Epidemia bloqueada
Fonte: gauchazh.clicrbs.com.br | Data: 28/09/2026 04:06:23

Já é alguma coisa. A uma semana das eleições, o Governo Federal assinou uma medida provisória para proibir a atividade das bets no Brasil, comparando o vício em jogos online a uma epidemia.
Antes tarde do que nunca. Ainda não é um fato líquido e certo. Por ser uma medida provisória, a regra deve ser votada e aprovada pelo Congresso Nacional para virar lei.
O setor se tornou onipresente na publicidade do país. Aparecia como patrocinador dos uniformes e transmissões de jogos. Apenas na Série A do Campeonato Brasileiro, onde 14 das 20 equipes exibem anúncios das bets, os investimentos previstos para 2026 são de 1,1 bilhão de reais. Nove clubes da elite do Brasileirão possuem contratos com as plataformas com cifra superior a 50 milhões de reais.
Não há como oferecer um desconto no mercado de ilusões, ou mitigar a potência da tentação. É quase irrefreável a compulsão para antever resultados, começando pelo próprio time.
Todo mundo anseia ser profeta e dominar o futuro.
Assim como você ganha, você perde muito. E o hábito faz você perder o que não tem. Chega um momento em que não se dá conta de quanto gastou.
Quando você acerta, sua ambição é atiçada e aplica tudo o que recebe em novas transações. Quando você erra, sua culpa é ativada e busca recuperar o prejuízo com a reincidência.
Não encontro alternativa a não ser a ilegalidade. Impedimos o jogo do bicho, as máquinas caça-níqueis, e não poderíamos considerar normal arriscar o número de escanteios, de gols, de expulsões, numa infinidade de prodigiosas casualidades em uma partida.
A colheita foi a inadimplência e a morte. Afora a ansiedade, o descontrole, a taquicardia durante os placares.
O azar venceu a sorte, e atingiu a parcela mais carente da população. Até mesmo o Banco Central se mostrou receoso: em 2024, o tíquete médio das transferências para casas de apostas subiu mais de 200%.
Uma pesquisa do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima em R$ 38,8 bilhões anuais o custo social das apostas no país, dos quais R$ 30,6 bilhões estão ligados à saúde.
É óbvio que a oferta de fácil enriquecimento atrairia quem mais precisava.
Houve o registro, somente em um mês, de que cerca de 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões às bets via Pix. O montante corresponde a aproximadamente 20% do valor total repassado pelo programa naquele mês. Bolsa Família se transformou em Bolsa Bet.
Entre 2018 e 2025, os atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) motivados pela patologia aumentaram em torno de 140%. Os dados apontam uma mortalidade por suicídio 15 vezes maior entre indivíduos que sofrem com o transtorno do jogo em relação à população geral.
É evidente que amargamos um adoecimento insuflado por uma paixão: o futebol.
Agora quero ver como trataremos uma abstinência coletiva súbita. O SUS disponibiliza teleatendimento, mas será suficiente para sustentar a reabilitação de milhões de pessoas? Não se emerge de uma intoxicação psicológica sem acompanhamento. Não se sai sozinho do fundo do poço, exige-se sempre uma escada.