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Vorcaro teve acesso antecipado a investigações sigilosas do MPF sobre o Master

Fonte: brasil247.com | Data: 10/03/2026 07:05:05

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247 – O empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, teve acesso antecipado a procedimentos sigilosos conduzidos pelo Ministério Público Federal (MPF) cerca de quatro meses antes de ser alvo de uma ordem de prisão expedida pela Justiça Federal de Brasília. O caso envolve investigações sobre irregularidades na negociação do banco com o Banco de Brasília (BRB) e possíveis vantagens indevidas relacionadas à transação, segundo Malu Gaspar, do jornal O Globo.

Mensagens mostram que Vorcaro recebeu três arquivos confidenciais do MPF em 24 de julho de 2025. Os documentos teriam sido enviados por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, apontado como aliado do banqueiro. O material estava armazenado no celular apreendido pela Polícia Federal após a primeira prisão de Vorcaro, quando ele tentava embarcar para Dubai com escala em Malta.

Documentos sigilosos enviados antes da prisão

De acordo com as mensagens analisadas, Sicário encaminhou três arquivos em formato PDF contendo investigações da Procuradoria da República no Distrito Federal. Dois dos documentos tratavam da negociação entre o Banco Master e o BRB — transação que, segundo decisão da Justiça Federal de Brasília citada nas investigações, teria ocorrido por “pura camaradagem”.

O terceiro procedimento abordava suspeitas envolvendo um triplex de luxo em São Paulo, avaliado em cerca de R$ 60 milhões. A hipótese investigada era de que o imóvel teria sido utilizado como forma de pagamento de propina relacionada ao negócio entre as instituições financeiras.

Essa apuração, porém, ainda se encontrava em estágio inicial de coleta de informações até dezembro do ano passado, quando o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli determinou o envio ao tribunal de todas as investigações relacionadas ao caso.

As mensagens confirmam o envio dos arquivos ao empresário, embora a sequência completa das conversas não tenha sido obtida pela reportagem.

Buscas por palavras-chave em investigações

Investigadores também identificaram que Vorcaro e seus colaboradores buscavam nos sistemas informações relacionadas a termos específicos. Entre as palavras-chave utilizadas estavam “Banco Master”, “Vorcaro” e “Nelson Tanure”, apontado pela Polícia Federal como suposto sócio oculto da instituição financeira.

No período em que os documentos foram enviados, o Banco Central já monitorava dificuldades financeiras enfrentadas pelo Banco Master. A autoridade monetária havia alertado para problemas na captação de recursos e para o risco de adoção de “medidas prudenciais preventivas”.

A negociação com o BRB era considerada estratégica para a sobrevivência da instituição. Em abril de 2025, o Banco Central notificou o banco de que as medidas adotadas até então não haviam sido suficientes para reduzir o risco de liquidez do conglomerado.

Além disso, auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) identificou “graves irregularidades nas carteiras de crédito cedidas pelo Banco Master ao BRB”. Segundo o documento, houve uso de artifícios contábeis “com o propósito de ocultar a real situação financeira do cedente, caracterizada por um grande volume de operações suspeitas e desprovidas de comprovação financeira”.

Suspeita de vazamento da ordem de prisão

A Polícia Federal investiga ainda se houve vazamento da ordem de prisão expedida contra Vorcaro. Um dos indícios é o fato de que os advogados do empresário protocolaram um pedido na Justiça Federal no mesmo dia em que a decisão foi assinada pelo juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília.

A petição foi enviada por e-mail às 15h47 do dia 17 de novembro de 2025, apenas 18 minutos após a assinatura da ordem de prisão, que ocorreu às 15h29. No documento, a defesa se manifestou contra “medidas cautelares eventualmente requeridas”, afirmando que poderiam provocar “impacto relevante” e causar “prejuízo irreversível a todo o conglomerado Master”.

O texto dos advogados também menciona uma notícia publicada horas antes pelo site O Bastidor, sobre um inquérito que investigava fraude bilionária envolvendo a compra do Banco Master pelo BRB.

Em princípio, a prisão deveria ocorrer apenas na manhã do dia seguinte, 18 de novembro. Contudo, a Polícia Federal decidiu executá-la ainda no mesmo dia, diante da suspeita de que o empresário poderia tentar deixar o país.

Acesso ilegal a sistemas de órgãos públicos

Na decisão que autorizou a terceira fase da operação Compliance Zero, o ministro do STF André Mendonça apontou evidências de acesso antecipado a informações sobre diligências investigativas.

Segundo o magistrado, foram identificados registros indicando que Vorcaro teve contato prévio com dados relativos às investigações, realizando anotações e comunicações relacionadas às autoridades envolvidas e aos procedimentos em curso.

Na mesma decisão, Mendonça registrou que Mourão realizava consultas e extrações de dados em sistemas restritos de órgãos públicos.

“As investigações também apontam que Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão realizava consultas e extrações de dados em sistemas restritos de órgãos públicos, incluindo bases de dados utilizadas por instituições de segurança pública e investigação policial”, afirmou o ministro.

Ainda de acordo com o magistrado, os acessos teriam sido feitos por meio do uso de credenciais funcionais pertencentes a terceiros, permitindo o acesso indevido a sistemas da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e até de organismos internacionais como FBI e Interpol.

Campanha de invasão por meio de phishing

As investigações indicam que Vorcaro e seus colaboradores teriam organizado uma campanha de ataque cibernético conhecida como spearfishing contra servidores do Ministério Público Federal.

O método consiste no envio de mensagens fraudulentas que simulam sistemas oficiais de alteração de senha. No caso investigado, segundo fontes ouvidas pela reportagem, Sicário teria criado um ambiente digital semelhante ao utilizado pelos funcionários da Procuradoria-Geral da República.

Servidores receberam e-mails alertando sobre a necessidade de trocar suas senhas, acessando um sistema falso. Com isso, o grupo conseguiu obter as credenciais e acessar dois procedimentos sigilosos relacionados ao caso Master.

Histórico criminal de aliado

Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão tinha histórico criminal em Minas Gerais, onde foi indiciado por estelionato, furto de veículos, crimes cibernéticos e associação criminosa. Segundo a investigação, ele recebia cerca de R$ 1 milhão por mês de Vorcaro.

Mourão morreu após tentar cometer suicídio nas dependências da superintendência da Polícia Federal em Minas Gerais.

Defesa do empresário

A defesa de Daniel Vorcaro afirmou que não comentará informações derivadas de vazamentos de material sigiloso.

Em nota, os advogados declararam: “não cabe comentar conteúdos que decorrem de vazamentos ilegais de material sigiloso”.

A defesa acrescentou: “Trata-se, inclusive, de fatos que já são objeto de investigação criminal determinada pelo ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal. Qualquer manifestação sobre informações obtidas dessa forma apenas reforçaria a disseminação de conteúdos cuja divulgação é, em si, objeto de apuração”.