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Flávio x Lula: como a bolsa deve reagir até o 2º turno? E no pós-eleição?

Fonte: valorinveste.globo.com | Data: 06/10/2026 06:18:03

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O Ibovespa cravou sua maior alta em seis anos ao fechar na marca inédita dos 206 mil pontos, enquanto o dólar teve sua maior queda desde 2018 após o primeiro turno das eleições. Além da vitória de Flávio Bolsonaro sobre Lula, a reação que fez disparar a bolsa respondeu à nova configuração política no Congresso, com bancadas conservadoras fortalecidas tanto no Senado quanto na Câmara. Por trás do entusiasmo inicial, porém, especialistas analisam como os mercados devem reagir até a votação do segundo turno, e o que esperar das ações, do câmbio, dos juros diante de uma vitória de Flávio ou de uma virada de Lula.

A disparada das ações logo após o primeiro turno já vinha sendo antecipada por movimentações táticas no mercado de derivativos. Nas últimas duas semanas pré-eleição, houve uma procura crescente por ativos de risco e, principalmente, por opções de compra de ações (as chamadas calls), em operações que buscavam capturar um eventual ganho no primeiro turno.

Mas, ainda assim, os resultados surpreenderam o mercado. Gustavo Bertotti, chefe de renda variável da Fami Capital, explica que o grande diferencial esteve na arquitetura das bancadas federais.

“O resultado em si surpreendeu muito não só pela disputa presidencial, mas pela composição do Senado e da Câmara. É esse desenho que traz um otimismo muito forte, ao renovar as expectativas de aprovação de reformas e de projetos de maior responsabilidade fiscal”, avalia.

Esse novo arranjo político espalhou o otimismo pela bolsa de ponta a ponta, aliviando até companhias em situação mais delicada, que amargavam o peso dos juros altos e do consumo morno.

Na renda fixa, o movimento apareceu em um alívio generalizado na curva de juros futuros, com as taxas dos DIs caindo até um ponto percentual nos contratos mais longos. Na prática, mais do que comemorar o resultado das urnas, os investidores passaram a embutir nos juros uma virada positiva de rumo para a economia.

Por trás da continuidade desse movimento inicial existe ainda uma engrenagem técnica. Fundos globais e grandes investidores institucionais dificilmente conseguem desmontar posições antigas e montar novas estratégias em um único dia, o que costuma manter algum fôlego comprador nas sessões seguintes.

Na avaliação de Fernando Siqueira, chefe de pesquisa da Eleven Financial, esse reajuste gradual explica por que a bolsa ainda pode ter fôlego adicional no curto prazo. “Não seria de surpreender se nos próximos dias ainda houvesse espaço para novas altas“, pondera.

Apesar do impulso inicial, Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset Brasil, lembra que há diferença entre precificar o primeiro turno e o resultado final da eleição. “Parte importante do resultado do primeiro turno já deve ser incorporada aos preços nesta semana, mas o desfecho da eleição, não“, adverte.

A partir de agora, o otimismo cede espaço aos fatos concretos: pesquisas de intenção de voto, alianças políticas, debates e, sobretudo, sinalizações sobre nomes para cargos-chave na economia, como os ministérios da Fazenda e do Planejamento.

Disciplina tática: como se posicionar?

Diante do risco de solavancos, a orientação dos especialistas é evitar compras no embalo das primeiras sessões. “As pessoas não deveriam montar posições no calor da euforia que vimos na segunda [ontem]”, alerta Siqueira.

Para ele, após um período em que fazia sentido tomar risco à espera de uma definição, o momento agora pede paciência. “Faz mais sentido ajustar bem menos o portfólio e esperar o cenário clarear para entender quais ativos realmente se encaixam na estratégia de longo prazo do investidor“, defende o especialista.

Em um eventual governo de Flávio Bolsonaro, a expectativa de rigor fiscal e contenção de despesas tende a manter a curva de juros em queda, injetando fôlego em papéis atrelados ao consumo interno e à demanda por crédito.

Marília Fontes, sócia-fundadora da Nord Investimentos, destaca que boa parte dos ativos domésticos ainda carrega um desconto expressivo. “Quando você olha para o varejo ou para as empresas de menor capitalização [small caps], vê empresas muito baratas, com espaço até para dobrar de valor se o ambiente melhorar“, analisa.

Para a especialista, considerando o patamar elevado da taxa básica de juros, a Selic, em 13,75% ao ano, uma sinalização mais consistente de equilíbrio nas contas públicas “teria força para puxar os juros futuros tranquilamente para a casa de 10% a 11%“.

