Cânceres ginecológicos: 60% das brasileiras não realizam exames preventivos
Fonte: mais.opovo.com.br | Data: 26/09/2026 07:37:27
Resumo
Criada pelo Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA), a iniciativa Setembro em Flor busca combater tabus e desinformação sobre os cinco tumores ginecológicos principais: colo do útero, corpo do útero (endométrio), ovário, vulva e vagina.
É o tipo ginecológico mais frequente no Brasil, com previsão de mais de 19 mil novos casos por ano (2026–2028) e cerca de 20 mortes diárias; o vírus HPV é responsável por 99% desses diagnósticos.
A proteção fundamenta-se na imunização contra o HPV (disponibilizada pelo SUS para jovens de 9 a 14 anos e resgate até 19 anos), na realização de exames periódicos como o Papanicolau e o teste de DNA-HPV, e na prática de hábitos de vida saudáveis.
Dados indicam que 61% das brasileiras não fizeram o Papanicolau no último ano e 39% não tomaram ou não se lembram de ter recebido a vacina do HPV, evidenciando desinformação e obstáculos no acesso à saúde.
Os cânceres ginecológicos abrangem diversos tipos de tumores que afetam os órgãos reprodutivos femininos. Mas com origens, sintomas e abordagens terapêuticas distintas. Criada pelo Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA) em 2021, a campanha Setembro em Flor alerta sobre os cinco principais tumores desse tipo: colo do útero, corpo do útero (endométrio), ovário, vulva e vagina.
O movimento busca combater a desinformação e promover o cuidado com a saúde da mulher. Sobretudo porque a detecção precoce desses tipos de tumores é dificultada por tabus e preconceitos em torno da vida sexual.

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O projeto Setembro em Flor atua para combater tabus e desinformação sobre os cinco tumores ginecológicos principais: colo do útero, corpo do útero (endométrio), ovário, vulva e vagina
“Eles não são uma doença só. É muito importante saber que cada um tem a sua causa, os seus sinais e o seu tratamento”, destaca Rafaella Torres de Melo, cirurgiã oncológica ginecológica da Rede ICC Saúde, referência em diagnóstico, tratamento e formação profissional sobre câncer.
A médica destaca que o câncer ginecológico mais prevalente no Brasil é o de colo de útero e o mais grave é o de ovário, pois não há um exame de rastreio e os sintomas podem ser bastante iniciais.

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Rafaella Torres de Melo, cirurgiã oncológica ginecológica da Rede ICC Saúde
“Isso leva as pacientes a serem diagnosticadas numa fase um pouco mais avançada. Os mais raros são de vulva e de vagina, que, como ninguém conhece, costumam também demorar um pouquinho mais para o diagnóstico”, detalha.
Segundo projeções do Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil deve registrar mais de 19 mil novos casos de câncer de colo do útero por ano entre 2026 e 2028. O número representa um aumento de aproximadamente 14% na incidência da doença em comparação ao triênio anterior.
Tipos de cânceres ginecológicos
O câncer de colo do útero mata cerca de 20 mulheres todos os dias no Brasil. É o tipo de câncer que mais mata mulheres com até 35 anos no País, e o segundo mais letal entre aquelas com até 60 anos. O HPV (papilomavírus humano) é responsável por 99% dos casos.
No caso do câncer de endométrio e de ovário, a estimativa do Inca é de 9,6 mil e 8 mil novos casos por ano no triênio 2026/2028, respectivamente.
O perfil da paciente muda conforme o tumor, explica Rafaella Torres de Melo. No caso do câncer de colo de útero, perfil é de mulheres jovens em idade fértil, quase sempre com o exame preventivo atrasado há anos.
No caso do endométrio, a maioria dos casos ocorre em mulheres um pouco mais idosas, na pós-menopausa, em torno de 60 anos, com obesidade e diabetes associadas. Conforme a médica, esse é o tumor ginecológico que mais vem crescendo nos últimos tempos.
No câncer de ovário, a idade é mediana, tanto pode ser diagnosticado em mulheres mais novas como em mulheres mais idosas. Nesse tipo de tumor, a história familiar pesa muito.
“O HPV está por trás de praticamente todos os cânceres de colo e uma parte de vulva e uma parte de vagina”, relaciona a cirurgiã oncológica ginecológica da Rede ICC Saúde. Rafaella explica que é um vírus super comum, que na maioria das vezes é eliminado pelo próprio organismo. O problema será se a infecção for persistente.
Sinais de alerta dos cânceres ginecológicos
“A infecção leva anos para virar um câncer. Então, os pacientes com câncer de colo de útero tinham lesões pré-malignas. Antes delas se tornarem um câncer, já poderiam ter sido eliminadas. Esse tempo é nossa janela de prevenção”, detalha.
Para prevenir, existem duas ferramentas principais: imunização e identificação. A vacina contra o HPV, oferecida gratuitamente pelo SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos, além da possibilidade de resgate na faixa dos 15 aos 19 anos. Ela é aplicada antes do início da vida sexual para proteger o organismo do contato inicial com o vírus.
Para o rastreio, o principal exame continua sendo o papanicolau, disponibilizado pelo SUS. Além dele, também está sendo implantado o teste do DNA-HPV e o Ceará é um dos primeiros estados a recebê-lo.
Na prevenção, é importante manter bons hábitos de vida e controle de peso. Praticar atividades físicas ajudam na prevenção de tumores como o de endométrio, cujos principais fatores de risco são a obesidade e o diabetes.
É preciso ainda realizar exames preventivos periodicamente e buscar assistência médica sem receio ou timidez assim que surgir qualquer alteração atípica.

