Baixar Notícia
WhatsApp
Email

Carbono oculto do Cerrado expõe falhas na política de conservação do Brasil

Fonte: brasil.mongabay.com | Data: 07/10/2026 15:16:50

🔗 Ler matéria original

  • Áreas úmidas do Cerrado — como as veredas — armazenam seis vezes mais carbono do que as terras baixas da Amazônia, diz o primeiro estudo a estimar os estoques do bioma.

  • Os pesquisadores também constataram que essas áreas úmidas são menos estáveis do que outras turfeiras tropicais e, por isso, podem ser mais vulneráveis a alterações no regime de chuvas e no nível das águas subterrâneas.

  • O mapeamento por satélite também indica que essas áreas úmidas podem cobrir até 16,7 milhões de hectares, ou 2% de todo o território brasileiro; uma extensão muito maior do que se imaginava. 

  • Os pesquisadores esperam que estimativas mais precisas sobre o carbono armazenado no Cerrado ajudem a mudar a percepção de que o bioma é uma “área de sacrifício” destinada ao agronegócio.

A pesquisa nos campos úmidos do Cerrado costuma exigir longas caminhadas em meio a juncos que chegam à altura da cabeça, seguindo trilhas de anta e desviando de ovos de carrapato ou de perigos em trechos encharcados. E quando o equipamento não é à prova d’água, tudo fica ainda mais complicado. Por isso, em fevereiro de 2024, quando uma tempestade caiu sobre o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, no nordeste de Goiás, a pesquisadora Larissa Verona e sua equipe correram para a caminhonete.

“A chuva passou em cerca de 10 minutos, mas quando voltamos, vimos que tinha começado um incêndio bem no meio da estrada”, provavelmente provocado por um raio, contou ela à Mongabay em uma chamada de vídeo. “Meu Deus, a gente precisa ir embora”, ela se lembra de ter pensado. “É melhor não estarmos aqui quando o chefe dos bombeiros chegar.”

Os incêndios vêm se tornando cada vez mais comuns no Cerrado, o segundo maior bioma do Brasil, atrás apenas da Amazônia. São 2 milhões de quilômetros quadrados que abrigam um mosaico de savanas, campos e corredores florestais. Nos últimos cinquenta anos, cerca de 55% da vegetação nativa do Cerrado foi removida, em grande parte para sustentar a expansão de monocultivos industriais, muitas vezes sob a justificativa de que o bioma teria menos valor ambiental do que a floresta amazônica ou a Mata Atlântica.

O resultado tem sido a degradação dos solos e a redução das águas subterrâneas. Mas a drenagem e o desmatamento dos campos úmidos turfosos do Cerrado, conhecidos como veredas, também podem ameaçar um estoque fundamental de carbono, aponta um estudo recente.

Vista aérea de uma vereda no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Foto: Paulo Bernardino.

Com base em uma combinação de amostragem profunda de solos e mapeamento por satélite, os cientistas estimam que as áreas úmidas do Cerrado podem armazenar até 20 bilhões de toneladas de dióxido de carbono. Isso equivale a seis vezes a quantidade armazenada por uma área equivalente de terras baixas na floresta amazônica, afirma o estudo.

Essas áreas úmidas ricas em carbono também ocupam uma parte da região muito maior do que se imaginava.

“Nós já sabíamos que elas provavelmente armazenam muito carbono, porque as pessoas que vivem e trabalham na região falam disso”, disse Verona, que começou a coletar amostras de solo para sua pesquisa de mestrado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) há quatro anos e hoje é técnica no Cary Institute of Ecosystem Studies, organização sem fins lucrativos, nos Estados Unidos, dedicada à pesquisa sobre meio ambiente. “Mas nós percebemos que não tínhamos informações estruturadas sobre a quantidade de carbono que existe ali.”

