Baixar Notícia
WhatsApp
Email

Gandhi, 157 anos: o homem que fez da não violência uma força capaz de enfrentar um império

Fonte: brasil247.com | Data: 02/10/2026 20:04:55

🔗 Ler matéria original

247 — Neste 2 de outubro, o mundo celebra os 157 anos do nascimento de Mahatma Gandhi, uma das figuras mais importantes da história contemporânea. Líder da luta pela independência da Índia, ele demonstrou que a mobilização de um povo, sustentada pela organização e pela recusa em colaborar com a injustiça, poderia desafiar a dominação colonial. Sua trajetória tornou a não violência uma referência mundial de resistência política. (culture.gov.in⁠)

Nascido em Porbandar, no atual estado indiano de Gujarat, Mohandas Karamchand Gandhi construiu uma atuação que ultrapassou as fronteiras de seu país. Segundo o Ministério da Cultura da Índia, suas experiências com a discriminação racial na África do Sul foram decisivas para a formação de seu pensamento sobre igualdade e resistência à opressão. (culture.gov.in⁠)

A dimensão universal desse legado foi reconhecida pelas Nações Unidas em 2007, quando a Assembleia Geral instituiu o 2 de outubro como Dia Internacional da Não Violência. A data promove a educação para a paz e a difusão de formas de enfrentar conflitos sem recorrer à agressão física. (un.org⁠)

A efeméride permite revisitar uma questão que atravessa toda a experiência gandhiana: como combater a injustiça sem reproduzir os mecanismos de desumanização que a sustentam? A resposta de Gandhi foi construída ao longo de décadas, em campanhas, prisões, negociações e experiências comunitárias.

Da formação em Londres ao enfrentamento do racismo

Gandhi cresceu em um ambiente marcado pela religiosidade. Seu pai, Karamchand Gandhi, exercia funções administrativas em principados da região, enquanto sua mãe, Putlibai, tinha uma profunda prática religiosa. Esse universo contribuiu para sua formação moral, embora suas ideias tenham se desenvolvido também no contato com outras culturas. (nobelprize.org⁠)

Em 1888, ainda jovem, viajou para a Inglaterra para estudar direito. Sua permanência em Londres ampliou o interesse pelo vegetarianismo e pelo estudo das religiões. Depois de concluir a formação jurídica, retornou à Índia, onde enfrentou dificuldades para estabelecer sua carreira como advogado. (gandhi-manibhavan.org⁠)

A mudança decisiva ocorreu em 1893, quando foi trabalhar na África do Sul. Ali, conheceu diretamente a discriminação imposta aos indianos. Um episódio se tornou emblemático: Gandhi foi retirado de um vagão de primeira classe na estação de Pietermaritzburg por causa de sua cor, apesar de possuir passagem para viajar naquela categoria. (gandhi-manibhavan.org⁠, gandhismriti.gov.in⁠)

A humilhação passou a integrar uma experiência mais ampla de organização política. Gandhi mobilizou a comunidade indiana contra leis discriminatórias e desenvolveu métodos de resistência que posteriormente levaria à Índia. A passagem pela África do Sul foi fundamental para transformar o advogado em uma liderança pública. (culture.gov.in⁠)

A não violência como ação política

No centro de sua filosofia estava o satyagraha, conceito associado à firmeza na verdade e à resistência não violenta. Na prática, significava enfrentar a injustiça por meio da ação coletiva, sem fazer da agressão ao adversário o instrumento da transformação. (culture.gov.in⁠)

A força dessa estratégia dependia de organização e disciplina. Protestos, boicotes e atos de desobediência civil procuravam atingir os mecanismos que sustentavam a autoridade colonial. A resistência exigia disposição para enfrentar repressão e prisão, preservando o compromisso com a não violência. (un.org⁠)

Uma leitura política desse método ajuda a compreender sua originalidade: um governo pode dispor de armas, funcionários e instituições, mas depende também de obediência e colaboração. Ao organizar a retirada dessa colaboração, a mobilização popular pode elevar o custo da dominação e expor sua falta de legitimidade.

Essa exigência de coerência apareceu de maneira dramática em 1922. Após o episódio de Chauri Chaura, no qual manifestantes mataram policiais, Gandhi interrompeu a campanha de não cooperação. A decisão evidenciou o peso que atribuía aos meios empregados na luta, mesmo quando isso significava suspender uma mobilização de grande alcance. (mkgandhi.org⁠)

A Marcha do Sal e a força de um gesto popular

Ao retornar definitivamente à Índia, em 1915, Gandhi passou a participar de campanhas que aproximaram a luta nacional das condições concretas de vida da população. Sua atuação ajudou a ampliar a participação popular no movimento de independência e a conferir centralidade política às experiências de exploração e pobreza. (gandhismriti.gov.in⁠)

A Marcha do Sal, em 1930, tornou-se a expressão mais conhecida dessa estratégia. Em 12 de março, Gandhi iniciou a caminhada até Dandi. Em 6 de abril, desafiou a legislação colonial ao recolher sal na costa, convertendo um produto indispensável à vida cotidiana em símbolo da resistência. (mkgandhi.org⁠)

A escolha tinha um significado político profundo. Ao contestar o controle britânico sobre o sal, o movimento ligava a reivindicação de independência a uma necessidade compreendida por toda a população. A soberania deixava de parecer uma discussão restrita às elites e passava a ser percebida na relação entre o poder colonial e a vida diária. (culture.gov.in⁠)

A marcha ilustra uma das grandes capacidades de Gandhi: transformar um gesto acessível em uma intervenção política de enorme alcance. Sua eficácia ajuda a explicar por que aquele episódio permanece como referência para movimentos que buscam mobilizar a sociedade em torno de demandas concretas.

