Tempo perdido 30 anos sem Renato Russo
Fonte: mais.opovo.com.br | Data: 11/10/2026 01:34:27
Há 30 anos, o Brasil se despedia de uma das personalidades mais icônicas do Rock nacional. Renato Russo, aos 36 anos, deixava saudade entre fãs e familiares, além de um legado eterno no cenário musical brasileiro. Renato Manfredini Júnior, à época alçado ao posto do novo rei do rock, era uma pessoa que nunca se portou como a maioria dos demais. Foi sempre irrequieto, revelando-se desde pequeno um garoto precoce. Fundador do grupo Legião Urbana, o cantor faleceu em decorrência de complicações da AIDS. Atemporal em suas letras, Renato Russo marcou o cenário musical de gerações, sendo um nome vivo na atualidade do Rock nacional. O POVO ao longo dos anos cobriu a carreira, o adeus e as lembranças de Renato Russo.
27/10/1990 – Em outubro de 1990, Renato Russo esteve pela última vez em solo cearense com o Legião Urbana. Durante a Turnê As Quatro Estações, a banda se apresentou no Ginásio Coberto Paulo Sarasate, em Fortaleza. O POVO, em edição do Vida&Arte, cobriu a presença da banda na capital cearense, chamando-a de “a mais bem definida paixão da juventude brasileira atual” e destacando a mudança no comportamento do grupo e, em especial, de Renato. Sempre marcados pela irreverência, Renato conduziu o show com mais passividade durante a turnê.
12/10/1996 – Em 1989, aos 30 anos, Renato Russo descobriu ser soropositivo, informação que foi guardada a sete chaves até 1996, quando o mundo recebeu a notícia de sua morte. O POVO no dia 12 de outubro, trouxe uma edição especial do Vida&Arte, com homenagens de amigos e uma pequena biografia. Renato Russo, o poeta do rock, morreu no início daquela madrugada. Por meio de fax enviado à redação, assinado pelos outros companheiros de Legião, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, e pelo empresário Rafael Borges, a gravadora EMI-Odeon informava que o motivo da morte teria sido “problemas infecciosos pulmonares” (sic). Renato estava em seu apartamento no Rio de Janeiro. A essa altura, as informações sobre o cantor ser soropositivo circulavam apenas como boatos sem confirmação por parte dos amigos ou familiares. Em entrevista à reportagem da Agência Estado, Fernanda Villa-Lobos, esposa do guitarrista Dado, não quis se pronunciar sobre o boato de que Renato Russo fosse portador do vírus da Aids, e declarou: “Está todo mundo falando isso, mas é uma coisa que ele não falava, não cabe a mim comentar”. Respeitando os desejos do próprio Renato, o corpo foi cremado e não houve qualquer cerimônia de velório.
O nome de Renato se tornava agora uma lenda para o rock nacional e deixava uma legião de fãs abalados com sua partida repentina. Renato era um verdadeiro guru, uma espécie de porta-voz de toda uma geração que conseguiu através de sua poesia, seus rocks furiosos e canções líricas, dar voz a angústias de adolescentes em meio às cobranças impostas pela sociedade, a família etc.
A edição do Vida&Arte trazia uma página com falas do cantor sobre diferentes tópicos de sua vida. Uma espécie de biografia, um perfil montado pelo próprio poeta. Entre temas banais de vida artística e como lidar com a fama e os fãs, Renato falava abertamente sobre problemas com abuso de substâncias na indústria musical, saúde mental e ideações suicidas. Além dos posicionamentos políticos e sociais, Renato declarou abertamente ser um homem pansexual, e foi uma voz ativa na defesa dos direitos da comunidade LGBTQIA .
A repercussão da morte de Renato foi nacional. Com milhares de fãs fiéis que queriam guardar a memória de seu ídolo, lojas de discos em Fortaleza se prepararam para uma possível febre de consumo dos discos da Legião Urbana e de Renato Russo. Gerentes de três redes de lojas da cidade anunciaram que no dia anterior mesmo deveriam pedir mais cópias à gravadora EMI.
11/10/2021 – Ao completar 25 anos da partida de Renato Russo, O POVO trouxe uma edição especial no Vida&Arte relembrando o cantor. Com comentários de artistas e especialistas em literatura analisando as letras de Renato, a matéria contava com uma seleção de obras (filmes, músicas e livros) que aprofundavam a história de Renato Russo.
Mesmo emergindo nos anos finais da ditadura militar, Renato Russo tornou-se a voz poética e política da juventude que cresceu sob o peso da repressão. Vivendo em Brasília, centro do poder político, ele transformou a indignação e o sufocamento da época em hinos de contestação social. Através do punk e do rock de garagem, Renato canalizou o desencanto da sua geração ao denunciar a opressão estatal, a desigualdade e a censura em composições diretas como Que País É Este e Geração Coca-Cola.
Com letras que ainda hoje comovem e causam identificação, é válido considerar que Renato deixou legados que ultrapassam as barreiras de sua fama como intérprete: as mensagens do poeta e até dramaturgo continuam para os que ficam.