Paciente de Jequié espera regulação há quase 40 dias
Fonte: correio24horas.com.br | Data: 02/10/2026 05:33:07
Aos 52 anos, Sonia aguarda vaga em unidade de hematologia e familiares temem o pior
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Lucas Pereira
Publicado em 2 de outubro de 2026 às 05:03

Há mais de um mês, Sonia Pereira Silva e seus familiares aguardam uma vaga em um hospital com atendimento em hematologia. O sentimento é de apreensão e revolta. Natural de Jequié, a costureira de 52 anos chegou à capital para uma consulta em dia 26 de agosto, após apresentar manchas escuras no corpo e sangramentos. Ela foi diagnosticada em uma unidade de saúde da cidade com baixa taxa nas plaquetas sanguíneas e veio para Salvador em busca de tratamento.
A sobrinha de Sonia, Débora Silva, conta que esses quase 40 dias de internação têm sido muito complicados. “A gente ficou três dias num corredor, sentadas nas cadeiras e ela debilitada, porque perde sangue, o sangue dela não circula. E aí toma bolsa, mas não adianta. É horrível. Aí ela conseguiu ir para um leito lá da UPA, mas não adianta, porque só fica ali na espera”.
Por ser de média complexidade, a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) dos Barris, onde Sonia está internada, oferece atendimentos de urgência e emergência, mas não possui capacidade para serviços de hematologia, como o que a costureira precisa.
A Fila da Regulação, gerida pela Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), busca organizar e intermediar o acesso da população a consultas especializadas, exames, internações e cirurgias no Sistema Único de Saúde (SUS). A fila funciona por ordem de gravidade/prioridade e não por chegada; quando abre uma vaga, a Central de Regulação faz a gerência e autoriza a transferência do paciente para a unidade. “Na prática, a prioridade deve considerar a condição clínica, a gravidade, o risco de agravamento, a vulnerabilidade e a necessidade de cuidado naquele momento. Por isso, uma situação que inicialmente poderia aguardar pode precisar ser reavaliada se houver mudança no quadro clínico”, explica a pesquisadora, professora da Universidade Católica de Salvador, pós-doutora em psicologia da Saúde Joana Azevêdo Lima.
“A fila precisa ser dinâmica, porque a condição de saúde da pessoa também pode mudar durante a espera. É importante lembrar que a regulação não existe separada das demais políticas de saúde. Ela depende da organização da rede, dos fluxos de referência e contrarreferência e da oferta efetivamente existente em cada território”, completa a pesquisadora.
Demora e adoecimento
Segundo Debora, a família tem feito um esforço para estar ao lado de dona Sonia, mas a demora na transferência tem deixado a paciente extremamente abalada emocionalmente: “Ela fala ‘eu vejo a hora de sair daqui já para ser enterrada’. E aí o psicológico da pessoa, infelizmente, também vai ficando cada vez mais abalado e debilitado. Anteontem faleceu um rapaz que estava do lado do leito dela e também esperava regulação. É horrível, a pessoa fica com medo de acontecer alguma coisa enquanto espera”, disse.
A demora na regulação, somada à exposição de outras patologias e o não tratamento, são fatores de grande risco para o paciente debilitado. Para além do inicio ou da continuidade dos cuidados, que podem “contribuir para agravamento do quadro” e no surgimento de outras complicações, há de se considerar também os impactos no emocional da pessoa. “Uma pessoa que permanece durante muito tempo aguardando uma resposta também pode experimentar ansiedade, medo, insegurança, perda de autonomia e impactos na sua vida familiar, social e profissional. Quando a espera se prolonga, ela deixa de ser apenas um intervalo administrativo e passa a interferir concretamente na vida daquela pessoa”, diz Joana Lima. “Então, quando uma pessoa já está em uma situação de adoecimento e ainda precisa permanecer por muito tempo esperando pelo cuidado de que necessita, podemos ter uma sobreposição de vulnerabilidades”, aponta a especialista.
Demora para exames
Não somente na espera de um leito ou de um especialista, a fila da regulação enfrenta problemas ainda na oferta de exames variados. E em muitos casos, essa demora conta muito para a identificação dos problemas e no tratamento.
Como no caso de dona Ivonilde Santos Xavier, de 58 anos, desde o dia 24 de setembro aguardando uma tomografia computadorizada de abdômen e tórax. Internada na UPA Santo Antônio, no Bonfim, ela aguarda o procedimento para investigar a suspeita de carcinomatose peritoneal, um câncer na região do estômago.
Sobrinho da paciente, Cleison Costa, contou à reportagem que dona Ivonilde já tem histórico de outras comorbidades. “Ela tem problema de diabetes, pressão alta. A gente descobriu que tinha algo errado depois que ela fez uma ultrassom que identificou vários nódulos pelo corpo e os médicos suspeitaram que tinha chance de ser câncer”, explicou. Ainda assim, ela segue aguardando oportunidade para realizar o procedimento, que deve apontar qual é o problema de saúde dela.
A família aguarda e tenta conseguir a regulação divulgando o caso e tentando acionar conhecidos: “É difícil, mas a gente vai seguir tentando. Tá todo mundo nessa corrente por minha tia”, disse o rapaz.
Conforme reportagem do Correio em dezembro de 2025, uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA) revelou uma significativa piora no tempo de espera da regulação de saúde em várias especialidades médicas entre 2019 e 2024.
O relatório aponta que cirurgias torácicas, hematologia e oncologia, os dois últimos que se encaixam nos casos de Sonia e Ivonilde, figuram entre os atendimentos com as maiores e mais críticas filas no estado. O documento apontou que quem precisou de consultas especializadas com hematologistas aguardava, em média, entre 7 e 8 dias; para oncologia a espera era de 6 e 7 dias.
Além da demora, a auditoria do TCE-BA identificou outros problemas da regulação da saúde na Bahia, entre eles a predominância de servidores terceirizados, a falta de médicos e profissionais qualificados nas centrais e a centralização da regulação, que desde 2020 absorveu ainda mais casos após os complexos reguladores das regiões Sul e Sudoeste terem sido desmobilizados.
Para a pesquisadora, “é necessário compreender onde a rede está deixando de responder à necessidade da população e atuar nesse ponto”. Além disso, segundo a observação da Dra. Joana, a regulação não é meramente “administrar uma fila”, mas sim “uma ferramenta de gestão do SUS e de organização do acesso, que precisa funcionar articulada à capacidade que a própria rede tem de responder às necessidades da população e também aos mecanismos de participação social”.
