Quem Ama Cuida: a origem e os bastidores da novela de Walcyr Carrasco
Fonte: vejasp.abril.com.br | Data: 02/10/2026 08:00:08
Para criar as maldades de Pilar ou a sede de vingança de Adriana em Quem Ama Cuida, novela das 9 da TV Globo, Walcyr Carrasco prefere o silêncio e o conforto de seu apartamento nos Jardins. Longe de festas e holofotes, aos 74 anos o dramaturgo caminha com o auxílio de uma bengala para manter o equilíbrio devido a uma fratura na perna, sofrida há um ano e meio. E foi justamente da convivência com fisioterapeutas e profissionais de reabilitação que nasceu a ideia para a trama.
“Entrei nesse mundo dos enfermeiros, que ainda não conhecia”, conta ele. Após a marca dos 100 capítulos, já foram muitas as reviravoltas no enredo.
A mais recente delas, a transformação da protagonista interpretada por Letícia Colin, rendeu picos de audiência, com 25 pontos em São Paulo. Desde então, a produção já acumula quase 132 milhões de espectadores. Na média nacional, são 23 pontos de audiência e 41% de participação no Painel Nacional de Televisão (PNT), a melhor performance do horário desde Vale Tudo (2025).

“Busco sempre soluções inesperadas e caminhos diferenciados”, descreve ao refletir sobre seu processo criativo. “Você cria um personagem inteiramente bom, mas ao longo da novela vai jogando aqui e ali uma coisinha, para depois poder revelar que ele era do mal. Ninguém percebe, mas dei as dicas.”
Hábitos de autor
Famoso nos bastidores por defender à risca cada linha de seus roteiros, o autor hoje enxerga as intervenções de elenco com mais simpatia, desde que tenham intenções artísticas, e não de vaidade.
“Uma coisa é quando o ator mexe no texto para ter mais tempo de tela. Outra é quando ele contribui de fato para o personagem”, pondera. O passe livre consagrou momentos antológicos de Tatá Werneck como Brigite e agora de Isabel Teixeira na pele da vilã Pilar. “Ela (Isabel) dá uns tons de humor que me instigam a escrever.”

De hábitos noturnos, Walcyr estende a rotina de trabalho até depois da meianoite, debruçado sobre a versão final dos capítulos compartilhados com a coautora Claudia Souto (a direção artística é assinada por Amora Mautner).
“Mas estou mais diurno agora”, garante. “Esse é um trabalho de dia e de noite, estou sempre ligado na novela.” Só tem ficado de fora o antigo ritual de encerrar o expediente com um charuto na varanda.
Arte e lembranças
Além do prazer de escrever, que é tanto hobby quanto ofício, sua principal indulgência é a boa gastronomia. “Gosto de comer bem, comprar roupas transadas. E uma extravagância minha é ficar sozinho, viver meu próprio universo.” E há interesse em um dia parar de trabalhar? “Muito! Mas aí surge outro projeto e me apaixono de novo.”
A postura reservada virou uma barreira natural contra abordagens de quem gostaria de um empurrãozinho para conquistar espaço em suas produções. “Não é tão fácil se aproximar de mim”, admite, rindo. “As pessoas procuram, fazem amizade para tentar conseguir papel ou alguma participação, mas não tenho muito espaço para isso. Sou mais de amizades antigas.”
Quem visita seu lar dá de cara com quadros de artistas como Os Gêmeos e Marc Chagall (1887-1985). “Não compro mais porque não tem mais nenhuma parede livre”, diverte-se.
Ao redor da mesa no escritório, Walcyr mantém uma profusão de figuras, santas e padroeiras. Só as muitas pilhas de livros superam a quantidade de obras de arte, com títulos de história, biografias e manuais sobre o fazer literário — uma prova física de todo o repertório acumulado desde o início da carreira.
Em lugar de destaque fica um pilão do século XIX trazido da Espanha por seus avós imigrantes. “Eles trouxeram poucas coisas na bagagem. Nem sei como o pilão acabou comigo entre tantos netos.” Da avó, ele acredita ter herdado também o temperamento. “Assim como ela, sou teimoso e bravo quando sinto que a coisa pesou. E se quero uma coisa, insisto e não desisto na primeira derrota.”

Carreira estrelada
Filho de um ferroviário que insistia para que todos os filhos estudassem, Walcyr nasceu em Bernardino de Campos, no interior paulista, e formou-se em jornalismo pela Universidade de São Paulo (USP). Trabalhou em grandes redações — foi colunista de Vejinha de 1992 a 2011 — antes de dar os primeiros passos na dramaturgia.
Na extinta TV Manchete, nos anos 1980 e 1990, assinou seu primeiro sucesso, o clássico Xica da Silva (1996), sob o pseudônimo de Adamo Angel. Na época, ele era contratado do SBT como consultor de dramaturgia. Ao descobrir a farsa — revelada pela revista VEJA — o antigo patrão, Silvio Santos, dobrou eu salário e permitiu que ele concluísse o trabalho na Manchete, antes de escrever produções como Fascinação no próprio SBT e migrar para a TV Globo anos depois.
A chegada à Globo marcou o início de uma das trajetórias mais vitoriosas da televisão. Especialista em comédias românticas e folhetins do horário das 6, como Chocolate com Pimenta (2003) e Alma Gêmea (2005), ele migrou com facilidade para as faixas das 7, das 11 e das 9.
Em 2016, alcançou o ápice do reconhecimento ao conquistar o International Emmy Award de Melhor Novela por Verdades Secretas (2015). “Quando a minha primeira novela foi ao ar, já me senti bem- sucedido. Claro que foi muito legal também quando ganhei o Emmy, mexe muito com o ego sair de lá do interior para uma cerimônia nos Estados Unidos”, relembra.
Outro elemento frequente em seus roteiros é a espiritualidade, tema que se conecta diretamente com sua vida pessoal e permeou histórias marcadas por anjos e espíritos, como O Profeta (2006), Sete Pecados (2007) e Amor à Vida (2013).

A intuição é um pilar central em sua própria vida. Estudioso de tarô e quiromancia na juventude, ele chegou a cogitar viver da prática antes de se enveredar pela arte de contar histórias. O fim da entrevista para esta reportagem, aliás, rendeu até uma leitura de mãos deste repórter.
“Me apaixonei por esses caminhos místicos antes de me entregar de vez à escrita.”
Enquanto conduz os capítulos decisivos de Quem Ama Cuida, prevista para encerrar em janeiro, ele se prepara para lançar, em novembro, Fazenda Tropical, romance escrito no intervalo entre duas produções da TV. O autor também foi convidado a concluir Sanditon (Principis; 192 págs.; R$ 39,90), manuscrito que Jane Austen deixou inacabado em 1817, lançado no último dia 1º. “Ter um projeto de vida é o que mantém a gente bem de saúde e com vontade de acontecer.”
Publicado em VEJA São Paulo de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015.
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