#PreflightBlues: por que a ansiedade pode começar antes mesmo do voo?
Fonte: oglobo.globo.com | Data: 28/09/2026 03:47:31
Termo ganhou espaço nas redes ao abordar tensão, alterações no sono e desgaste emocional relatados por profissionais da aviação
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Uniforme impecável, maquiagem pronta ainda de madrugada, mala organizada e, algumas horas depois, uma foto em um destino paradisíaco. Nas redes sociais, a rotina das comissárias de bordo costuma aparecer associada a viagens, hotéis e experiências que despertam o imaginário de quem está do outro lado da tela. Mas, antes de embarcar, existe uma parte dessa rotina que raramente aparece nas fotos.
É nesse intervalo que surge o chamado #PreflightBlues, termo usado nas redes para descrever sentimentos de angústia e ansiedade que podem aparecer antes de um voo. Dificuldade para dormir, tensão, preocupação com a próxima escala e pensamentos antecipatórios estão entre as experiências relatadas por profissionais da aviação.
Uma pesquisa apresentada em 2026 sobre o fenômeno entre tripulantes de cabine identificou alterações no sono, tensão emocional e reações físicas no período que antecede os voos. Fadiga, pressão relacionada às escalas, conflitos e questões familiares aparecem entre os possíveis fatores associados a esse desconforto.
Para Daisy Cangussú, psicóloga com 30 anos de atuação na aviação civil, a rotina dos comissários envolve uma carga emocional que nem sempre é percebida pelos passageiros.
“O trabalho dos comissários vai muito além dos procedimentos de segurança. É uma atividade que exige atenção constante, tomada de decisão e capacidade de administrar as próprias emoções. Em uma turbulência, diante de um passageiro inconveniente ou em uma emergência, o tripulante precisa transmitir segurança e estar preparado para agir”, explica.
Quando sorrir também faz parte do trabalho
A discussão sobre o #PreflightBlues também coloca em evidência o chamado trabalho emocional, quando é necessário administrar o que se sente para demonstrar o comportamento esperado durante o expediente.
Para uma comissária, isso pode significar manter a cordialidade diante de um passageiro hostil ou transmitir tranquilidade mesmo quando está cansada, preocupada ou enfrentando algum problema pessoal.
“Quando sorrir, acolher e demonstrar tranquilidade fazem parte da função, o profissional pode se habituar a administrar o que sente. O alerta aparece quando o descanso já não é suficiente, o cansaço persiste ou começa a existir sofrimento antecipado diante da própria escala”, afirma Daisy.
‘Mas você viaja o mundo inteiro…’
A imagem glamourosa associada à aviação pode acrescentar outra camada ao problema. Afinal, como admitir que existe desgaste em uma atividade que também envolve viagens internacionais, hotéis e destinos que fazem parte do imaginário de muita gente?
“Quanto mais romantizada é uma profissão, mais difícil pode ser admitir que existe sofrimento. Gostar da carreira e estar emocionalmente sobrecarregada podem coexistir. Uma coisa não invalida a outra”, pondera a psicóloga.
O debate em torno do #PreflightBlues chama atenção para uma dimensão da rotina a bordo que costuma ficar fora do enquadramento das redes sociais. Por trás do uniforme e da postura exigida durante o voo, existem profissionais que também lidam com cansaço, preocupações e expectativas antes de começar o expediente.
“Profissionalismo não significa ausência de emoções. Existe uma pessoa por trás do uniforme, e reconhecer essa dimensão humana não diminui sua competência”, conclui Daisy, fundadora da Wapiya Gestão de Pessoas e Diversidade e da Wapiya Saúde Mental e Bem-Estar.
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