A pesquisa, que fez parte da dissertação de mestrado de Verona, se soma a um conjunto crescente de estudos que reavaliam a importância ambiental do Cerrado como hotspot de biodiversidade, reservatório de água para regiões vizinhas e, agora, estoque de carbono. Ainda assim, os solos orgânicos da região continuam vulneráveis a estações secas mais longas e quentes, que já estão causando um aumento das emissões das áreas úmidas do Cerrado, segundo os pesquisadores.

“Como podemos estar tão avançados no século 21 e ainda não conhecer esse sistema e todo o carbono que ele armazena?”, perguntou à Mongabay, em uma chamada de vídeo, Rafael Oliveira, coautor do estudo e pesquisador da Unicamp. “Eu acho que o Cerrado pode ser outro ícone climático, como a Amazônia, e este artigo é um dos primeiros a destacar isso com dados.”

Cavando mais fundo

Verona e uma equipe de campo coletaram turfa em seis pontos dentro e próximos à Chapada dos Veadeiros, chegando a 4 metros de profundidade, o que é mais do que a própria equipe esperava conseguir e um indício inicial de que os campos guardavam mais solos orgânicos ricos em carbono do que se sabia até então. Análises anteriores dos estoques de carbono nos campos do Cerrado haviam coletado solo a profundidades de até 1,6 metro, e a maior parte das pesquisas examinava apenas os primeiros 20 a 100 centímetros. Por isso, o estudo de Verona afirma que os estoques de carbono do Cerrado podem ter sido subestimados em 55% a 90%. A pesquisa indica que as áreas úmidas dali se equiparam, em riqueza de carbono, às turfeiras da Indonésia e da Bacia do Congo.

Como não havia registros detalhados da presença de turfa em todo o Cerrado, os pesquisadores usaram imagens de satélite da vegetação de campos úmidos para prever a extensão desses solos ricos em carbono. Embora o modelo tenha sido validado em quase 150 pontos de turfa registrados, os autores do estudo afirmam que ainda são necessários mais testes de campo.

Susan Page, professora de geografia física da Universidade de Leicester, no Reino Unido, e especialista em turfeiras tropicais, disse que o estudo traz “várias percepções novas” sobre como se acumulam solos turfosos ricos em carbono e acrescentou que espera ver o trabalho estimular novas pesquisas sobre outras áreas úmidas tropicais.

A pesquisadora Larissa Verona mediu emissões de gases de efeito estufa com um analisador de gases-traço. Foto: Juliana Di Beo.

“Como eram desconhecidos e não estavam mapeados, esses estoques de carbono [do Cerrado] tinham ficado, até agora, fora das estimativas nacionais, regionais e globais de estoques de carbono em turfa e solos orgânicos e dos modelos climáticos globais”, disse Page, que não participou do estudo. “Espera-se que esse trabalho pioneiro seja reconhecido em futuras avaliações de estoques de carbono, além de proporcionar a base para uma maior proteção desses ambientes fascinantes.”

A pesquisa de Verona também sugere que os estoques de carbono em áreas úmidas do Cerrado já estão vulneráveis ao aumento de temperatura provocado pela mudança climática. Ao medir emissões de gases-traço nessas áreas durante um ano, Verona e uma equipe foram a campo e constataram que esses ambientes liberam 70% de suas emissões anuais durante a estação seca, com pico em setembro.

À medida que o Cerrado vai ficando mais quente e mais seco, os pesquisadores esperam que as turfeiras do bioma se tornem cada vez mais vulneráveis a secar, morrer e liberar emissões. Juntos, a drenagem, as estiagens mais prolongadas e os incêndios mais frequentes “ameaçam liberar um reservatório antigo e anteriormente estável de carbono”, alertaram. Seria necessária uma série mais longa de amostragens de gases para estimar a extensão dessas emissões, acrescentaram.

Um ecossistema explorado

Desde a década de 1970, sucessivos governos brasileiros miraram o Cerrado como área de expansão agrícola, sobretudo para o plantio de soja, com incentivos como subsídios a fertilizantes e irrigação por pivô central. Hoje, três quartos do bioma são de propriedade privada, em comparação com cerca de um terço das terras na Amazônia.

