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Como o gás natural pode contribuir para a transição energética brasileira

Fonte: alemdaenergia.engie.com.br | Data: 02/10/2026 07:37:21

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A transição energética brasileira avança apoiada em uma matriz elétrica majoritariamente renovável, mas a expansão de fontes como solar e eólica aumenta a necessidade de flexibilidade, potência e segurança de fornecimento. Nesse sentido, o gás natural assume uma função complementar às renováveis, especialmente por meio de termelétricas capazes de responder rapidamente às variações de geração e demanda.

A mudança no perfil do Sistema Interligado Nacional (SIN) ocorre em paralelo à redução da capacidade de armazenamento proporcionada pelos grandes reservatórios hidrelétricos e ao surgimento de novas cargas de elevada demanda por energia. Com seu acionamento rápido, o gás natural pode contribuir para a descarbonização, substituindo fontes térmicas mais poluentes, e para a segurança energética, criando condições favoráveis para a expansão das energias renováveis.

Renováveis ampliam necessidade de flexibilidade

Durante décadas, as hidrelétricas com grandes reservatórios exerceram papel estratégico tanto na geração quanto na capacidade de armazenar energia e acompanhar as oscilações do consumo. A construção de novos empreendimentos com grandes reservatórios, contudo, passou a enfrentar restrições ambientais e sociais, gerando um descompasso entre a capacidade de armazenamento do SIN e o consumo de energia.

Ao mesmo tempo, a expansão de solar e eólica modificou o perfil de operação do sistema. De acordo com dados da Ember, a participação conjunta das fontes solar e eólica na geração de eletricidade aumentou 18,7%, saltando de 15,3% em agosto de 2019 para 34% em agosto de 2025. Apesar do caráter positivo no que diz respeito à descarbonização, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) necessita de recursos capazes de compensar as oscilações diárias dessas fontes. 

É nesse ponto que as termelétricas a gás natural são oportunas para complementar a flexibilidade historicamente oferecida pelas hidrelétricas e suprir as lacunas deixadas pelas fontes renováveis. Devido ao rápido acionamento, as térmicas à gás conferem maior resiliência e confiabilidade ao SIN, além de se estabelecerem como energético de transição. 

Descarbonização e novas demandas

Vista aérea de um camião a gás natural a percorrer uma estrada asfaltada que atravessa uma floresta verde.

Foto: dee karen/ Shutterstock

A contribuição ambiental do gás também está relacionada às suas menores emissões em comparação com combustíveis fósseis mais intensivos em carbono, como carvão e óleo. Segundo um documento da Abegás sobre o papel do gás natural na transição energética, no setor de transportes, o gás natural é destacado como uma alternativa ao diesel. Estima-se que ele possa reduzir as emissões de CO₂ em até 21% em certas aplicações veiculares, além de diminuir em até 85% as emissões de NOx e material particulado. O estudo também apresenta o combustível como uma ponte para o biometano, alternativa renovável capaz de aprofundar a redução das emissões.

Essa lógica ganha uma dimensão adicional com a busca brasileira por investimentos em atividades intensivas em eletricidade. O debate sobre o regime tributário para data centers, por exemplo, destaca a necessidade de conciliar a expansão de fontes renováveis com a disponibilidade de energia. Segundo a Abegás, data centers possuem baixa tolerância a interrupções (flexibilidade máxima de 0,013% de interrupção no fornecimento) e demandam fornecimento contínuo e estável, o que pode ampliar o espaço para o gás como fonte de suporte à infraestrutura digital.

Marcelo Mendonça, diretor-executivo da Abegás, afirma: “não faz sentido criar bloqueios e excluir o gás natural, que é o energético da transição. Longe de competir com as fontes renováveis, o gás natural oferece o lastro necessário para viabilizar a operação contínua dos data centers, abrindo caminho também para o desenvolvimento do biometano”.

A discussão, porém, não se resume a construir novas termelétricas ou expandir a infraestrutura de transporte. Como destaca o engenheiro Jerson Kelman, em artigo para o canal Brasil Energia, uma solução economicamente mais atraente passa pelo aproveitamento da infraestrutura já existente, desde que o gás possa ser estocado. Ao armazenar o gás nos gasodutos ou em tanques próximos às usinas, o “transporte se daria de forma contínua, em menores vazões ao longo do dia, permitindo acumular o volume necessário para atender ao pico elétrico, de até quatro horas, com a potência requerida”.

O desafio e a oportunidade da transição energética brasileira passa, portanto, por integrar diferentes fontes e infraestruturas em vez de tratá-las como concorrentes. Com a expansão das renováveis, o gás natural pode exercer uma função de sustentação do sistema, fornecendo potência nos momentos críticos e contribuindo para reduzir a dependência de combustíveis mais emissores. Ao mesmo tempo, sua integração com o biometano aponta para uma trajetória de redução progressiva da intensidade de carbono.