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Entre quadros e frames, MS chega a Los Angeles com o filme “Olhos Fechados”

Fonte: oestadoonline.com.br | Data: 08/10/2026 13:25:58

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Produção que nasceu no Mato Grosso do Sul já passou por 17 festivais antes de chegar a Los Angeles

Um personagem perde a visão quando está prestes a realizar um sonho. Para Guto, artista plástico pantaneiro que deixa sua terra e se muda para Campo Grande em busca da primeira exposição, a mudança não representa apenas um novo obstáculo, mas uma transformação radical na maneira de experimentar o mundo. É essa passagem que conduz “Olhos Fechados”, curta-metragem produzido por artistas de Mato Grosso do Sul e agora selecionado para o Los Angeles Brazilian Film Festival (LABRFF) 2026.

Dirigido por Roberto Leite e protagonizado pelo ator sul-mato-grossense Leandro Marques, o filme será exibido entre 2 e 6 de novembro, em Los Angeles, nos Estados Unidos. Roberto e Leandro embarcam no dia 1º para acompanhar o festival, que nesta edição reúne mais de 50 produções independentes do Brasil e de outros países.

A seleção internacional chega depois de uma trajetória que já colocou “Olhos Fechados” em 17 festivais e rendeu nove prêmios à produção, entre eles reconhecimentos de melhor filme, melhor curta-metragem, melhor ator, melhor fotografia e melhor filme internacional. O percurso inclui festivais nos Estados Unidos, França, Itália, Austrália e Brasil.

Mas, antes de ganhar carimbos no passaporte e circular por diferentes telas, o filme nasceu de uma pergunta que interessava ao diretor: o que acontece com a percepção de uma pessoa quando ela deixa de enxergar?

Escuta

A resposta não poderia ser construída apenas a partir da imaginação de quem enxerga. Durante a preparação, Roberto e a equipe conversaram com pessoas com deficiência visual para compreender experiências, dificuldades e formas de perceber os ambientes que poderiam ser incorporadas à narrativa.
A intenção era fazer com que a transformação de Guto não fosse apenas contada, mas também percebida pelo público.

“A ideia era fazer o público entrar um pouco nesse universo junto com o personagem. O vento, os passos, os sons dos ambientes, a natureza”, explica Roberto.

A partir daí, o som ganhou uma função que vai além de acompanhar as imagens. Ele passa a ajudar a construir o espaço em que Guto está inserido, especialmente depois da perda da visão. Passos, ruídos, vozes e elementos da natureza assumem uma importância maior justamente porque o personagem passa a depender de outros sentidos para interpretar aquilo que acontece ao seu redor.

Essa escolha também ajuda a evitar uma armadilha comum em histórias sobre deficiência: transformar o personagem em alguém definido exclusivamente pelaquilo que perdeu.

Guto sente medo, revolta e sofrimento. Ao mesmo tempo, continua sendo um artista, tem desejos, expectativas e planos. A cegueira altera sua trajetória, mas não apaga as outras dimensões de sua personalidade. Para Roberto, esse equilíbrio foi essencial para que o personagem não caísse em estereótipos nem fosse apresentado apenas como vítima.

“Durante a preparação, as conversas com pessoas com deficiência visual foram muito importantes para a gente. Não era só uma pesquisa para construir as cenas. A gente também acabou revendo algumas ideias que tinha antes de começar o filme. Você começa querendo contar uma história e acaba também sendo transformado por ela”, afirma o diretor.

A frase resume uma das experiências que ficaram para Roberto depois da produção. Ao tentar compreender como Guto poderia perceber o mundo, o próprio diretor precisou reconsiderar algumas certezas sobre a deficiência visual. O filme, nesse sentido, acabou funcionando também como uma experiência de escuta.

Desafio

Para Leandro Marques, a construção de Guto representou outro tipo de mergulho. Interpretar um personagem com deficiência visual exigiu preparação e pesquisa, além de uma atenção especial à maneira como ele deveria se movimentar, reagir e se relacionar com o ambiente.

O ator buscou referências no cinema e na televisão e também conversou com pessoas com deficiência visual. A preocupação era evitar uma representação artificial e encontrar uma maneira de interpretar Guto que preservasse sua humanidade.

“Guto foi um dos grandes desafios na minha jornada como ator. Interpretar um deficiente visual não foi simples, mas construí-lo foi muito gratificante”, conta.

“Um dos maiores desafios foi não deixar o Guto resumido à cegueira, sabe? Eu precisava entender quem ele era antes e quem ele continuava sendo depois de perder a visão. Ele tem uma história, tem a relação dele com a arte, tem sonhos, desejos, frustrações. Tudo isso continua existindo. A cegueira muda a vida dele, mas não pode ser a única coisa que define o personagem. A gente quis mostrar justamente esse processo de adaptação, de encontrar outras maneiras de fazer as coisas e continuar buscando aquilo que ele deseja.”

Percurso

A chegada ao festival de Los Angeles acontece depois de uma sequência de reconhecimentos que ampliou o alcance da produção. “Olhos Fechados” recebeu prêmios no Paris New Cinema Film Awards, New Jersey Film Awards, Atlanta Movie Awards, NYC Independent Film Festival, Reale Film Festival, Boston Indie Film Festival, Paris International Short Festival, Portland Moviemakers Awards e Rio de Janeiro World Film Festival.

Entre os reconhecimentos estão Melhor Curta-Metragem, Melhor Filme Internacional, Melhor Filme, Melhor Fotografia, Melhor Ator e Melhor Filme de Drama. O ator Leandro Marques também recebeu indicação no LA Sun Film Fest, enquanto Roberto Leite foi nomeado ao prêmio de Melhor Diretor no New York Independent Cinema Awards.

A lista ajuda a dimensionar o caminho percorrido pelo curta, mas a seleção para o LABRFF acrescenta uma camada particular à trajetória: a produção que nasceu em Mato Grosso do Sul passa a integrar uma vitrine dedicada ao cinema brasileiro justamente em uma das principais cidades da indústria cinematográfica mundial.

Realizado desde 2008, o Los Angeles Brazilian Film Festival reúne cineastas, produtores e profissionais do audiovisual brasileiro e internacional. Para uma produção independente feita em MS, chegar ao evento significa ampliar não apenas a circulação do filme, mas também a possibilidade de apresentar novos nomes do audiovisual sul-mato-grossense a públicos de fora do Estado

Antes de Los Angeles, “Olhos Fechados” já havia passado por eventos como Curta Campo Grande, Metropolis Film Festival, International Folklore Film Festival, Hollywood International Golden Age Festival, CineFest – Festival de Cinema ao Ar Livre, Rome International Short Festival e Sydney Indie Short Festival.
Agora, o curta leva Guto para outra plateia. E, com ele, leva uma pergunta que atravessa a história sem depender de respostas prontas: quando a visão deixa de ser o principal caminho para conhecer o mundo, quantas outras formas de percebê-lo ainda estavam ali, à espera de atenção?

Gabriela Porto