Paraense está na linha de frente de pesquisa que pode regenerar a medula espinhal Foto celso Rodrigues/Diário do Pará.

Nesta segunda-feira (09), o jornal DIÁRIO DO PARÁ conversou com o médico paraense Arthur Luiz Freitas Forte, que integra a equipe de pesquisa sobre Polilaminina, a substância tenta regenerar os nervos após lesões graves na medula espinhal, sendo uma das maiores descobertas da ciência mundial. Desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o estudo é liderado pela professora Tatiana Sampaio e, agora, entra em etapa de aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para utilização como medicamento. 

A Polilaminina é um polímero da laminina, uma proteína natural do corpo humano essencial ao desenvolvimento embrionário e do sistema nervoso central, através do crescimento dos neurônios, tanto no cérebro quanto na medula espinhal.

“Essa laminina, no corpo, fica organizada como um tecido, uma matriz. A Tatiana Sampaio, minha orientadora, usou recentemente uma analogia chamando de um colar de pérolas. Quando a gente extrai essa laminina, ela vira pérolas individuais, só a proteína individual e perde essa conformação original”, disse o médico. 

A substância foi descoberta por acaso pela professora e pesquisadora Tatiana Sampaio, quando tentava dividir as partes que compõem a laminina. Através de uma reação com um solvente, ela observou que as moléculas da proteína se juntavam em rede, ao invés de se partir, formando a polilaminina. A junção, que ocorre normalmente no organismo, foi reproduzida pela primeira vez em laboratório. 

Dr. Arthur Forte Foto Celso Rodrigues/Diário do Pará.

Foi a partir da descoberta, há mais de 25 anos, que a pesquisadora passou a estudar possíveis usos para a polilaminina. Naturalmente, no sistema nervoso, essas proteínas atuam na movimentação dos axônios, um prolongamento longo e fino do neurônio, como uma cauda, que transmitem sinais elétricos e químicos. Em caso de lesão na medula, os axônios são danificados, interrompendo a ligação do cérebro com o restante do corpo, causando paralisias, como a tetraplegia, que é a imobilidade total do pescoço para baixo. 

“A descoberta da Tatiana foi justamente como recuperar essa estrutura, repolimerizar essa proteína que naturalmente tem o formato de matriz e por isso se chama popilaminina. Ela percebeu que ela [polilamininina] recupera essa função de crescimento neuronal, in vitro nas placas de Petri, que a laminina extraída por si só não tinha. Essa questão do crescimento neuronal e regeneração dos axônios é o que a gente já tem mais estabelecido. Isso é uma função que ela já tem no corpo e que a Tatiana conseguiu restabelecer com essa polimerização. É isso que a gente vê nas medulas dos ratos in vitro e nos humanos. Nos humanos a gente supõe que esse é o mecanismo”, explicou Dr. Arthur Luiz Freitas Forte. 

Tatiana Sampaio: quem é a mente por trás da polilaminina. Foto: Nadja Kouchi | Acervo TV Cultura

A partir disso, Tatiana testou a descoberta em ratos, para regeneração da medula espinhal e, posteriormente, em humanos. Foi nessa etapa que o médico passou a integrar a equipe da professora, por meio da pesquisa do potencial neuroprotetor da polilaminina. “O meu projeto é uma hipótese que já foi testada e ‘comprovada’ que a laminina também atua na neuroproteção, ou seja, ela impede que neurônios após a lesão continuem morrendo. Então, ela participa na sobrevivência dos neurônios”, disse. 

PROJETO-PILOTO

Após resultados positivos, a pesquisa iniciou um estudo-piloto, entre 2016 e 2021, quando foi aplicada a substância em oito pacientes humanos, em um estudo acadêmico não regulatório. Atualmente, a substância foi aprovada para fase 1 de testes na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que é a etapa de segurança. 

Os pacientes que recebem a polilaminina o fazem por meio do uso compassivo, uma forma de liberação prevista pela Lei RDC 38/2013, que garante o fornecimento gratuito de medicamentos experimentais, visando o benefício do paciente e a segurança, através de termo de consentimento sobre eficácia não estabelecida e os riscos de efeitos adversos, com acompanhamento de um assistente. 

A substância foi descoberta por acaso pela professora e pesquisadora Tatiana Sampaio, quando tentava dividir as partes que compõem a laminina.

APROVAÇÃO

Em caso de aprovação do medicamento na primeira etapa, a substância iniciará as fases 2 e 3 da Anvisa. Entre os critérios de aprovação da eficácia estão o uso por pacientes entre 18 a 72 anos de idade, com lesão completa e o medicamento seja aplicado idealmente até 72 horas após a contusão da medula espinhal. “Essas duas partes são muito importantes para comprovar a eficácia porque primeiro a gente estuda a lesão aguda para aproveitar os neurônios que ainda estão vivos após a lesão, mesmo que eles tenham sido lesionados. E é importante que a lesão seja completa porque tem uma história natural da doença bem estabelecida”, esclarece Dr. Arthur Forte. 

Além disso, 75% dos pacientes precisam apresentar um nível de recuperação motora, como foi o caso do estudo acadêmico, em que seis dos oito pacientes atenderam a esse critério. Agora, o estudo dará início à primeira fase com o planejamento do protocolo, que, a partir da aprovação, começará a captação de cerca de cinco pacientes com lesão aguda da medula, com acompanhamento de seis meses.  

SOBRE O PESQUISADOR:

Arthur Luis Forte, Médo Paranse. Foto Celso Rodrigues/Diário do Pará.

Arthur Luiz Ferreira Forte é natural de Belém do Pará. Cursou Medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no qual se formou em 2024. Foi no quarto ano de faculdade, que o então estudante integrou o Programa de Treinamento em Pesquisa Médica (MD-PhD), um formato especial de doutorado aplicável a alunos de medicina, que permite o ingresso à pós-graduação antes do término da graduação.

Assim, ele iniciou o doutorado no Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular no Instituto de Ciências Biomédicas, chefiado pela professora Tatiana Sampaio. Atualmente, o médico está em processo de conclusão do doutorado em Ciências Morfológicas (ICB/UFRJ), com uma tese sobre regeneração da medula por meio do potencial neuroprotetor da polilaminina.