Empresas de Milton Leite incluíram como sócios CNPJs genéricos da mesma ‘prateleira’ que originou a Tirreno, envolvida no caso Master
Fonte: oglobo.globo.com | Data: 24/09/2026 04:59:16
Ao menos duas empresas do ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite (União), preso na semana passada em uma operação que apura a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no sistema de transporte público da cidade, incluíram recentemente no quadro de sócios alguns CNPJs “de prateleira”, ou seja, abertos de forma genérica para serem transferidos a outras pessoas. Esses CNPJs eram de Daniel Moreira Bezerra, que possuía dezenas de registros similares — todos abertos em curto intervalo de tempo com nomes quase idênticos, o mesmo endereço de sede e o mesmo capital social de R$ 100. Um outro CNPJ “de prateleira” de Bezerra foi usado para dar origem à Tirreno, que teria transferido R$ 6,7 em créditos fraudulentos ao Banco Master.
A partir de março deste ano, Leite passou a fazer uma série de mudanças em suas principais empresas, como a Planevia e Lesimo, mostram documentos obtidos pelo GLOBO. Essas alterações ampliaram o capital social dos negócios, repartiram cotas de propriedade entre familiares do ex-vereador e incluíram novos CNPJs recém-criados como sócios dessas companhias.
Um mês antes, a corregedoria da Polícia Militar de São Paulo tinha prendido três PMs acusados de fazer a segurança pessoal do dono da empresa de ônibus Transwolff, apontado como integrante do PCC. Quando Leite foi preso, na semana passada, uma das justificativas para a ação foi que policiais militares teriam afirmado, em procedimento no Tribunal de Justiça Militar, que o político seria o dono de fato da Transwolff. O despacho não traz a íntegra desses depoimentos, nem específica se seriam os mesmos presos em fevereiro.
Um dos principais negócios de Leite é a Planevia Planejamento Projetos e Consultoria LTDA, criada em 1995 como uma organização da sociedade civil, mas transformada em empresa em 2010. Atualmente, a Planevia tem capital social de R$ 34,4 milhões, segundo registros da Junta Comercial de São Paulo (Jucesp), o que faz dela o negócio de maior valor em nome do político.
Até fevereiro, a Planevia pertencia formalmente ao filho do ex-vereador, o deputado estadual Milton Leite Filho (União), e à ex-mulher de Leite, Neusa Maria Paulino da Silva. Entre fevereiro e março, houve uma série de alterações na empresa. O capital social passou de R$ 800 mil para R$ 34,4 milhões. A atividade econômica, que consistia em “trabalhos topográficos e geodésicos, estudos de solo, concreto e asfaltos, projetos e fiscalização de obras em estradas”, mudou para “obras de acabamento da construção, aluguel de imóveis próprios, compra e venda de imóveis”.
Nessa mesma mudança, foram incluídos na sociedade o outro filho de Milton Leite — o deputado federal Alexandre Leite (União) — e três empresas: a SX 070 Empreendimentos e Participações; a Centurion Empreendimentos e Participações e a Lions L8 Participações. As duas primeiras ficaram com R$ 160 mil de participação no negócio, enquanto a Lions ficou com R$ 40 mil.
As três empresas — Centurion, a SX 070 e Lions — foram criadas originalmente por Daniel Moreira Bezerra. Entre outubro de 2024 e abril deste ano, ele foi diretor ou sócio-administrador de pelo menos 50 empresas, todas com “empreendimentos e participações” no nome — o que indica que são empresas de prateleira — e registradas inicialmente com capital social de apenas R$ 100. Posteriormente, algumas foram repassadas a outros titulares e tiveram um aumento do capital social.
A SX 070 Empreendimentos, criada em abril de 2025, foi transferida em setembro daquele ano para Sabrina Mayumi Yamada e teve o capital social aumentado para R$ 2 milhões. Sabrina tem como endereço residencial uma casa no Rio Bonito, na região de Interlagos, Zona Sul de São Paulo, área de influência política de Leite.
Já a Centurion foi criada por Bezerra sob o nome original de SX 018 Empreendimentos e Participações, em outubro de 2024, também com o capital de R$ 100. Em setembro de 2025, o capital foi alterado para R$ 2,5 milhões, Daniel foi destituído da empresa e em seu lugar foi designado como diretor-administrador Leandro Hereda Pinheiro, irmão da namorada de Milton Leite Filho.
A Lions L8, por sua vez, foi criada por Bezerra em julho de 2025 e, em março deste ano, teve o capital alterado para R$ 1 milhão e foi transferida para o empresário Rodrigo Ruiz Dias.
Outra mudança na Planevia foi a inclusão da Construtora e Incorporadora Neumax LTDA, que pertence a Milton Leite, na sociedade. Ela detém a maior parte das cotas, com R$ 33,6 milhões do negócio.
A Lesimo Sondagens Projetos e Construções, outra empresa de Milton Leite, tinha como sócios o político, seu filho (Milton Leite Filho) e sua ex-mulher até maio deste ano. Naquele mês, o negócio também passou por uma reformulação. A Centurion, a Lions L8 e a SX 070 também foram admitidas na sociedade da Lesimo. A Centurion e a SX 070 ficaram com R$ 120 mil de participação cada.
A Lesimo consta como a proprietária do imóvel invadido no último domingo, dois dias após a prisão do político, de onde foram levados documentos e HDs.
A mera constituição de empresas “de prateleira” não é ilegal, mas seu uso para ocultar a origem de recursos ou para negócios ilícitos pode configurar ilegalidades. O GLOBO procurou a defesa de Milton Leite e aguarda posicionamento sobre o tema. A reportagem também acionou Bezerra para comentar, e não recebeu resposta. O GLOBO tenta contato com outros citados como atuais titulares de cotas nas empresas, embora não exista ilegalidade na mera transferência, e o espaço está aberto a manifestações.
Ligação com Tirreno e Master
O mesmo Daniel Bezerra é o criador da SX 016 Empreendimentos e Participações. A empresa foi formalmente criada em outubro de 2024 e, em dezembro de 2024, passou a se chamar Tirreno Consultoria, Promotora de Crédito e Participações S.A.
A Polícia Federal (PF) apontou, nos inquéritos do Supremo Tribunal Federal (STF) que apuram a compra do Master pelo BRB, que a Tirreno “originava” os créditos consignados necessários à composição das carteiras de créditos fictícios que o banco de Daniel Vorcaro vendeu ou cedeu ao banco estatal do Distrito Federal.
A Tirreno, que também foi criada originalmente com capital social de apenas R$ 100 e não tinha funcionários ou movimentação bancária efetiva, teria sido usada para maquiar a origem de R$ 7,155 bilhões em empréstimos consignados, segundo a Polícia Federal. De acordo com documentos e planilhas, eram da Tirreno as carteiras de empréstimos que o Master transferiu posteriormente ao BRB, mas na realidade o próprio Master registrava internamente esses contratos.
Daniel Bezerra, que criou a empresa que depois virou Tirreno, seguiu o mesmo modus operandi em dezenas de outros CNPJs, todos com o mesmo endereço de sede (uma sala em um edifício comercial da Avenida Paulista), entre os quais aqueles que passaram a integrar o quadro societário de empresas de Leite.