Independência e soberania econômica

A resistência gandhiana também envolvia a produção e o consumo. A defesa do swadeshi, associada à valorização da produção nacional, e o incentivo à fiação manual vinculavam a luta pela liberdade à redução da dependência econômica. A roda de fiar se tornou um símbolo dessa proposta. (gandhi-manibhavan.org⁠)

Nesse pensamento, a emancipação política precisava alcançar a organização da vida material. A valorização do trabalho e das comunidades fazia parte de uma concepção de liberdade que procurava ir além da substituição das autoridades coloniais por governantes indianos. (gandhi-manibhavan.org⁠)

Essa dimensão permite estabelecer uma reflexão sobre os desafios da soberania: conquistar o direito de decidir o próprio destino exige discutir também quem controla a produção, como a riqueza é distribuída e quais condições permitem à população viver com dignidade.

A independência indiana resultou de um processo histórico amplo, com diferentes lideranças, correntes políticas e movimentos sociais. A Segunda Guerra Mundial e as mudanças no poder britânico também foram decisivas. Reconhecer esses fatores permite compreender a importância de Gandhi dentro de uma luta coletiva, sem reduzir a emancipação de um país à ação de um único homem. (nam.ac.uk⁠)

A liberdade e a tragédia da partilha

A Índia conquistou a independência em 15 de agosto de 1947. O fim do domínio britânico, porém, ocorreu junto à partilha do subcontinente e à criação do Paquistão. A transição foi acompanhada por deslocamentos de milhões de pessoas e por massacres entre comunidades religiosas. (nam.ac.uk⁠)

Gandhi havia se oposto à divisão e continuou a defender relações pacíficas entre as comunidades e os novos países. A convivência entre hindus e muçulmanos ocupou um lugar central em sua atuação nos últimos meses de vida. (parliament.uk⁠)

A tragédia da partilha revelou os limites da influência de qualquer liderança diante de conflitos políticos e religiosos de tamanha dimensão. Ao mesmo tempo, tornou ainda mais urgente o princípio de que a liberdade de um povo não deveria depender da perseguição a outro.

Em 30 de janeiro de 1948, Gandhi foi assassinado em Nova Délhi por Nathuram Godse, um nacionalista hindu que se opunha à sua defesa da tolerância em relação aos muçulmanos. Aos 78 anos, o líder da não violência morreu vítima do extremismo que procurara combater. (culture.gov.in⁠)

Espiritualidade, serviço e as tensões de seu pensamento

A espiritualidade teve papel fundamental em sua vida. A Bhagavad Gita foi uma de suas principais referências, oferecendo uma base para refletir sobre o dever, o domínio de si e o serviço. A interpretação gandhiana da obra ligava a transformação interior à responsabilidade diante do mundo. (mkgandhi.org⁠)

Essa relação ajuda a compreender sua exigência de disciplina pessoal. O compromisso público com a verdade e com a não violência dependia, em sua concepção, de uma prática cotidiana. A ação política era inseparável de um trabalho sobre os próprios impulsos, interesses e comportamentos. (mkgandhi.org⁠)

Sua trajetória também foi marcada por divergências importantes. Nos debates com B. R. Ambedkar, liderança dos dalits, as diferenças sobre o enfrentamento da opressão de castas e sobre a representação política ficaram explícitas. Os registros desses diálogos mostram Ambedkar insistindo na necessidade de poder político e de mudanças nas condições sociais e econômicas dos grupos discriminados. (mkgandhi.org⁠)

Essas tensões fazem parte da história de Gandhi e da própria formação da Índia moderna. Estudá-las permite compreender melhor a distância entre a intenção de reformar uma sociedade e as demandas de quem sofre diretamente suas hierarquias e exclusões.

Um legado que atravessou continentes

A influência de Gandhi alcançou outros movimentos de emancipação. Nos Estados Unidos, Martin Luther King Jr. incorporou métodos gandhianos à luta contra a segregação racial. O Instituto Martin Luther King, da Universidade Stanford, documenta essa relação como um elemento central da estratégia de resistência não violenta adotada pelo líder dos direitos civis. (kinginstitute.stanford.edu⁠)

Em 1959, King viajou à Índia para aprofundar sua compreensão desse legado. Encontrou autoridades, familiares e antigos colaboradores de Gandhi, além de conhecer experiências sociais vinculadas ao movimento. A viagem fortaleceu sua convicção sobre a capacidade da resistência não violenta de enfrentar a opressão. (kinginstitute.stanford.edu⁠)

Apesar de sua projeção internacional, Gandhi nunca recebeu o Nobel da Paz. O próprio site oficial do prêmio dedica um estudo a essa ausência e às circunstâncias das indicações de seu nome. Sua importância histórica, entretanto, ultrapassou qualquer reconhecimento institucional. (nobelprize.org⁠)

Aos 157 anos de seu nascimento, Gandhi permanece como referência para uma pergunta essencial à vida política: de que maneira a luta pela liberdade pode preservar a dignidade humana? Seu legado oferece uma resposta exigente, fundada na organização popular, na coragem diante da repressão e na recusa de transformar diferenças em licença para o ódio.

❗ Se você tem algum posicionamento a acrescentar nesta matéria ou alguma correção a fazer, entre em contato com [email protected].

✅ Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no Telegram do 247 e no canal do 247 no WhatsApp.

Marque o Brasil 247 como fonte preferida no Google:

Apoie o jornalismo independente do 247:

Cortes 247