Vitória após um câncer silencioso e desafiador
O câncer de ovário apresenta um diagnóstico desafiador, visto que não possui exame de rastreio simples e os sintomas iniciais são vagos. Essa foi a realidade pela qual a professora Ana Isabela de Oliveira Brito, 36, passou há cerca de dois anos. Nascida em Fortaleza, ela mora no município de Banabuiú há 11 anos.
“Todos os anos eu fazia meu exame de prevenção e, junto a ele, meu médico solicitava uma ultrassonografia transvaginal. Foi assim em janeiro de 2024, mas acabei adiando a transvaginal e só fiz o exame em agosto daquele ano”, relata. Na época, o único sintoma parecia corriqueiro, uma espécie de cólica, que ela imaginou ser algo relacionado à ovulação.

Foto: Acervo Pessoal
Ana Isabela de Oliveira Brito, 36, professora. Teve câncer de ovário e fez tratamento no ICC
O exame revelou uma massa no ovário direito. Em 34 dias, ela deu entrada no Instituto do Câncer do Ceará (ICC) e passou por cirurgia, quando a biópsia de congelação confirmou um tumor em estágio inicial, mas de alto grau e agressivo. Diante da gravidade e do histórico familiar de câncer (um irmão de Isabela teve linfoma de Hodgkin aos 21 anos), a médica sugeriu a histerectomia radical.
“Eu já tinha dois filhos, um casal, e não tinha desejo de ter mais. Por isso, fui rápida em responder que ela poderia fazer o que fosse necessário” , conta.
O tratamento pelo SUS durou oito meses, incluindo a retirada do útero, ovários e trompas, além de seis sessões de quimioterapia. Ela lembra que o período pós-cirúrgico foi doloroso e com complicações, como uma forte reação alérgica. Apoiada por familiares, pela fé e pela médica, superou o processo.

Foto: Acervo pessoal
Ana Isabela de Oliveira Brito, 36, professora teve câncer de ovário e fez tratamento no ICC. Está em remissão após tratamento e conta que mudou o estilo de vida. Na imagem 3, Ana Isabela ao lado da médica Rafaella Torres de Melo, cirurgiã oncológica ginecológica da Rede ICC Saúde
“Quero destacar a dedicação da minha mãe, do meu irmão, da minha tia e do meu amigo, que se revezavam nos cuidados comigo. Também sou muito grata à minha família e à rede de apoio da cidade onde moro, que cuidaram dos meus filhos enquanto eu precisava me dedicar ao tratamento. E a todos os amigos e até desconhecidos que se mobilizaram em uma rifa para me ajudar a custear os exames”, agradece.
“Costumo dizer que ninguém passa por um câncer e continua sendo a mesma pessoa. Depois de tudo que vivi, venho fazendo muitas mudanças no meu estilo de vida”. Hoje, praticando atividades físicas e cuidando da saúde, comemora a vitória: “Hoje, estou em remissão e sigo buscando a cura”.

