Dor ao engolir não passa? Veja quando o sintoma pode indicar câncer de amígdala
Fonte: correio24horas.com.br | Data: 30/09/2026 18:06:32
Dor de garganta que não melhora, alteração na voz e nódulo no pescoço também podem exigir avaliação
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Perla Ribeiro
Publicado em 30 de setembro de 2026 às 17:42

Uma dor de garganta que não passa, dificuldade para engolir ou até aquela sensação persistente de que há algo preso na garganta podem parecer sintomas comuns. Quando permanecem por muito tempo, porém, merecem atenção. Esses sinais podem estar entre as manifestações do câncer de amígdala, um tipo de tumor da orofaringe que também pode atingir pessoas que nunca fumaram.
O tumor está associado a diferentes fatores de risco, entre eles a infecção pelo papilomavírus humano (HPV), especialmente o tipo 16, além do tabagismo e do consumo de álcool. As amígdalas, também chamadas de tonsilas palatinas, fazem parte da orofaringe, região localizada na parte posterior da boca e da garganta. A base da língua e outras estruturas da região também integram essa área. Segundo o National Cancer Institute (NCI), dos Estados Unidos, estudos apontam uma associação especialmente forte entre a infecção pelo HPV-16 e os tumores de amígdala.
Bons hábitos podem ajudar a evitar o surgimento do câncer de esôfago (Imagem: ViDI Studio | Shutterstock) por Imagem: ViDI Studio | Shutterstock
Uma revisão que reuniu cinco estudos identificou risco significativamente maior da doença entre pessoas com evidências de infecção pelo tipo 16 do vírus. O tabagismo também está relacionado ao aumento do risco de câncer de orofaringe. O consumo de álcool, por sua vez, pode estar associado à doença mesmo entre pessoas que não fumam. Quando os dois hábitos estão presentes, o risco pode ser ainda maior.
De acordo com Paulo Henrique Fernandes, cirurgião oncológico e presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), o HPV-16, um dos tipos do papilomavírus humano (HPV), é um dos principais fatores associados aos cânceres de orofaringe. “A infecção pelo vírus pode contribuir para alterações nas células e, em alguns casos, favorecer o desenvolvimento de tumores”, explica.
Câncer de amígdala também aparece em pessoas que nunca fumaram
Embora os cânceres de cabeça e pescoço tenham sido historicamente associados ao cigarro e ao álcool, o perfil de parte dos pacientes mudou nas últimas décadas.Segundo Carlos Eduardo Santa Ritta Barreira, coordenador das Comissões de Cirurgia de Cabeça e Pescoço da SBCO, tumores de amígdala e da base da língua relacionados ao HPV aparecem com frequência em homens entre 40 e 60 anos que nunca fumaram. Por isso, não ter histórico de tabagismo não significa que sintomas persistentes na garganta possam ser ignorados.
Quais são os sintomas do câncer de amígdala?
Alguns sinais podem ser confundidos com problemas comuns de garganta. O que chama atenção é principalmente a persistência.
Entre os sintomas que merecem avaliação médica estão:
- dor ou dificuldade para engolir;
- dor de garganta que não melhora;
- sensação de algo preso na garganta;
- alteração na voz;
- dor de ouvido sem causa aparente;
- aparecimento de nódulo ou caroço no pescoço.
A presença de um desses sintomas não significa, por si só, que a pessoa tenha câncer. No entanto, quando eles persistem, é importante procurar avaliação médica para investigar a causa.
Quantos casos existem no Brasil?
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima 4.850 novos casos de câncer de orofaringe no Brasil em 2026, sendo 3.910 entre homens e 940 entre mulheres. O instituto não apresenta uma estimativa separada exclusivamente para os tumores de amígdala. Um estudo brasileiro publicado em 2025 analisou dados de 30 Registros de Câncer de Base Populacional entre 1988 e 2020 e identificou 17.980 casos de câncer de orofaringe. Desse total, 4.048, ou 22,5%, tinham as amígdalas como localização primária do tumor.
Dados dos Registros Hospitalares de Câncer referentes a 2023 registraram 274 casos de câncer de amígdala. Desse total, 227 ocorreram em homens, o equivalente a 82,8%, e 47 em mulheres, ou 17,2%.
Vacina contra HPV ajuda na prevenção
A vacinação é uma das estratégias de prevenção relacionadas ao HPV. A vacina quadrivalente disponibilizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) protege contra os tipos 6, 11, 16 e 18 do vírus. A vacinação é oferecida gratuitamente em dose única para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos.
Em 2026, a estratégia também foi ampliada temporariamente para jovens de 15 a 19 anos que ainda não haviam recebido o imunizante, além de outros grupos com indicação específica.O HPV é transmitido principalmente por contato sexual. Na maioria das pessoas, o sistema imunológico consegue eliminar a infecção naturalmente.
Em alguns casos, porém, o vírus persiste e pode provocar alterações celulares que, ao longo dos anos, favorecem o desenvolvimento de determinados tipos de câncer. “A evolução pode ser lenta e silenciosa, podendo levar décadas entre a infecção e o surgimento de um tumor”, afirma Fernandes.
Álcool e cigarro também aumentam o risco
O tabaco continua entre os principais fatores associados aos tumores de orofaringe. O risco também está relacionado ao consumo de álcool, e a combinação dos dois fatores pode potencializar os efeitos. Além dos cigarros convencionais, outros produtos de fumo também estão relacionados à exposição a substâncias que podem prejudicar a saúde.
Ao mesmo tempo, os especialistas destacam que os tumores associados ao HPV apresentam características diferentes das observadas historicamente nos cânceres de cabeça e pescoço ligados principalmente ao tabagismo e ao álcool.
Como é feito o tratamento?
O tratamento depende de fatores como tamanho e localização do tumor, estágio da doença, comprometimento dos linfonodos do pescoço e presença ou não de metástases.
Entre as principais opções estão:
- cirurgia;
- radioterapia;
- quimioterapia;
- imunoterapia;
- terapias-alvo.
Em tumores iniciais, a cirurgia pode ser utilizada para retirar a lesão. Em determinadas situações, é possível recorrer à cirurgia robótica transoral, técnica que permite alcançar regiões profundas da garganta pela boca. Quando há comprometimento dos linfonodos cervicais, também pode ser necessária uma cirurgia para removê-los.
A radioterapia pode ser utilizada como alternativa à cirurgia em alguns casos ou depois do procedimento cirúrgico, quando há necessidade de reduzir o risco de retorno da doença. Em situações específicas, pode ser combinada à quimioterapia. Já em casos mais avançados, de retorno do tumor ou de disseminação para outras partes do corpo, podem ser consideradas estratégias como quimioterapia, imunoterapia e terapias-alvo.
“Não existe um único tratamento para todos os pacientes com câncer de amígdala. Precisamos considerar o estágio da doença, as características do tumor, o comprometimento dos linfonodos e as condições clínicas do paciente”, explica Fernandes. As características individuais da doença é que determinam a estratégia terapêutica indicada para cada paciente.
