O novo profissional de riscos: da gestão de apólices à estratégia de negócios
Fonte: revistacobertura.com.br | Data: 08/10/2026 13:47:34
Por Caio Carvalho, VP de Riscos Corporativos e Resseguro da MDS Brasil

A gestão de riscos vem assumindo um papel cada vez mais estratégico nas organizações. Em um ambiente de negócios marcado por transformações constantes e maior complexidade operacional, proteger o patrimônio deixou de ser uma questão restrita à contratação de seguros. Hoje, é indispensável compreender como diferentes ameaças podem comprometer a continuidade das operações, afetar a saúde financeira e impactar a capacidade de recuperação de uma empresa.
O cenário brasileiro ajuda a dimensionar esse desafio. Estudo da Superintendência de Seguros Privados (Susep) sobre as chuvas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 estimou uma lacuna de proteção securitária de até 93%. O dado evidencia a dimensão dos prejuízos que podem permanecer sem cobertura e reforça a necessidade de uma visão mais ampla sobre proteção, prevenção e continuidade dos negócios.
Esse contexto exige profissionais capazes de atuar muito além da gestão de apólices. O Risk Manager precisa conhecer profundamente o negócio, compreender suas vulnerabilidades e participar das decisões sobre quais riscos a organização pode assumir, quais deles precisam ser mitigados e quais devem ser transferidos ao mercado segurador. Essas escolhas devem considerar a capacidade financeira da empresa, seu apetite ao risco e os possíveis impactos de um sinistro sobre a operação.
Em setores de alta complexidade, essa evolução se torna ainda mais evidente. No ecossistema de saúde, que abrange hospitais, laboratórios, operadoras e a indústria farmacêutica, um sinistro em um complexo hospitalar, um ataque cibernético a prontuários eletrônicos ou a perda de insumos biológicos por falha na cadeia de frio podem provocar consequências que ultrapassam os danos materiais imediatos.
A interrupção de um serviço de saúde compromete receitas, afeta contratos, gera riscos reputacionais e pode exigir investimentos adicionais para a retomada segura das atividades. Nesse ambiente, a gestão de riscos deve considerar não apenas a proteção patrimonial, mas também a preservação das receitas, o cumprimento das exigências regulatórias e a capacidade de recuperação operacional.
O profissional de riscos passa, portanto, a atuar como um elo entre as áreas técnicas, operacionais e financeiras e a alta liderança. Seu papel não se limita a identificar exposições ou contratar coberturas, mas inclui traduzir riscos em impactos para o negócio e fornecer informações que contribuam para decisões estratégicas.
Essa ampliação de responsabilidades exige capacitação contínua e habilidades que vão além do conhecimento técnico, como visão estratégica, capacidade analítica e comunicação assertiva. Também demanda maior troca entre profissionais que lidam diariamente com riscos complexos. É nesse espaço que iniciativas como o MDS Risk Experience ganham relevância, ao aproximar diferentes experiências, promover a discussão de casos concretos e ampliar o repertório necessário para que a gestão de riscos participe cada vez mais das decisões de negócio.
Essa evolução também muda a forma como as organizações devem enxergar a área. Quanto mais cedo o profissional de riscos participa das decisões, maior sua capacidade de avaliar os impactos de novos projetos, investimentos e mudanças operacionais e contribuir para que riscos sejam considerados antes de se transformarem em perdas.
Mais do que gerenciar apólices, o novo profissional de riscos precisa entender profundamente o negócio e o setor que está protegendo. Isso significa sair de uma atuação predominantemente operacional para assumir uma posição mais próxima da estratégia. Em um ambiente no qual continuidade, capacidade de recuperação e sustentabilidade estão cada vez mais conectadas, a gestão de riscos deixa de ser apenas uma ferramenta de proteção e passa a contribuir diretamente para a tomada de decisão e a perenidade das organizações.
Notícias relacionadas:
Nova lei fortalece o seguro rural e amplia instrumentos de gestão de riscos no agronegócio
Inclusão e tecnologia contribuem para diversificar seguros e melhorar gestão de riscos