Seis em cada 10 brasileiras não realizam exames ginecológicos
Seis em cada dez brasileiras não realizam exames ginecológicos preventivos. Levantamento do Instituto Locomotiva, conduzido pelo Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA), revela que 61% das brasileiras não realizaram o exame papanicolau no último ano, e 34% não se consideram parte do grupo de risco para o câncer de colo do útero.
Menos de metade das mulheres fizeram os principais exames ginecológicos no último ano
A segunda onda da pesquisa “Percepção das Brasileiras sobre Tumores Ginecológicos e Práticas de Prevenção” ouviu 800 mulheres, de 18 a 45 anos, das classes A, B, C e D de todas as regiões do Brasil. Os dados foram divulgados no fim de agosto em evento de lançamento da campanha Setembro em Flor, em São Paulo, realizado pelo Grupo EVA e pela farmacêutica MSD, produtora da Gardasil 9, vacina nonavalente contra o HPV.
Estimativa de novos casos
O objetivo do levantamento foi mapear a evolução do nível de conhecimento sobre o câncer de colo do útero e a adesão às práticas preventivas, com foco na vacinação e métodos de rastreio.
Andrea Gadelha, presidente do Grupo EVA e líder de Oncoginecologia Clínica do Hospital ACCamargo Câncer Center, explica que a pesquisa mostrou que o acesso à informação melhorou, mas ainda há uma distância entre reconhecer a importância da prevenção e a realização efetiva da prevenção por meio da vacinação contra o HPV e da realização dos exames.
Mortalidade em 2024
A pesquisa mostrou que as barreiras para a prevenção vão desde o desconhecimento sobre os exames até percepções equivocadas sobre imunização. Por exemplo, 26% das mulheres de 18 a 45 anos desconhecem a utilidade do papanicolau.
“Precisamos que as mulheres entendam a importância dessa relação de alguns tipos de câncer com o HPV e como o check-up anual, com exames e o teste do DNA do HPV, são mecanismos fundamentais na proteção contra o câncer de colo do útero”, relaciona.
Quando o assunto é a vacinação, quatro em cada dez mulheres (39%) não tomaram ou não se lembram de ter se imunizado contra o HPV. Entre as que não se vacinaram contra esse vírus, o principal motivo apontado é a falsa impressão de que a vacinação não é indicada para a sua idade, reforçando a necessidade de desmistificar o tema na fase adulta.
O dado contrasta com o nível de conhecimento declarado pelas mulheres sobre a prevenção: 44% delas afirmam conhecer muito bem a vacinação contra o HPV, um salto em relação aos 38% registrados na pesquisa do ano anterior.
O comportamento das brasileiras em relação à ida ao consultório e à imunização também foi analisado. Os dados mostram um número baixo de mulheres que realizaram exames ginecológicos de rotina, como o papanicolau (39%) e o teste de DNA-HPV (22%), no último ano.
Motivos pelos quais mulheres deixaram de fazer o Papanicolau
A pesquisa evidencia que há uma distância entre reconhecer a importância da vacina de HPV e se sentir suficientemente informada. Embora nove em cada dez reconheçam a importância da vacina de HPV, apenas quatro em cada dez se sentem bem informadas sobre ela.
As mulheres conseguem distinguir alguns mitos e verdades sobre o HPV, mas ainda convivem com grandes lacunas de incerteza sobre a doença. Há um desafio evidente de informar as mulheres sobre o risco do câncer de colo do útero e divulgar caminhos de prevenção.
*A repórter esteve em São Paulo à convite da farmacêutica MSD