomada na sequência de mensagens obtidas pelo blog, nem se materializou.

Foi nesse período que, de acordo com apuração da equipe da coluna, Moraes procurou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, pelo menos quatro vezes para fazer pressão em favor do Banco Master.

Ao menos três dos contatos foram por telefone, mas pelo menos uma vez Moraes se encontrou presencialmente com Galípolo para conversar sobre os problemas do banco de Daniel Vorcaro.

Àquela altura, uma intervenção no Master seria desastrosa para o banco, daí a urgência de Warde e Vorcaro em encontrar uma saída – a ponto, segundo sugerem as mensagens, de não poder esperar por uma conversa entre Guido Mantega e Lula.

De acordo com o que apuramos à época, Moraes pediu a Galípolo que ajudasse a aprovar o negócio, mas ele disse que não seria possível porque já havia uma investigação de fraude em curso.

Em nota divulgada à imprensa na época, Moraes afirmou que se encontrou com Galípolo para tratar sobre as implicações da Lei Magnitsky, sanção que o governo Trump lhe impôs no final de julho, e alegou que não teria tratado com o presidente do BC sobre questões referentes ao Banco Master.

Já o Banco Central informou que Galípolo “manteve reuniões com o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, para tratar dos efeitos da aplicação da Lei Magnitsky”.

Em 3 de setembro, a autoridade monetária vetou definitivamente o negócio com o BRB. Vorcaro acabaria preso pela primeira vez em 17 de novembro, e a liquidação do Master foi anunciada no dia seguinte.