Além do varejo, da construção civil e das small caps, companhias com alto endividamento ganham fôlego caso o custo do crédito diminua. Siqueira acrescenta que empresas em situação operacional mais difícil podem registrar fortes altas, pois têm mais espaço para melhora marginal do que companhias que já vinham com bons resultados.

Do ponto de vista técnico, ativos com forte volume de posições vendidas (apostas na queda das ações) podem passar por um movimento de recompra acelerada (short squeeze) para encerramento dessas operações, pressionando ainda mais as cotações para cima.

Em contrapartida, as empresas exportadoras encontram um ambiente menos favorável. A valorização do real frente ao dólar reduz as receitas convertidas para a moeda local, o que explica o desempenho mais tímido de papéis como Suzano, Embraer e WEG.

Entre as estatais, Siqueira enxerga o Banco do Brasil beneficiado pela melhora do ambiente doméstico, enquanto a Petrobras tende a ter menor impulso por sua dinâmica atrelada às commodities e ao mercado externo.

No cenário oposto, uma eventual virada e vitória do presidente Lula tende a devolver parte dos ganhos recentes, fazendo os juros subirem e pressionando o câmbio para cima.

Bertotti lembra que o ambiente recente vinha sendo marcado por recordes em processos de recuperação judicial, famílias endividadas e companhias revisando planos de investimento diante de despesas financeiras elevadas.

“Em uma eventual vitória de Lula, o mercado corrige, com dólar para cima e alta da curva de juros, até que seja apresentado um plano econômico crível“, avalia o especialista da Fami Capital.

Nessa conjuntura, papéis sensíveis ao cenário doméstico sofrem mais, enquanto que proteções tradicionais ganham espaço.

Costa destaca a atratividade de ativos dolarizados e de companhias exportadoras para amortecer o choque. “Uma eventual deterioração do ambiente doméstico tende a favorecer o dólar e reduzir o impacto negativo sobre as receitas externas dessas companhias“, pontua a economista da Mirae.

Fontes, da Nord, aponta ainda o Tesouro Selic e CDBs pós-fixados como alternativas para atenuar oscilações, além de ações de setores defensivos como energia elétrica, saneamento e infraestrutura.

Risco institucional e o capital estrangeiro

Além dos resultados nas urnas, o mercado monitora também o ambiente de segurança jurídica e a governabilidade entre o Poder Executivo, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF).

Bertotti ressalta que o investidor internacional vinha observando com ressalva o cenário político e institucional do país nos últimos meses. “A eleição foi marcada pela percepção de elevada insegurança jurídica e forte atrito institucional, o que levou a uma saída relevante de capital externo ao longo do ano. Contudo, o novo desenho do Congresso é visto como um freio de arrumação capaz de trazer mais previsibilidade”, analisa.

A mudança na percepção dos estrangeiros já dava sinais antes mesmo da abertura do mercado no dia seguinte ao primeiro turno, com a disparada do EWZ, o principal fundo de índice (ETF) de ações brasileiras negociado no exterior, em Nova York.

Ao contrário dos investidores institucionais locais, que mantinham posições conservadoras, o capital externo voltou a dar sustentação ao rali da bolsa, embora continue sensível a sobressaltos no ambiente institucional.

Sobre os atritos entre os Poderes, Costa reitera que fricções constantes tendem a elevar os prêmios de risco. “Mesmo que as propostas econômicas sejam consideradas previsíveis, elas dependem do ambiente político para avançar. Um conflito com o STF ou com o Congresso traria volatilidade para o câmbio e para a curva longa de juros“, pondera a especialista.

Por outro lado, Fontes considera que o ruído institucional puramente político afeta menos os preços do que o rumo das contas públicas. “Um conflito dessa natureza tem um impacto político enorme, mas não tem tantos impactos econômicos diretos. O juro e a inflação não vão subir ou cair por conta disso”, analisa a sócia da Nord.

Para ela, a política fiscal permanece no centro do debate. “Se o vencedor adotar uma postura expansionista, o mercado devolve tudo. Se adotar uma política fiscal restritiva, o mercado tende a melhorar bastante“.

Em geral, o rali do primeiro turno abre espaço para a valorização, mas a consolidação dessa alta dependerá da transformação de discursos em propostas concretas. A apresentação de metas fiscais críveis, a escolha dos membros da equipe econômica e as respostas às questões fiscais devem determinar o rumo da bolsa daqui para frente.

 — Foto: Getty Images
— Foto: Getty Images