Disputa eleitoral em Minas caminha para reproduzir duelo polarizado entre Lula e Flávio
Fonte: veja.abril.com.br | Data: 27/09/2026 08:00:05

Entre os maiores colégios eleitorais do país, nenhum trilhou o caminho até as urnas neste ano envolto em tanta incerteza quanto Minas Gerais. Com o segundo maior contingente de votantes do Brasil (abriga 10% do eleitorado nacional), o estado atravessou a pré-campanha em meio a uma indefinição generalizada sobre as candidaturas, da direita à esquerda, que resultou em um páreo com onze postulantes ao governo, o maior número entre as 27 unidades da federação. A pouco mais de uma semana para o primeiro turno, no entanto, as últimas pesquisas indicam que a corrida se afunila e caminha para levar ao segundo turno dois nomes que vão reproduzir no estado a polarizada disputa nacional entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL).
O cenário que se projeta pode, mais uma vez, colocar Minas Gerais como o estado-pêndulo da corrida presidencial. De um lado, estará o senador Cleitinho Azevedo, personagem central da indefinição que marcou a pré-campanha (só registrou a candidatura no último dia) e que lidera as pesquisas desde que seu nome passou a ser ventilado. Apesar de ser do Republicanos, partido que se declara neutro na corrida ao Palácio do Planalto, ele faz campanha para Flávio Bolsonaro. Do outro lado, ganhou tração nas pesquisas o nome de Patrus Ananias (PT), ex-prefeito de Belo Horizonte e ex-ministro de Lula — foi o responsável pela implantação do Bolsa Família —, que topou ir para a disputa quando o presidente não tinha mais nenhum nome viável à mão.

As recentes sondagens trazem a confirmação do favoritismo de Cleitinho, mas também emitem sinais de alerta. O senador não perdeu a dianteira da corrida — tem quase 40% — apesar de ter sido o alvo preferencial dos adversários na campanha. O problema é que ele não tem crescido e não vem demonstrando fôlego para liquidar a eleição no primeiro turno. Além disso, dependendo do instituto, pode ter dificuldades no segundo. De acordo com o levantamento Real Time Big Data, divulgado na segunda-feira 21, por exemplo, ele teria 43% contra 42% de Patrus em nova rodada de votação. Na AtlasIntel, divulgada na quarta, sua vantagem seria de 12 pontos (53,1% contra 41,1%). Já na sondagem da Quaest, também publicada na quarta, ele teria 50% contra 26% do petista.
O candidato do PT tem o que comemorar, porque conseguiu nos últimos dias se desgarrar de um grupo grande de concorrentes. Ele aparece em todos os principais levantamentos como o segundo colocado isolado. Na pesquisa AtlasIntel, ele se aproxima muito de Cleitinho ainda no primeiro turno (39,3% a 31% para o candidato do Republicanos). Apoiado apenas por partidos de esquerda (PT, PSB, PSOL e Rede), Patrus tem apostado no recall de sua passagem pela prefeitura da capital (1993-1996), quando encerrou a gestão com 59% de ótimo ou bom, 28% de regular e apenas 7% de ruim ou péssimo, segundo o Datafolha. Um dos desafios de sua campanha tem sido superar a péssima imagem deixada pela gestão do petista Fernando Pimentel à frente do governo de Minas, quando, diante de um cenário que incluía até atrasos de salários, não foi nem ao segundo turno ao tentar a reeleição em 2018 — vencida pelo então outsider Romeu Zema (Novo), eleito basicamente com críticas ao PT. “Como o centro e a centro-esquerda estão muito fragmentados, Patrus acaba levando vantagem por ser o representante de Lula e herda o seu capital político no estado”, avalia Murilo Medeiros, cientista político da UnB.

