Brasileiros no Japão deram 71% a Flávio. Brasileiros na Austrália deram 57% a Lula. A mesma eleição — e o que os opostos revelam
Fonte: ndmais.com.br | Data: 05/10/2026 07:04:14
No Japão, Flávio Bolsonaro obteve 71,7% — quase idêntico aos 72,2% de seu pai em 2022. Na Austrália, Lula cresceu de 54% para 57,4%. Mesma eleição, mesmo povo, resultados opostos — porque as comunidades que emigraram para cada país são sociologicamente diferentes e trazem identidades políticas que nenhum fuso horário dissolveFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais
Enquanto as urnas no Brasil ainda estavam abertas, os primeiros resultados da eleição presidencial brasileira já chegavam da Ásia e da Oceania. É um dos efeitos práticos de uma eleição global: o fuso horário faz com que eleitores no Japão, na Austrália e na Nova Zelândia terminem de votar horas antes de o primeiro colégio eleitoral brasileiro abrir no horário de Brasília.
O que esses números revelam não é uma previsão do resultado nacional. É algo diferente e potencialmente mais interessante: um raio-X da diáspora brasileira distribuída pelo mundo — com suas divisões internas, suas continuidades e suas surpresas.
O Japão que ninguém vai conseguir ignorar
O número mais importante da apuração asiática é simples de enunciar e difícil de contextualizar sem o histórico: Flávio Bolsonaro obteve 71,7% dos votos válidos no Japão. Lula, 15,3%.
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Em números absolutos: 24.601 votos contra 5.234. Com 88 mil eleitores brasileiros registrados no Japão — o terceiro maior colégio eleitoral da diáspora, atrás apenas de EUA e Portugal — esse resultado produz uma diferença de quase 20 mil votos que nenhuma vitória de Lula na Coreia do Sul, Singapura ou Malásia consegue compensar em escala.
Mas o número de 71,7% se torna ainda mais revelador quando comparado com 2022: Jair Bolsonaro obteve 72,2% no primeiro turno. A diferença entre pai e filho, quatro anos depois, com todo o peso do 8 de janeiro entre os dois ciclos eleitorais, é de meio ponto percentual.
Flávio Bolsonaro quase preservou integralmente a proporção do voto bolsonarista no Japão. O que mudou ligeiramente foi o volume absoluto — Jair havia somado cerca de 27.600 votos em 2022, Flávio ficou em torno de 25.100. Uma queda de aproximadamente 2.500 votos, provavelmente explicada por abstenção ligeiramente maior, não por migração de votos para outros candidatos.
A herança política que muitos duvidavam que se transferisse de pai para filho se transferiu quase integralmente — ao menos no Japão.
Por que o Japão é diferente de tudo
A chave para entender o resultado japonês não está na política japonesa. Está na história da migração brasileira para o Japão.
A comunidade brasileira no Japão é a maior fora das Américas — em torno de 280 mil pessoas, das quais 88 mil com título eleitoral registrado. Ela se formou principalmente a partir do final dos anos 1980 e ao longo dos anos 1990, no fenômeno conhecido como dekassegui: descendentes de japoneses nascidos no Brasil que migraram para o Japão em busca de trabalho industrial, aproveitando a lei de imigração japonesa que facilitava a entrada de nikkeis.
É uma migração de origem trabalhadora, ligada a linhas de montagem de fábricas automobilísticas e eletrônicas, com forte coesão comunitária e redes de sociabilidade densas construídas ao longo de décadas.
Esse perfil sociológico — migração laboral, décadas de permanência, comunidade coesa com forte identidade preservada — tende a produzir padrões políticos diferentes dos das comunidades brasileiras formadas por migração educacional e profissional recente. E é exatamente esse contraste que o mapa eleitoral desta manhã ilustra.
A Oceania de Lula
A Nova Zelândia foi o primeiro país a fechar as urnas e a divulgar resultados. Lula obteve 70,48% — quase exatamente os 70,3% que havia obtido no primeiro turno de 2022. Flávio ficou com 19,28%, levemente abaixo dos 22% que Jair havia obtido quatro anos antes.
Na Austrália, os números contam uma história ligeiramente diferente — não de estabilidade, mas de crescimento de Lula. Em 2022, o presidente havia obtido aproximadamente 54-55% dos votos australianos. Em 2026, esse percentual subiu para 57,4%, com Flávio ficando em 30,7%.
