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Comercializadores independentes estão pela bola 7

Fonte: paranoaenergia.com.br | Data: 07/03/2026 05:09:49

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A Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel) lançou recentemente um livro contando a história dos 25 anos de existência da organização. É um belo livro, que mostra uma espécie de epopeia no setor elétrico brasileiro, caracterizada pelo surgimento, as dificuldades e a consolidação de um novo segmento, o da comercialização de energia. Este editor se orgulha de ter dado uma pequena contribuição pessoal a essa história.

Só que o mundo gira e hoje, curiosamente, o relógio dos comercializadores brasileiros de energia parece estar andando 20 anos para trás, pois o segmento encontra pela frente basicamente o mesmo problema que existia por volta de 2004/2005, que é a desconfiança dos geradores em vender energia para os chamados comercializadores independentes. Os geradores preferem não vender, pois o risco de encontrar um calote mais à frente é muito grande.

Isso não ocorre, quando é o caso, por falta de caráter de alguns comercializadores. Isso até já ocorreu no passado, mas hoje provavelmente não ocorre mais e os casos de banditismo, se ainda ocorrem, devem ser residuais. O que acontece em geral, nos processos de quebra dos comercializadores, é que algum erro na calibragem ou na avaliação dos preços da energia feitos pelos programas computacionais pode levar esses agentes à inadimplência. É desse risco que os geradores querem distância.

E essa situação nos leva a 20 anos atrás, quando acontecia rigorosamente a mesma coisa. Ou seja, o mercado cresceu muito, o mundo girou e estranhamente os comercializadores independentes permanecem no mesmo lugar, pois não conseguem oferecer garantias suficientes a quem tem energia elétrica para vender.

Em parte esse problema vem se acumulando, há anos, por culpa dos próprios comercializadores. Quem entende de mercado está careca de dizer que os mercados não operam sem garantias. Sempre é citado o exemplo do mercado financeiro, no qual as empresas só podem se expor até determinados limites. Passou dali, não podem mais operar, pois extrapolam os limites das suas garantias. Na área de energia elétrica isso não acontece e o mercado para os comercializadores independentes trava, como acontece agora.

Isso não é bom para o mercado elétrico e não é bom para ninguém. Os geradores não praticam o trading e os comercializadores não têm energia na mão para vender. Uma conclusão mais ou menos evidente é que o mercado de comercializadores deverá passar por um enxugamento, pois muitas empresas ficarão às moscas, sem ter o que fazer.

Ao mesmo tempo, isso vai concentrar mais poderes nas mãos dos comercializadores de grande porte, aqueles que têm bala na agulha para oferecer aos geradores. Os grandões, ligados aos bancos ou conglomerados elétricos, por exemplo, e aos próprios geradores, que também são comercializadores naturais.

O fato é que, historicamente, os comercializadores independentes sempre chiaram quando foram provocados a oferecer garantias robustas nas suas operações de trading.

Sempre evitaram qualquer tipo de conversa que travasse suas operações dentro de determinados limites. Agora aparentemente estão pagando o preço e provavelmente terão que mudar a forma de operar. Caso contrário, não haverá um segundo livro da Abraceel para contar os próximos 25 anos.

Em tempo: um esclarecimento. Para quem não conhece o jogo de sinuca, a bola 7 que faz parte do título desta opinião do editor é a bola final que define o jogo, a última a entrar na caçapa.