A provável disputa entre Cleitinho e Patrus vai botar lenha na fogueira do duelo entre Lula e Flávio em Minas. A Quaest mostra que, no segundo turno, os presidenciáveis estariam empatados numericamente, com 40% das intenções de voto, no recorte estadual (veja o quadro). A projeção é de um duelo acirrado como foi em 2022, quando o petista derrotou Jair Bolsonaro no segundo turno por 50,2% a 49,8%, espelhando o que foi a disputa nacional (50,9% a 49,1%). “Minas oferece a síntese mais importante. Se o estado continua funcionando como termômetro brasileiro, a temperatura é de uma eleição aberta e numericamente empatada”, diz Felipe Nunes, diretor da Quaest.
A ida de Cleitinho ao segundo turno virá, em grande parte, embalada pelo voto bolsonarista. Enquanto Flávio alcança 30% no primeiro turno no estado, seu candidato oficial, o empresário Flávio Roscoe (PL), lançado de última hora, mal pontua na casa dos 5%. O presidenciável tem se apoiado muito mais em um cabo eleitoral importante da direita em Minas Gerais, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL), com quem teve agendas conjuntas na quarta em Teófilo Otoni e Governador Valadares, em eventos organizados pelo parlamentar.
Se o candidato oficial de Flávio não decola, chama a atenção, também à direita, a dificuldade do governador Mateus Simões (PSD). Desde o início da pré-campanha, ele fez diversos movimentos visando se tornar o nome da direita no estado, mas viu seu campo fragmentado, ao mesmo tempo que se agarrava à candidatura presidencial de seu padrinho, Romeu Zema, que naufragou no país e no estado, onde atingiu apenas 2% na pesquisa Quaest. “O voto mais à direita e mais conservador migrou para Cleitinho. Além disso, Simões se viu apequenado pela campanha frágil de Zema à Presidência”, diz Medeiros. O governador, que tem 7% na Quaest, tenta se colocar como aliado mais confiável de Flávio no segundo turno, lembrando que Cleitinho já sinalizou, em outras oportunidades, apoio a pautas do governo Lula. “Tenho certeza de que, no segundo turno, o único palanque puro para Flávio em Minas será o meu, porque Cleitinho já disse que quer os votos do Lula”, disse Simões em uma entrevista recente.
O segundo turno já começa a orientar os movimentos das campanhas no estado. Na direita, Cleitinho acredita que conseguirá reorganizar o campo em torno dele. O presidente nacional do Republicanos, deputado Marcos Pereira, diz confiar na construção de um projeto comum para a direita mineira e os conservadores do estado, e afirma que pretende trabalhar para atrair o apoio de Simões. “Acho que Cleitinho terá o apoio dos outros candidatos da direita. Vou tentar ajudar”, promete o cacique.

À esquerda, o movimento é semelhante, mas a equação é mais complicada. A ex-prefeita de Contagem Marília Campos (PT), candidata ao Senado, defende uma frente ampla contra a direita e o conservadorismo. “No segundo turno, as forças progressistas e democráticas deverão se unir por Minas Gerais”, defende. O problema é atrair potenciais aliados, como o ex-prefeito Alexandre Kalil (PDT) e o ex-vereador Gabriel Azevedo (MDB), que somam 10 pontos percentuais na Quaest. Ambos negociaram para ser o candidato de Lula, mas foram preteridos por Patrus. Kalil vem se esforçando para se afastar de Lula e da esquerda. Gabriel Azevedo também parece trabalhar para tornar difícil qualquer acordo. Ele evita defender presidenciáveis e tem elevado o tom contra os dois líderes da corrida ao governo. “Patrus está nessa campanha só para ser um palanque presidencial. Ele nem queria ser candidato”, cutucou.
O cenário que se projeta em Minas Gerais deve concentrar a atenção das campanhas de Lula e Flávio no estado no segundo turno, porque ali poderá estar a chave da vitória para ambos. Considerando as projeções, é quase certo que as disputas estaduais se encerrem ainda no primeiro turno em grandes colégios eleitorais como São Paulo, Bahia, Pernambuco e Ceará. Enquanto nesses estados a desmobilização do eleitorado pode crescer, em Minas ela deverá seguir forte em razão do confronto que se desenha entre as principais forças nacionais. A última vez que um candidato chegou à Presidência sem ter vencido no estado foi em 1950, com Getúlio Vargas. Ao que parece, Lula e Flávio terão de travar nos palanques mineiros o duelo decisivo da atual corrida ao Palácio do Planalto.
Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2026, edição nº 3014
