Petróleo favorece desempenho da Petrobras nesta semana, mas pressiona a inflação
Fonte: inforex.com.br | Data: 27/09/2026 23:00:41
Os preços do petróleo iniciaram a semana em alta no mercado internacional, enquanto os futuros das bolsas dos Estados Unidos recuaram, em meio à renovação das incertezas sobre as negociações entre Washington e Teerã. O movimento ocorreu depois que o presidente americano, Donald Trump, rejeitou a mais recente proposta iraniana para a reabertura do Estreito de Ormuz.
Nas primeiras negociações na Ásia, o Brent, referência internacional, avançava cerca de 1,5%. O West Texas Intermediate (WTI) subia 1%, negociado a US$ 93,33 por barril. Os contratos futuros do S&P 500, por sua vez, registravam queda de aproximadamente 0,1%, depois de o índice ter encerrado a sexta-feira com valorização de 0,5%.
O Irã propôs reabrir o Estreito de Ormuz em um prazo de até sete dias, mas manteve as condições apresentadas aos Estados Unidos. Apesar de rejeitar a oferta, Trump afirmou esperar que as conversas entre os dois países sejam retomadas nesta semana. O presidente americano também declarou que avalia “muito seriamente” restringir as exportações de diesel dos Estados Unidos.
O impasse voltou a colocar o mercado de energia no centro das atenções. O Estreito de Ormuz é uma das principais rotas de transporte de petróleo do mundo, e as incertezas sobre o fluxo de embarcações pela região vêm provocando fortes oscilações nas cotações da commodity ao longo das últimas semanas.
Além dos efeitos sobre a oferta de energia, investidores acompanham as possíveis consequências da valorização do petróleo sobre a inflação. Custos mais elevados de combustíveis podem ampliar as pressões sobre os preços e dificultar o trabalho dos bancos centrais, em um momento no qual os mercados já consideram a possibilidade de novo aperto monetário nos Estados Unidos.
“Os desdobramentos geopolíticos do fim de semana provavelmente manterão a volatilidade elevada nos mercados globais”, afirmou Nick Twidale, analista-chefe de mercado da AT Global Markets.
A pressão também aparece no mercado de renda fixa. O rendimento médio de um indicador de títulos globais superou 4% pela primeira vez desde 2007. Nos Estados Unidos, dirigentes do Federal Reserve têm citado a resiliência da economia e do mercado de trabalho entre os fatores que podem justificar um novo aumento dos juros.
No mercado brasileiro, a manutenção do petróleo em níveis elevados produz efeitos em direções diferentes. Por um lado, tende a favorecer companhias produtoras e exportadoras da commodity, especialmente a Petrobras. Em julho, durante outro episódio de escalada das tensões no Oriente Médio, o Brent chegou a subir quase 10% em uma sessão e as ações ordinárias da estatal avançaram 3,44%, enquanto as preferenciais ganharam 2,55%, mesmo com queda de 1,2% do Ibovespa.
Por outro, o aumento da aversão ao risco internacional pode provocar saída de recursos de mercados emergentes, pressionando o real e outros ativos brasileiros. Esse movimento já foi observado nos últimos dias: na quinta-feira, 24, o dólar se aproximou de R$ 5,20 em meio à piora do ambiente externo e à alta do petróleo. Uma combinação de petróleo e dólar mais caros potencializa a pressão sobre os custos domésticos, porque parte dos combustíveis e de outros insumos consumidos no País acompanha preços internacionais.
A inflação é um dos principais canais de transmissão desse choque. Combustíveis mais caros afetam diretamente os gastos das famílias e também podem elevar custos de transporte, logística, passagens aéreas e produção. O querosene de aviação vendido pela Petrobras, por exemplo, subiu em média 13,9% em setembro, reajuste atribuído pela companhia aos efeitos das tensões no Oriente Médio. O combustível representa cerca de 30% das despesas operacionais das companhias aéreas, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil.
A persistência dessa pressão pode ainda influenciar as expectativas para o IPCA e, consequentemente, a trajetória da Selic. Quanto maior a contaminação dos preços de energia sobre outros produtos e serviços, menor tende a ser o espaço para uma política monetária mais flexível. No fim de agosto, antes dos movimentos mais recentes do petróleo, o mercado projetava inflação de 5,01% em 2026 e Selic de 13,75% ao fim do ano, segundo o Boletim Focus.
Parte desse efeito, entretanto, está sendo amortecida por medidas adotadas pelo governo federal. Em setembro, foram anunciadas redução de tributos sobre gasolina e etanol e subvenção ao diesel para conter o repasse da valorização internacional do petróleo. O custo estimado dessas iniciativas chega a R$ 7 bilhões por mês.
Efeito Petrobras
Para a Petrobras, um petróleo mais caro tende, em princípio, a elevar a receita obtida com a produção e a exportação de óleo. O benefício, contudo, não se traduz automaticamente na mesma proporção em maior rentabilidade, porque a companhia também está exposta ao custo dos derivados, às importações e às decisões sobre quanto da volatilidade internacional será incorporada aos preços cobrados no mercado brasileiro.
Essa diferença tornou-se particularmente relevante no diesel. Em meados de setembro, a distância entre o preço praticado pela Petrobras e o custo de importação chegou a R$ 3,89 por litro, segundo informações da Reuters, levando importadores independentes a postergar compras no exterior. O Brasil produz aproximadamente 75% do diesel que consome e depende de importações para completar a oferta doméstica.
A Petrobras elevou em R$ 1 por litro o diesel vendido pelas refinarias neste mês, mas o aumento foi neutralizado por uma subvenção federal de igual valor. A própria companhia afirma que sua estratégia busca evitar o repasse imediato aos preços domésticos das oscilações conjunturais do petróleo internacional e do câmbio.
Com isso, uma escalada adicional das cotações internacionais pode criar uma situação de efeitos opostos para a estatal. O petróleo mais caro aumenta o valor de sua produção, mas também amplia a diferença entre os preços internacionais dos derivados e os praticados internamente caso os reajustes domésticos não acompanhem a mesma velocidade. A duração do choque e a evolução do câmbio serão, portanto, determinantes para definir o impacto final sobre margens, geração de caixa e desempenho das ações da Petrobras.
A agenda econômica dos próximos dias também deve permanecer no radar. Investidores aguardam novos indicadores de inflação e do mercado de trabalho dos Estados Unidos, que podem fornecer sinais sobre os próximos passos da política monetária americana. A combinação entre petróleo mais caro, inflação persistente e juros elevados tende a manter a volatilidade nos mercados globais e pode continuar repercutindo sobre câmbio, Bolsa e curva de juros no Brasil.