Baixar Notícia
WhatsApp
Email

‘A pesquisa clínica não pode ficar concentrada em poucas cidades’, diz oncologista Fernando Maluf fala dos desafios na área da pesquisa clínica e inovação que o próximo presidente da República terá de enfrentar

Fonte: oglobo.globo.com | Data: 06/10/2026 04:50:17

🔗 Ler matéria original

Fernando Maluf fala dos desafios na área da pesquisa clínica e inovação que o próximo presidente da República terá de enfrentar 

Fernando Maluf
Fernando Maluf — Foto: Edilson Dantas / O Globo

Quais são os maiores desafios que o próximo presidente da República vai ter que enfrentar na área da saúde? O GLOBO convidou cinco médicos de especialidades diferentes para responder à pergunta. Hoje, o oncologista Fernando Maluf fala sobre a pesquisa clínica e inovação.

Maluf encerra hoje a série, batizada de “A saúde nas eleições”, que estreou em 1 de setembro com a intensivista e cardiologista Ludhmila Hajjar, apontando os buracos na alta complexidade da medicina. O cirurgião Ben-Hur Ferraz Neto falou sobre a saúde suplementar. A ginecologista Marianne Pinotti, neurodivergentes e o sanitarista Gonzalo Vecina, saúde básica.

Veja o que diz Fernando Maluf abaixo:

“Como médico e pesquisador, vejo na inovação uma das principais forças capazes de transformar o cuidado em saúde no nosso país.

Nos últimos meses, algumas discussões fizeram crescer a atenção sobre a pesquisa clínica. Nem sempre no nível que o tema merece, mas o suficiente para lançar luz sobre questões fundamentais, como o desenho dos estudos, os limites éticos, o encaminhamento de pacientes e a necessidade de protocolos também para doenças raras. Acima de tudo, esse debate nos lembra que pesquisa precisa estar a serviço de quem mais importa: o paciente.

É justamente neste ponto que está um dos grandes desafios do Brasil. Temos um sistema público de saúde baseado nos princípios da universalidade, integralidade e equidade, mas ainda convivemos com limitações históricas de financiamento, gestão e incorporação de novas tecnologias. Na oncologia, por exemplo, esse contraste é especialmente evidente. Enquanto a ciência avança rapidamente e amplia as possibilidades de controlar doenças e aumentar as chances de cura, muitos brasileiros ainda encontram barreiras ter o diagnóstico em tempo oportuno.

É aqui que a pesquisa clínica deixa de ser “apenas” ciência e passa a ser também uma estratégia de saúde pública.

O Brasil tem uma população enorme, diversa e com necessidades muito diferentes. Cerca de três quartos dos brasileiros dependem do SUS. Em um cenário de recursos finitos, não podemos discutir acesso à inovação apenas como uma questão de incorporação de medicamentos. Precisamos pensar em como o país pode participar mais ativamente da produção dessa inovação e, ao mesmo tempo, permitir que ela chegue aos pacientes.

Os números mostram que temos avançado, mas ainda estamos muito aquém do nosso potencial. De acordo com dados da Interfarma e IQVIA, o Brasil alcançou, em 2026, a 12ª posição entre os países em número de estudos clínicos iniciados, uma melhora em relação à 21ª posição ocupada em 2020.

A nova Lei de Pesquisa Clínica abre uma oportunidade importante para acelerar esse movimento e criar condições para que o país se aproxime do grupo dos dez maiores participantes mundiais. Mas não basta avançar algumas posições em um ranking. Precisamos olhar para aquilo que esses números representam para as pessoas.

Entre 2020 e 2025, mais de 600 mil oportunidades de recrutamento em estudos clínicos foram perdidas no país, segundo levantamento divulgado no ano passado. São pacientes que poderiam ter participado de pesquisas e, em muitos casos, tido acesso a tratamentos inovadores antes mesmo de sua ampla disponibilidade. Por isso, falar de estudo clínico também é discutir acesso.

E, para avançar, temos de enfrentar alguns obstáculos. O primeiro é a formação de pessoas. Precisamos de mais profissionais capacitados para trabalhar com pesquisa clínica, desde investigadores e equipes assistenciais até especialistas em gestão, regulação e análise ética. Isso exige investimento, planejamento e incentivos.

O segundo é a redução da burocracia desnecessária. Ética e segurança devem ser princípios inegociáveis em qualquer pesquisa envolvendo seres humanos. Mas rigor ético não pode ser confundido com processos excessivamente lentos e complexos. Precisamos de mecanismos que permitam analisar, aprovar e iniciar estudos com mais agilidade, sem abrir mão da proteção dos participantes.

Também necessitamos ampliar a pesquisa para além dos grandes centros. Um país continental e desigual não pode concentrar as oportunidades em poucas cidades. Isso aproximaria a pesquisa de quem mais precisa dela e, ao mesmo tempo, ajudaria a formar profissionais, fortalecer instituições e desenvolver conhecimento dentro do próprio sistema público.

A pesquisa produz efeitos que vão muito além do paciente que participa de um estudo. Ela capacita profissionais de saúde, fortalece hospitais e universidades, estimula a indústria nacional, atrai investimentos e coloca o país em contato com redes internacionais de produção de conhecimento. É uma agenda científica, mas também econômica e estratégica.

Por isso, não deveríamos tratar o tema como um plano deste ou daquele governo. Ela precisa ser uma política de Estado.

Independentemente de quem estiver à frente do país nos próximos anos, é necessário um planejamento de longo prazo para ciência, inovação e saúde. Não podemos esperar que cada governo reinvente prioridades ou que a pesquisa avance apenas quando houver uma iniciativa isolada. O Brasil precisa definir onde quer chegar e criar as condições para permanecer nessa direção.

O momento exige escolhas. Em um cenário de restrição orçamentária e aumento das necessidades de saúde, podemos continuar apenas tentando administrar a escassez ou investir em mecanismos que também gerem conhecimento, capacitação, desenvolvimento e acesso.

A pesquisa clínica não resolve sozinha os desafios do sistema de saúde brasileiro. Mas é uma das ferramentas que temos para transformar conhecimento em cuidado e aproximar nossos pacientes do que há de mais moderno na medicina.

Novas tecnologias, medicamentos, ferramentas digitais e inteligência artificial devem estar a serviço dos profissionais de saúde, ampliando sua capacidade de cuidar e permitindo que a atenção ao paciente seja cada vez mais individualizada e humanizada.”

Mais recente


Próxima
Estudo na América Latina aponta relação entre características da fala e envelhecimento do cérebro

Bem de Saúde

Bem de Saúde

Novidades para você ficar bem de corpo e alma. Às quintas.