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Acesso à transmissão exige mais flexibilidade para data centers, diz PSR

Fonte: megawhat.uol.com.br | Data: 29/09/2026 16:24:59

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A metodologia de acesso à rede de transmissão pode evoluir para incorporar mais flexibilidade no atendimento a grandes consumidores, como data centers, considerando alternativas como faixas de conexão, acesso sujeito a cortes previamente definidos e antecipação de reforços custeada pelo próprio interessado, segundo Rafael Kelman, diretor executivo da PSR.

“Hoje, flexibilidade tem que ser pensada de uma forma mais ampla. E principalmente na decisão de investimento, através da criação de opcionalidades”, afirmou Kelman durante o AI Day, evento promovido pela PSR para discutir fundamentos, aplicações e perspectivas da inteligência artificial, além de debater desafios de infraestrutura e energia associados à expansão dos data centers.

A discussão ocorre no momento em que o setor implementa a Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (Pnast), criada pelo Decreto 12.772, de dezembro de 2025. A política passou a organizar o acesso permanente à Rede Básica por meio de Temporadas de Acesso, nas quais os pedidos são analisados de forma conjunta pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

Antes de definir a necessidade de disputa, ONS e Empresa de Pesquisa Energética (EPE) calculam a capacidade remanescente da rede e comparam o espaço disponível com os montantes solicitados pelos agentes. Nos pontos em que a demanda supera a capacidade disponível, é realizado um processo competitivo.

A Pnast também estabelece que a EPE deverá interagir com o ONS nos estudos de acesso, observado o critério de mínimo custo global, e permite que os resultados das temporadas sejam considerados no planejamento da expansão da transmissão. A primeira Temporada de Acesso de 2026 está em andamento e, de acordo com o cronograma do ONS, será concluída em 8 de outubro.

Faixas de conexão

Durante o evento, Kelman citou uma situação em que um consumidor solicita, por exemplo, 100 MW de acesso e os estudos indicam que esse montante não pode ser atendido. Esse mesmo consumidor poderia flexibilizar sua demanda para 98 MW, que poderia ser atendida. Porém, na configuração atual, segundo ele, uma eventual redução da demanda solicitada pode exigir que o interessado passe novamente pelo rito de análise.

“Uma coisa que o mundo vem procurando é que os estudos de conexão comecem a dar faixas de conexão aceitáveis e faixas que você possa se conectar aceitando algum tipo de corte”, disse.

Esse corte poderia ser limitado previamente, por exemplo, em número de horas por ano ou em volume de energia não atendida ao longo de determinado período.

A discussão, segundo Kelman, ganha relevância no caso dos data centers porque parte dessas cargas pode ter algum grau de flexibilidade. Durante o evento, ele afirmou que os estudos atuais consideram a demanda necessária pelo empreendimento de forma contínua, o que pode restringir a capacidade indicada para conexão.

“Se você precisar reduzir o meu consumo, talvez você tivesse mais cadeiras para os data centers do que estão sendo enxergadas”, afirmou. Segundo Kelman, isso exigiria “uma discussão, uma evolução até no acesso a essa rede”.

Outra possibilidade levantada pelo executivo é permitir que o próprio consumidor arque com o custo adicional necessário para antecipar sua conexão.

Kelman citou como exemplo um caso em que a solução de transmissão considerada de mínimo custo para atender determinada carga só pudesse ser concluída em 2035. Nesse cenário, o consumidor poderia optar por financiar uma alternativa que permitisse o acesso antes dessa data, pagando a diferença em relação à solução prevista pelo planejamento.

“Por que não o data center pode chegar e dizer: tudo bem, a sua solução de mínimo custo fica pronta em 2035, mas eu pago do meu bolso para me conectar antes disso?”, questionou.

Segundo ele, mecanismos desse tipo estão sendo discutidos também em outros países diante do aumento da demanda por conexão de grandes cargas.

Geração atrás do medidor

O CEO da PSR, Luiz Augusto Barroso, afirmou no mesmo evento que as dificuldades de conexão estão levando projetos de data centers em outros países a recorrer à geração de energia atrás do medidor, sem depender inicialmente da rede.

Segundo Barroso, o aumento da escala desse tipo de solução também cria um desafio para o planejamento da transmissão, porque um empreendimento atendido inicialmente por geração própria pode decidir se conectar à rede posteriormente.

“O que está acontecendo é que a escala da geração behind the meter está aumentando muito”, afirmou. “E se todo mundo fizer uma geração behind the meter, isso também muda completamente uma dinâmica para quem está planejando o sistema de transmissão.”

A geração atrás do medidor pode ainda reduzir a utilização de uma infraestrutura de transmissão dimensionada para atender determinada carga, tornando a rede ociosa.

No sentido inverso, se um grande consumidor inicialmente abastecido por geração própria decidir se conectar à rede no futuro, o sistema pode precisar de novos reforços para acomodar essa demanda. Barroso lembrou que a construção de infraestrutura de transmissão para atender cargas de vários gigawatts pode levar anos.

A flexibilidade das soluções instaladas atrás do medidor é outro desafio. A geração precisa acompanhar as variações do consumo do data center, o que exige fontes ou recursos capazes de modular a oferta. Segundo Barroso, projetos de grande porte têm recorrido a contratos flexíveis de gás natural e baterias para fazer esse ajuste.

“O que a gente tem visto, é que quem está fazendo geração behind the meter em escala trata a flexibilidade ou com contratos flexíveis de gás ou com bateria. Você não pode fazer behind the meter nuclear, carvão, coisas que são flats”, afirmou.

Isso não significa, porém, que o aumento da demanda dos data centers esteja afastando a energia nuclear. Barroso avaliou que, nos Estados Unidos, essas cargas têm contribuído para uma retomada da fonte por meio do aproveitamento de usinas existentes, incluindo reativações e ampliações, em vez da construção de novas centrais nucleares isoladas da rede para atender data centers.

Entre os projetos estão a retomada da unidade 1 de Three Mile Island, na Pensilvânia, pela Constellation Energy, associada a um contrato de fornecimento de longo prazo com a Microsoft, e a reativação da usina de Duane Arnold, em Iowa, apoiada por um contrato de compra de energia de 25 anos com o Google.

Segundo Barroso, também pode haver flexibilidade pelo lado do consumo, dependendo do tipo de aplicação executada no data center. Algumas atividades precisam operar continuamente, enquanto outras permitem modulação da demanda.

(A repórter viajou a convite da PSR)