Mestre, que eu veja: mutirões de catarata e a gestão que devolve autonomia
Fonte: correiodopovo.com.br | Data: 05/10/2026 07:10:07
“Mestre, que eu veja!” (Marcos 10,51)
Bartimeu não apresenta um projeto. Pede. Jesus para, chama e escuta antes de devolver a vista. A cena é curta. O que ela ensina à gestão é longo: ninguém recupera o que perdeu se, do outro lado, não houver alguém disposto a ouvir o clamor e organizar a resposta.
É assim que entendo a liderança cristã na saúde pública. Servir é reconhecer a dignidade de cada pessoa e transformar responsabilidade em cuidado concreto. A fé inspira o compromisso. A ciência orienta a decisão. A gestão abre o caminho para que o cuidado chegue a quem espera.
Os mutirões de catarata cabem nesse lugar. Não são atalho administrativo. São, quando bem feitos, a chance de devolver autonomia: o rosto de um neto, a mensagem no celular, o café feito sem ajuda, a rua atravessada com menos medo.
Quando a espera tem rosto
A catarata é a opacificação do cristalino, a lente natural do olho. Costuma acompanhar o envelhecimento e, com indicação individual, tem tratamento cirúrgico. A cirurgia é breve, segura na maior parte dos casos e uma das intervenções de melhor custo-efetividade da medicina.
Ainda assim, a Organização Mundial da Saúde mostrou em 2026, a partir de estudo publicado no Lancet Global Health, que quase a metade das pessoas com cegueira por catarata no mundo continua sem acesso à cirurgia. São mais de 94 milhões de pessoas com a doença. As mulheres chegam menos ao procedimento do que os homens. O dado é global. A pergunta é local: no nosso território, a fila está sendo tratada com a mesma seriedade com que reconhecemos a necessidade?
No relatório, a fila é um número. Na casa, é mês de dependência. Trabalho interrompido, tarefa adiada, conversa que se perde porque o rosto do outro ficou borrado. No SUS, a catarata figura entre os procedimentos eletivos de maior demanda reprimida. No início de 2025, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia contabilizava cerca de 176 mil pessoas na fila. Esperar demais não é neutro. É vida adiada.
Dois mutirões, mil nomes
Neste ano, no Hospital Universitário, fizemos dois mutirões, em maio e em setembro. Juntos, somam 2.000 cirurgias e 1.000 nomes. São duas mil chances de recuperar a visão e um tanto de independência. Famílias que voltam a contar com quem havia passado a depender delas para o básico.
Nenhum desses procedimentos aconteceu por improviso. Houve triagem, avaliação individual, equipe, estrutura, material rastreável e compromisso com a segurança. O número só vale porque houve percurso.
Mutirão que cuida, e não só opera
Mutirão que só opera, e não cuida, reproduz o problema com pressa. A atenção primária precisa achar quem já não enxerga bem e atualizar o encaminhamento. A regulação precisa priorizar com critério clínico e com o impacto na vida, de forma transparente. Transporte, acompanhante e orientação em linguagem simples não são detalhe: são o que decide se a pessoa chega. A indicação oftalmológica é individual. Considera a limitação visual, o benefício esperado, outras doenças do olho e a expectativa, dita com clareza.
A OMS insiste no óbvio que a pressa esquece: pré-operatório, intraoperatório e pós-operatório fazem parte do mesmo cuidado. Equipe qualificada, prevenção de infecção, retorno marcado, telefone de quem responde se algo sair do previsto. O paciente precisa saber quando voltar e a quem procurar. O Conselho Brasileiro de Oftalmologia tem sido claro nesse ponto: volume sem estrutura, sem especialista e sem acompanhamento de até 30 dias não é mutirão. É risco.
O que o resultado precisa medir
Por isso o resultado não cabe só na conta de cirurgias. Tempo de espera, ganho visual, complicação, comparecimento ao retorno e o que a pessoa voltou a fazer. A pergunta que aproxima o indicador da finalidade é simples: quantas retomaram o que a vista havia interrompido?
Servir é assumir o outro
Bartimeu continua atual porque, atrás de cada demanda, há alguém que quer ser visto. Como médico, gestor e líder cristão, servir é assumir o outro. Competência técnica, sem sensibilidade, vira produção. Sensibilidade, sem gestão, vira intenção. As duas, juntas, viram atendimento.
Gestores do SUS: tratem a fila de catarata como prioridade de cuidado. Organizem o acesso, garantam a segurança e acompanhem a pessoa até o resultado. Por trás de cada nome há alguém que deseja enxergar melhor. Quando ouvimos “Mestre, que eu veja!”, a resposta pública não é um discurso. É a cirurgia feita com qualidade, e o cuidado que não termina na alta.