Em Fecho de Pasto de Clemente, comunidade tradicional cujo modo de vida é caracterizado pelo uso de terras comunais, no oeste da Bahia, a associação local de pequenos agricultores estima que mais de 90% das terras comunitárias tenham sido tomadas pelo monocultivo desde os anos 1970, principalmente em áreas onde a posse da terra por comunidades tradicionais não foi reconhecida pelo Estado. Nas terras que restaram, a comunidade também percebeu o impacto da agricultura industrial em áreas próximas: solos menos produtivos e uma fauna silvestre cada vez mais escassa.

Equipe de pesquisadores analisa amostras de solo coletadas a até 4 metros de profundidade em área de campos úmidos do Cerrado. Foto cedida por Larissa Verona.

“A região onde eu moro costumava produzir arroz, feijão, mandioca, cana-de-açúcar, frutas e coco”, disse Elizete Carvalho Fagundes Barreto, agricultora, assistente social e diretora financeira da Associação Comunitária dos Pequenos Criadores do Fecho de Pasto de Clemente. “O agronegócio cortou a vegetação nativa, comprimiu o solo e drenou as nascentes. Já não tem peixe nos rios e os animais silvestres ficaram cada vez mais raros.”

Barreto descreveu os resultados do estudo como “muito necessários” e, potencialmente, uma “ferramenta importante para a proteção” na região, inclusive por meio de mecanismos financeiros como os créditos de carbono. Mas ela ressaltou que, sem a posse da terra, as comunidades locais continuam correndo o risco de serem expulsas do Cerrado no futuro. “Existem leis para regularização fundiária, mas, na prática, fazer isso acontecer ainda é um sonho e uma luta”, afirmou.

“É muito frustrante e preocupante, porque essas ofensivas afetam diretamente a soberania e a sustentabilidade dos nossos territórios, assim como a qualidade de vida de toda a sociobiodiversidade e o equilíbrio do bioma Cerrado”, disse Barreto.

Inicialmente, a expansão agrícola foi impulsionada, em parte, por um “desconhecimento” sobre a história e o valor ecológicos do bioma, segundo Sandro Dutra e Silva, professor de história ambiental da Universidade Estadual de Goiás (UEG), que se mudou para o Cerrado nos anos 1980, quando a agricultura industrial começava a se firmar na região.

Quando começaram a estudar o Cerrado, os pesquisadores partiram da premissa de que esse mosaico de habitats havia sido criado pelos primeiros colonizadores ao desmatar ambientes mais antigos, disse Dutra e Silva, que não participou do estudo de Verona. “Na verdade”, afirmou, os campos do Cerrado “existiam muito antes da Amazônia, e provavelmente influenciaram a sua criação.”

As veredas precisam de proteção

Essa percepção do Cerrado em comparação com os ecossistemas florestais vizinhos se reflete nas atuais proteções legais. O Código Florestal brasileiro determina que as propriedades privadas na Amazônia preservem a vegetação nativa em pelo menos 80% de sua área, enquanto no Cerrado a regra protege apenas 20% dessas terras. Verona disse esperar que o novo estudo incentive legisladores a elevar essa proporção, conhecida como reserva legal.

O estudo também constatou que as veredas armazenam, em média, quatro vezes mais carbono do que a vegetação seca do Cerrado. Com um mapeamento mais preciso, sugeriu ela, o Código Florestal poderia ser alterado para exigir que os proprietários protejam especificamente os habitats mais ricos em carbono dentro de cada imóvel.

No Cerrado, os pesquisadores encontraram solos orgânicos turfosos com carbono de mais de 20 mil anos. Foto: Rafael Oliveira.

Há outras proteções legais, mas, na prática, elas são ignoradas. Qualquer ponto em que a água subterrânea aflore na superfície é automaticamente protegido contra a ocupação pela Lei de Proteção da Vegetação Nativa, embora, no Cerrado, isso costume ser ignorado pelo Ibama, segundo Oliveira. “Sabemos que a lei é essa, mas não estamos aplicando”, disse. “Estamos fazendo vista grossa.”

