Redescoberta de acervo sonoro revela histórias inéditas sobre usina do Rio Grande do Su l
Fonte: bluestudio.estadao.com.br | Data: 09/03/2026 11:46:05
A Memória da Eletricidade concluiu, em março, o tratamento técnico de um conjunto de registros sonoros que ajudam a contar parte pouco conhecida da história da energia no Brasil. O material reúne depoimentos de trabalhadores e moradores ligados à Usina Termelétrica de São Jerônimo, no Rio Grande do Sul, e agora passa a integrar o acervo histórico digital da instituição.
O trabalho foi realizado com incentivo realizado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), que possibilitou a organização, digitalização e difusão de documentos históricos da instituição. A iniciativa busca preservar e ampliar o acesso a fontes que ajudam a compreender a formação do setor elétrico brasileiro e seus impactos sociais, econômicos e culturais.
Ao todo, foram 13 gravações de entrevistas digitalizadas, originalmente registradas em fitas cassete, produzidas em 2003 no âmbito do programa de História Oral. Após o processo de preservação, o conjunto passou a somar mais de 10 horas de depoimentos e 13 documentos de transcrição, que totalizam cerca de 600 páginas.
Desenvolvimento da UTE São Jerônimo
A Usina Termelétrica de São Jerônimo foi implantada na década de 1950, em um momento de expansão da infraestrutura energética no país. Com 20 MW de capacidade instalada, a usina utilizava carvão mineral britado como combustível primário, sendo a primeira brasileira a adotar esse tipo de insumo.
Localizada a cerca de 70 quilômetros de Porto Alegre, a usina rapidamente se tornou um símbolo de modernização para o município, impulsionando a geração de empregos e movimentando a economia local.
Em 1974, após 21 anos de operação, o governo federal decidiu desativar o empreendimento sob a justificativa de inviabilidade econômica, provocando uma mobilização na cidade. Moradores e trabalhadores se organizaram para defender a retomada das atividades e, dois anos depois, a usina voltou a operar.
Segundo o historiador Lucas Nascimento, um dos responsáveis pelo trabalho de preservação do acervo, os depoimentos revelam a intensidade dessa mobilização.
“A usina fazia parte do cotidiano da cidade. As pessoas tinham um apego emocional muito grande, principalmente pelo desenvolvimento econômico que ela trouxe. Nos relatos, a reabertura aparece como um momento de grande emoção, porque não significava apenas uma usina voltando a funcionar, mas a recuperação de uma fonte de renda para muitas famílias.”

Historiador Lucas Nascimento foi um dos responsáveis pelo tratamento técnico do acervo sobre a UTE São Jerônimo. Foto: Leila Guimarães / Acervo Memória da Eletricidade
Mobilização feminina e formação de trabalhadores
Entre os aspectos que mais chamam a atenção do pesquisador nos depoimentos está o protagonismo das mulheres na mobilização pela reabertura da usina.
“Estamos falando da década de 1970, quando movimentos liderados por mulheres eram muito menos comuns. Ainda assim, muitas companheiras de operários se mobilizaram ativamente pela retomada das atividades da usina. Esse é um dos elementos que mostram por que conhecer essa história é tão importante”, afirma Nascimento.
Os relatos também revelam iniciativas pioneiras de formação profissional dentro da própria usina. Nos primeiros anos de operação, foram organizados programas de alfabetização e qualificação para trabalhadores. Na época, a unidade empregava cerca de 300 operários, muitos deles sem escolarização formal.
“Para operar equipamentos como caldeiras e turbinas, era necessário um mínimo de formação técnica e capacidade de leitura. O engenheiro-chefe Ângelo Gaudi iniciou um projeto de alfabetização para ampliar a qualificação da equipe e valorizar os trabalhadores”, explica o pesquisador.
Um acervo que ajuda a contar novas histórias do Brasil
Após a reativação nos anos 1970, a usina continuou em funcionamento até 2013, quando foi substituída por alternativas tecnológicas mais modernas de geração de energia.
Agora, com a digitalização dos depoimentos e documentos, pesquisadores, estudantes e o público em geral passam a ter acesso a um conjunto de fontes históricas capazes de revelar novas perspectivas sobre o desenvolvimento do setor elétrico e suas relações com a vida cotidiana das comunidades.
Além do acervo de História Oral, a trajetória da usina entre 1953 e 2003 também está registrada no livro “ São Jerônimo: 50 anos gerando energia e desenvolvimento ”, disponível para consulta na Rede Bibliotecas da Energia.
Todo o material digitalizado já pode ser acessado no site da Memória da Eletricidade.
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