Governo teme que data centers puxem alta da conta de luz
Fonte: valor.globo.com | Data: 28/09/2026 06:26:23
MME estuda alternativas para geração nos horários de pico de consumo como uso de gás natural e baterias para assegurar o fornecimento
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A expansão de data centers no Brasil abriu uma discussão sobre o risco de pressão na conta de luz. O governo federal avalia como atender ao consumo dessas cargas, aproveitando a oferta de energia renovável do país, sem elevar os custos para os demais consumidores, e discute alternativas como o uso de gás natural e de baterias para armazenar energia nos momentos de maior geração. No setor, há divergências, entretanto, sobre o impacto desses investimentos sobre as tarifas de energia.
Nos Estados Unidos, onde esses empreendimentos avançaram em escala muito maior, os preços da energia estão entre os fatores que alimentam a resistência de comunidades.
No Brasil, cálculos de agentes do setor apontam para um custo adicional de cerca de R$ 7 bilhões por ano na conta de luz. O cenário considera um crescimento de 3,5 mil megawatts no consumo de energia causado pelos data centers em 2026 e parte da premissa de que a demanda será atendida pela expansão da matriz, com novas usinas eólicas e solares. A regulamentação, porém, ainda não definiu se será exigida nova geração ou se poderá ser utilizada a oferta renovável que já atende ao sistema elétrico.
Pelo critério de rateio da contratação considerado no cálculo, esses agentes estimam que 70% do custo seria bancado pelos consumidores do mercado regulado, como residências e pequenos comércios, e 30%, pelos consumidores do mercado livre, como grandes empresas.
Na avaliação dessas fontes, o custo decorre da necessidade de garantir o fornecimento contínuo aos data centers. Como as fontes solar e eólica são intermitentes, é preciso assegurar energia também nos períodos em que não há geração, o que pode exigir capacidade adicional e pressionar as tarifas.
Justamente por isso, integrantes do governo têm defendido o uso de baterias como alternativa para lidar com essa intermitência, armazenando a energia produzida nos períodos de maior geração. A avaliação é que a solução poderia mitigar a pressão sobre as tarifas e ainda evitar o uso de gás natural, que vai na contramão do esforço de descarbonização do setor elétrico.
O Ministério da Fazenda é contra o uso do combustível e propõe soluções que permitam aproveitar a oferta de energia renovável disponível no país, enquanto o Ministério de Minas e Energia (MME) defende o gás como alternativa. A regulamentação definirá qual solução será adotada e se o gás natural poderá ser incluído entre as alternativas.
Há ainda uma discussão sobre os custos de transmissão que podem recair sobre os consumidores, mas que não é exclusiva dos data centers. Como ocorre com outras grandes cargas, a conexão desses empreendimentos pode exigir reforços e ampliações da rede, a depender da localização e do volume de energia demandado.
Existe, por outro lado, um potencial benefício para o sistema, segundo um técnico. O Brasil enfrenta excesso de geração em determinados períodos, especialmente de fonte solar, o que na prática obriga o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a cortar a produção em alguns momentos do dia. Nesse cenário, os data centers poderiam criar demanda e estimular novos investimentos em geração e transmissão, movimentando a cadeia do setor elétrico, com criação de emprego e renda.
O desafio, segundo um técnico do governo, é garantir que essas empresas arquem adequadamente com os custos adicionais gerados para o sistema. Segundo a fonte, a regulação pode ser desenhada para atribuir aos próprios data centers esses custos, evitando que sejam repassados aos demais consumidores.
Segurança do suprimento devem orientar expansão do Sistema Interligado e atendimento a novos empreendimentos, defende ministério
A Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom) avalia que a expansão dos data centers não representa um problema para a rede de energia no Brasil. Segundo o presidente-executivo da entidade, Affonso Nina, esses empreendimentos respondem hoje por cerca de 2% do consumo de eletricidade no país, e a estimativa é que a participação chegue a 4% ou 5% nos próximos cinco anos – parte ainda pequena diante do consumo total no país, segundo ele. “Temos excessos de energia de várias fontes, então a capacidade que já existe consegue atender essa demanda. Seria um problema se fosse algo na ordem de 10%, 20% do consumo”, disse.
Nina concorda que um desafio está na transmissão, diante do excesso de geração, especialmente solar e eólica no Nordeste, e das limitações para levar essa energia aos maiores centros consumidores. Ele argumenta, porém, que a expansão da rede não se traduziria em aumento das tarifas. “As linhas de transmissão são construídas e pagas pelos usuários, mas, com a demanda crescendo, tem mais gente pagando por isso. Então esse equilíbrio dos custos acaba se mantendo”, afirma o presidente executivo da Brasscom.
Nina destaca ainda que há casos em que os próprios data centers financiam subestações e trechos finais de transmissão. “Os data centers estão fazendo esse investimento por conta própria para viabilizar a chegada de energia”, diz.
Ele ressalta que a realidade brasileira não é comparável à dos EUA, pois o Brasil tem, por exemplo, um sistema elétrico interligado e excedentes de energia renovável. “Não podemos de forma alguma afirmar que no Brasil vai haver um aumento de conta elétrica porque nos EUA está acontecendo”.
Ethan Zindler, diretor de Pesquisa em Políticas Públicas e Países da BloombergNEF, afirmou em evento promovido pelo Valor e pela Amcham Brasil em Nova York, na semana passada, que a demanda de eletricidade nos Estados Unidos pode dobrar em cinco anos devido aos data centers. Segundo ele, o mercado de gás deve ficar mais restrito nos próximos 24 meses e uma alta do combustível pode elevar também o preço da eletricidade nos Estados Unidos e ter efeitos globais sobre o preço do gás.
O movimento também pode afetar a descarbonização. Zindler afirma que, apesar da continuidade dos investimentos em fontes renováveis, a quantidade de nova geração a gás prevista para os próximos anos é suficientemente grande para interromper a trajetória de queda das emissões do setor de energia americano.
Já a Associação Brasileira de Data Center (ABDC) avalia que eventuais impactos sobre a conta de luz precisam ser analisados dentro da complexidade do sistema elétrico e do planejamento de sua expansão, e não atribuídos isoladamente à chegada de uma nova classe de consumidores de energia.
Questionado pelo Valor, o Ministério de Minas e Energia não afirmou se haverá ou não impacto sobre as tarifas. A pasta diz que a diretriz do governo é evitar que a entrada dessas grandes cargas onere os demais consumidores, com uma alocação considerada justa dos custos do sistema.
Segundo o ministério, a expansão do Sistema Interligado Nacional (SIN) e o atendimento aos novos empreendimentos devem ser orientados pela segurança do suprimento, pela justa alocação de custos e por sinais econômicos que reflitam a disponibilidade dos recursos. No caso da transmissão, o MME destacou a possibilidade de aplicação do sinal locacional, mecanismo já existente que atribui encargos maiores aos agentes que mais oneram a rede.
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