A comunidade brasileira na Austrália tem um perfil radicalmente diferente da japonesa. É mais jovem, com formação universitária proporcionalmente mais alta — dados do censo australiano de 2021 mostravam que 61,5% dos brasileiros adultos no país tinham diploma de ensino superior.
É uma migração predominantemente ligada a estudos, profissões qualificadas e mobilidade internacional recente. E é uma comunidade que cresceu significativamente nos últimos anos, incorporando emigrantes de perfil diferente dos que chegaram antes.
O resultado eleitoral reflete esse perfil — e a tendência de crescimento de Lula sugere que os novos emigrantes australianos recentes estão chegando com orientações políticas que reforçam o padrão já existente na comunidade.
A China que surpreendeu
O dado mais inesperado da apuração asiática veio da China continental.
Em 2022, o primeiro turno entre os brasileiros na China havia sido quase empatado: Lula com aproximadamente 38,8% e Jair Bolsonaro com 36,3%. Uma disputa equilibrada num eleitorado pequeno — apenas 2.189 eleitores registrados nas três seções eleitorais de Pequim, Xangai e Guangzhou.
Em 2026, os dados apontam Lula com 56,63% e Flávio com 31,33%. Uma variação de quase 18 pontos percentuais em quatro anos.
A cautela é obrigatória: estamos falando de 366 votos no total. Variações desta magnitude em amostras tão pequenas podem refletir mudanças reais na composição da comunidade, maior abstenção de eleitores de um dos campos, ou simplesmente flutuação estatística.
O grande feriado nacional chinês — a Semana Dourada de outubro — historicamente produz abstenção elevada entre brasileiros residentes no país, e a abstenção diferenciada entre eleitores dos dois campos pode distorcer o resultado.
Mas há uma leitura geopolítica possível: os brasileiros que vivem e trabalham na China em 2026 — frequentemente em empresas, universidades e organismos internacionais — estão num contexto em que a relação Brasil-China é particularmente relevante para seu cotidiano.
A posição de Lula de aprofundar o BRICS e manter relação próxima com Pequim pode ressoar de forma diferente para quem vive dentro das fronteiras chinesas do que para o eleitor médio brasileiro.
O que o Taiwan diz
Em contrapartida, em Taiwan — com apenas 219 votos — Flávio ficou em 48,86% contra 35,16% de Lula.
Taiwan é um caso à parte: sua comunidade brasileira é menor e tem composição diferente — mais ligada a negócios de tecnologia, semicondutores e ao complexo industrial de alta tecnologia que Taiwan representa.
Num ano em que Taiwan foi um dos temas mais sensíveis da geopolítica global, com a China ameaçando cancelar a cúpula Trump-Xi por causa de vendas de armas à ilha, o voto brasileiro em Taiwan pendendo para o candidato mais alinhado com Washington tem uma leitura geopolítica interessante — mesmo que os números sejam pequenos demais para conclusões robustas.
O que persiste: a polarização atravessa fronteiras
O dado estrutural mais importante de toda a apuração asiática e oceânica é também o mais simples: a polarização política brasileira de 2022 persistiu em 2026, na diáspora, com variações mínimas.
Onde Lula ganhava, continua ganhando — e em alguns casos, cresceu. Onde Bolsonaro ganhava, Flávio continua ganhando — com quase a mesma proporção de votos que o pai obteve.
Isso tem implicações que vão além da eleição de hoje. Significa que a clivagem política que o Brasil construiu nos últimos oito anos não é dissolvida pela emigração. Brasileiros que foram para a Austrália não absorveram automaticamente as preferências do Labor Party australiano.
Brasileiros que foram para o Japão não votam como o PLD japonês. Brasileiros que vivem na China não votam como o Partido Comunista Chinês — obviamente.
Eles votam como brasileiros — com as identidades políticas, as redes de sociabilidade, as fontes de informação e as experiências que trouxeram do Brasil. A polarização viajou na bagagem.
O que muda entre as comunidades não é a intensidade da polarização, mas qual polo domina — e isso está muito mais correlacionado com quem emigrou, quando emigrou e por que emigrou do que com onde essa pessoa vive hoje.
É uma observação sobre globalização que vai além da eleição: identidades políticas nacionais são mais resistentes à transformação pelo contexto internacional do que tendemos a supor. O mundo pode estar mais conectado do que nunca — e os brasileiros espalhados por ele continuam, em grande medida, votando como se estivessem em casa.