O Ibama não respondeu ao pedido de comentário da Mongabay.

No fim do ano passado, enquanto Verona e Oliveira aguardavam a revisão por pares do estudo, o estado do Mato Grosso aprovou uma legislação que abre duas grandes regiões à drenagem agrícola: as áreas úmidas dos rios Araguaia e Guaporé. “Foi exatamente essa região que apareceu no nosso artigo como importante para o carbono. Eles alegaram que as áreas úmidas não são realmente importantes. As nossas descobertas contradizem os argumentos deles”, disse Oliveira. Verona acrescentou: “É frustrante porque [essa drenagem] está acontecendo agora; é algo que está em andamento.”

Outros especialistas em Cerrado sugerem que não é apenas a falta de conhecimento sobre as funções ecossistêmicas do bioma que continua orientando decisões políticas sobre a região. Gustavo Oliveira, pesquisador de ecologia política da Universidade Clark, nos Estados Unidos, afirmou que as conclusões do artigo são “absolutamente importantes”, mas não bastam para alterar o consenso político sobre o Cerrado como bioma de sacrifício.

“Para algumas pessoas, os estoques de carbono podem tocar no ponto sensível e fazer com que prestem atenção, mas também precisamos falar sobre mudanças mais amplas”, comentou Oliveira, que não participou do estudo, à Mongabay. Melhorias pontuais na política local de conservação também podem acabar “transformando pequenos proprietários em bodes expiatórios”, afirmou.

“Essas mudanças são importantes, mas também não são suficientes. Precisamos olhar para quem mais concentra o consumo de água”, acrescentou Oliveira, defendendo que se enfrente o sistema de subsídios e incentivos fiscais que estimula a expansão da agricultura em todo o Cerrado.

Imagem do banner: Área de vereda no Cerrado brasileiro. Foto: Guilherme Alencar.

Citações:

Bassani, A., Pilon, N. A., Peixoto, F. P., Mattos, C. R., Silveira, F. A., Cunha, L. S., & Oliveira, R. S. (2025). Legally protected, practically overlooked: The neglect of diffuse seeps in the conservation of Cerrado non-floodplain wetlands. Perspectives in Ecology and Conservation, 23(3), 151-156. doi:10.1016/j.pecon.2025.06.001

Horák-Terra, I., Terra, F. D., Lopes, A. K., Dobbss, L. B., Fontana, A., Silva, A. C., & Vidal-Torrado, P. (2022). Soil characterization and drainage effects in a savanna palm swamp (vereda) of an agricultural area from Central Brazil. Revista Brasileira de Ciência do Solo, 46. doi:10.36783/18069657rbcs20210065

Hofmann, G. S., Weber, E. J., Bastazini, V. A., Rossatto, D. R., Franco, A. C., Granada, C. E., … Pereira, M. J. (2025). Climate change in the Brazilian Cerrado: A looming threat to terrestrial biodiversity. WIREs Climate Change, 16(5). doi:10.1002/wcc.70022

Machado, R. B., & Aguiar, L. M. (2023). Could you spare an acre for conservation? Science, 380(6642), 238-239. doi:10.1126/science.adh1840

Pereira, C. C., Kenedy-Siqueira, W., Maia, L. R., Sperandei, V. D., Arantes-Garcia, L., Fernandes, S., … Fearnside, P. M. (2026). The Cerrado crisis review: Highlighting threats and providing future pathways to save Brazil’s biodiversity hotspot. Nature Conservation, 61, 29-70. doi:10.3897/natureconservation.61.168273

Verona, L. S., Zanne, A. E., Trumbore, S., Bernardino, P. N., Alencar, G. M., Andreuccetti, T., … Oliveira, R. S. (2026). Vast, overlooked peat, and organic soils in Brazil’s Cerrado: Carbon storage, dynamics, and stability. New Phytologist. doi:10.1111/nph.71027

Créditos

Tópicos