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Lula depende de Alcolumbre, mas escândalo do Master amplia desconfiança entre Planalto e Congresso

Fonte: estadao.com.br | Data: 07/03/2026 17:24:33

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Entenda as conexões com Alexandre de Moraes encontradas no celular de Daniel Vorcaro, do Master

Investigações da PF indicam relação entre o empresário e o ministro do STF há pelo menos dois anos. Crédito: Reportagem: Larissa Burchard | Fotografia e som: Felipe Oliveira (Felps) | Imagens: Carlos Fabal/AFP | Edição: Júlia Pereira

BRASÍLIA – O Palácio do Planalto depende do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), para destravar votações importantes e frear Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) em um momento no qual o escândalo do Banco Master assombra o governo, o Congresso e o Supremo Federal (STF).

A preocupação do Planalto é que vazamentos de movimentações financeiras do empresário Fábio Luís, o Lulinha, e a crise do Master provoquem impactos imprevisíveis na disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), seu principal desafiante.

Pesquisa Datafolha divulgada neste sábado, 7, mostrou crescimento das intenções de voto em Flávio, que aparece agora como nome competitivo. Nas simulações do primeiro turno, o senador já se aproxima do presidente. Na segunda rodada, os dois estão tecnicamente empatados: Lula com 46% e Flávio com 43%.

Levantamentos qualitativos em poder do Planalto também indicam que todos os escândalos da atual temporada, dos desvios no pagamento de aposentadorias do INSS à teia de corrupção do Banco Master, são debitados pela maioria dos eleitores na conta do governo.

Lula e Alcolumbre conversaram por telefone nesta semana, mas ainda há muitos nós a desatar entre os dois. A atual crise é classificada no meio político como mais explosiva até do que a desencadeada pela Operação Lava Jato porque, desta vez, atinge em cheio o Judiciário.

A nova prisão do dono do Master, Daniel Vorcaro, na esteira de uma investigação envolvendo indícios de fraudes no sistema financeiro e vínculo com o crime organizado, expôs ainda mais as ligações do banqueiro com a cúpula dos Três Poderes.

Lula e Alcolumbre: crise do Master, indicação para o Supremo Tribunal Federal e CPI do INSS provocam novos atritos

 

Foto: Wilton Junior/Estadão

Estão nas mãos de Alcolumbre decisões fundamentais para Lula neste ano eleitoral. Constam da lista a prorrogação ou não da CPI do INSS, o andamento da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma cadeira no STF e a convocação de sessão do Congresso para manter ou derrubar o veto de Lula ao projeto de lei que reduz penas dos condenados por atos golpistas.

O projeto beneficia o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso no Complexo Penitenciário da Papuda. Aliados do governo temem que o escândalo do Master ressuscite agora a pressão por anistia.

Em mensagens de celular descobertas pela Polícia Federal, Vorcaro citou reuniões com Lula, Alcolumbre, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o senador Ciro Nogueira (PP-PI), entre outras autoridades. Além disso, dados extraídos do telefone do banqueiro mostram que ele trocou mensagens com o ministro do STF Alexandre de Moraes em 17 de novembro do ano passado, horas antes de ser preso pela primeira vez. Moraes rebateu, sob o argumento de aqueles conteúdos não eram endereçados a ele.

Alcolumbre tem sido pressionado por uma ala do Senado a abrir processos de impeachment contra Moraes, que é vice-presidente da Corte, e Dias Toffoli, além de uma CPI exclusiva para investigar o escândalo do Master. Já avisou, no entanto, que não fará uma coisa nem outra e nem estenderá a CPI do Crime Organizado.

“Nós entraremos com representação no Conselho de Ética, na próxima semana, para pedir o afastamento de Alcolumbre por abuso das prerrogativas como presidente do Senado e omissão institucional”, afirmou o senador Eduardo Girão (Novo-CE), que chamou o colega de “ditador” no plenário. “Cadê o impeachment? Cadê a CPI do Master? A gente não pode fazer de conta que está tudo bem”, insistiu.

Não queremos implodir a República, mas, se não há nada errado, que se esclareça

Deputado Duarte Jr. (PSB), vice-presidente da CPI do INSS

Para o deputado Duarte Jr. (PSB-MA), vice-presidente da CPI do INSS, ministros do Supremo deveriam comparecer à comissão parlamentar de inquérito para se explicar. “Não queremos implodir a República, mas, se não há nada errado, que se esclareça. É possível encontrar a verdade”, disse o deputado, defendendo a prorrogação da CPI, que termina no dia 28, por mais dois meses.

Na avaliação do governo, porém, a CPI só serve de palanque para a oposição desgastar Lula, que vai concorrer ao quarto mandato. A sete meses das eleições, o relacionamento entre o presidente e Alcolumbre tem sido marcado por desconfianças de parte a parte. Mas, na prática, há uma via de mão dupla nesse jogo. Motivo: Alcolumbre também precisa de Lula para reeleger o governador do Amapá, Clécio Luís (União Brasil), candidato apoiado por ele.

De qualquer forma, o Planalto se surpreendeu com a decisão do presidente do Senado de manter a votação da CPI do INSS que aprovou a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Lulinha, filho mais velho do presidente. Dias depois, no entanto, o ministro do STF Flávio Dino suspendeu a ordem do colegiado.

Diante de tanta turbulência, a polêmica em torno da indicação de Jorge Messias para o lugar de Luís Roberto Barroso, magistrado que se aposentou no ano passado, foi até ofuscada. Alcolumbre ainda tem resistências a Messias porque gostaria de emplacar na vaga o senador e amigo Rodrigo Pacheco (PSD-MG).

Lula assegurou a ele no telefonema, porém, que avançaram as negociações para Pacheco assumir a candidatura ao governo de Minas Gerais. A ideia é que Pacheco dê palanque ao presidente no segundo maior colégio eleitoral do País, embora ainda não haja acordo sobre o partido que abrigará o senador.

Indicação para comando da CVM vira nova crise

Outro mal-estar entre o governo e Alcolumbre surgiu com a indicação de Otto Lobo para a presidência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). No ano passado, quando era interino no comando da autarquia, Lobo barrou uma série decisões prejudiciais a Daniel Vorcaro.

Nos bastidores, integrantes do Ministério da Fazenda admitem que o nome de Lobo só havia sido encaminhado para análise do Senado com o objetivo de distensionar a relação com Alcolumbre. Não deu certo.

Irritado, o presidente do Senado ligou para ministros de Lula e garantiu que não era padrinho de Lobo. Avisou, ainda, que, para provar isso, seguraria a sabatina dele na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE).

Com a prisão de Vorcaro e o agravamento da crise, Alcolumbre disse que pedirá ao governo para substituir o indicado ao comando da CVM. Expoente do Centrão, Ciro Nogueira – que preside o PP e é citado em mensagens descobertas no celular de Vorcaro como “um dos meus grandes amigos de vida” – também foi apontado como responsável pela escolha de Lobo, mas negou.

Convencido de que o Planalto estimula ataques na sua direção, Alcolumbre também deixou a Medida Provisória que instituía o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata) perder a validade, em 25 de fevereiro. O líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), apresentou, então, um projeto alternativo, com o mesmo objetivo da MP.

O texto passou pelo crivo da Câmara em cima do laço, mas Alcolumbre o ignorou. Agora, repousa na gaveta do Senado e precisa ser alterado para ir a plenário por causa de restrições impostas pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026. Cálculos da Fazenda indicam que, sem o Redata, o governo perderá R$ 5,2 bilhões em receitas neste ano.