Baixar Notícia
WhatsApp
Email

Hora do Recreio: filme de Lúcia Murat junta ficção e realidade para falar sobre educação e adolescencia

Fonte: brasildefato.com.br | Data: 11/03/2026 15:29:37

🔗 Ler matéria original

O mais recente trabalho de Lúcia Murat, o documentário Hora do Recreio, mistura a linguagem documental com encenações para falar da educação no Brasil e racismo estrutural.

A diretora relatou ao Conversa Bem Viver que a decisão de trazer o gênero ficcional para dentro do documentário surgiu a partir das dificuldades enfrentadas na produção do filme. “A gente foi proibido de filmar numa escola, numa outra escola a gente não pôde filmar porque teve uma operação policial… e tudo isso acabou sendo incorporado no filme, que é parte da realidade brasileira. Então, ele ficou sendo talvez mais forte” disse Murat.

A produção, que estreia oficialmente no circuito no Brasil dia 12 de março, quinta-feira, recebeu Menção Especial do júri jovem da mostra Generation 14Plus. O evento integra o Festival Internacional de Cinema de Berlim. Murat comenta que um dos pontos destacados no debate da premiação foi que o filme não coloca os adolescentes como vítimas. 

Para ela, uma das ideias do documentário era mostrar a juventude brasileira atual de forma não estereotipada, sem se relacionar com crime na periferia. “Eu queria muito que eles pudessem mostrar a sua capacidade de articulação, mostrar a sua inteligência e o seu conhecimento. A ideia do filme parte muito dessa minha experiência com eles nos filmes de ficção. De como eles estavam restritos a uma representação que acabava ficando um pouco caricata.”

Durante a entrevista, a cineasta comentou o bom momento do cinema nacional em premiações pelo mundo. Segundo ela, é muito necessário, agora, que políticas públicas sejam mais voltadas para a produção cinematográfica no país.  

Confira a entrevista:

Lúcia, pode nos contar detalhes sobre a produção do documentário?

A proposta original dele era ser um documentário mais padrão, mais clássico.

Eu ia nas escolas e lá para 2016, 2017, comecei entrevistando alguns professores, tomando contato. Veio a pandemia, tivemos um edital recusado, outro finalmente conseguimos, e veio um apoio para desenvolver o filme. Primeiro o apoio da Rio Film e depois da FSA[Fundo Setorial do Audiovisual] da Ancine.

Diante das dificuldades que a gente encontrou, que são típicas do Brasil, a grande diferença [do documentário]  é que a gente acabou incorporando na proposta do filme essas dificuldades. Ao invés de ser aquele documentário padrão, ele começou a ficar uma coisa um pouco diferente.

É claro que desde o início eu tinha a ideia de trabalhar com com o Lima Barreto, com o Cláudio dos Anjos. Interessante ver essa questão, principalmente do racismo, do abuso com mulheres que eram tratadas ali no início do século XX, como é que esses meninos hoje lidam com isso.

E outras coisas foram acontecendo. A gente foi proibido de filmar numa escola, numa outra escola a gente não pôde filmar que teve uma operação policial e tudo isso acabou sendo incorporado no filme, que é parte da realidade brasileira. Então, ele ficou sendo talvez mais forte por essas dificuldades estarem dentro do filme.

Deixou o documentário ainda mais documentário, porque além de retratar um tema, ele acabou retratando um processo de fazer um documentário no Brasil, ainda mais quando a gente quer falar sobre temas urgentes do nosso cotidiano, que é o caso do racismo, da violência de gênero, da educação pública.

Queria que falasse então um pouco mais sobre o impacto de quando vocês receberam a negativa de filmar nas escolas. A equipe esperava por isso?

As escolas do ensino médio são ligadas ao governo estadual e as escolas do fundamental 1 e 2 são ligadas à prefeitura. E o que aconteceu foi o problema com o ensino médio. A Secretaria de Educação do Estado, que realmente não liberaram. 

 Como eu sou uma pessoa que faço filme de ficção e faço documentário também, eu falei: “Bom, eu não vou deixar de fazer isso”. Eu conhecia essa escola, era uma escola da base do Morro da Providência, que tinham professores incríveis e uns alunos muito interessantes, E falei ‘vamos fazer como se fosse um filme de ficção’, ou seja, eu ponho um ônibus lá na frente do do onde eles moram.  E a gente aluga uma escola e a gente faz na outra outra escola, que é a que a gente faz na ficção.

Eu estava com muito medo desse processo, levar os adolescentes e eles ficarem muito inibidos. E na verdade, aquela primeira escola é de uma força absurda, de um impacto impressionante. Para você ter uma ideia, a equipe inteira chorou o tempo todo. A gente não conseguia nem filmar direito, porque a gente estava muito impactado.

Não somente pelas denúncias que eles faziam, mas pela coragem e pela capacidade de articulação que eles demonstravam na hora de fazer as denúncias. Uma menina começou a falar, depois de uma bagunça, e aí falou um atrás do outro, exatamente como tá no filme. E acho que esse impacto você deve ter tido ao assistir o filme. 

Qual o sentimento que ficou após a realização do filme. De esperança ou de desespero?

Muito mais de esperança, orque o fato deles estarem ali com a coragem de falar e, principalmente, muito articulados, me deu uma esperança muito grande nessa juventude.

Se eles estavam no ensino médio, no terceiro ano do ensino médio, falando aquilo tudo, é porque as mães deles estavam relatando aquelas histórias todas. Tinham conseguido sair daquela loucura, tinham conseguido dar a volta por cima. É também uma demonstração de resiliência, o filme tem isso.

Em Berlim [Festival Internacional de Cinema de Berlim], a curadoria falou muito disso nos debates, de que eles se interessaram no filme porque não trata os adolescentes como se fossem vítimas. Eles têm voz  e mostram que eles têm que têm voz, têm talento e estão no palco.

Foi uma coisa que para mim era muito importante, que era terminar como se termina no teatro, com ele sendo aplaudido. E essa é  a vontade que a gente tem, quando se depara com eles, e quando se aprofunda nessa relação, é de aplaudir mesmo.

O filme estreia uma semana da página final do caso Marielle Franco, a condenação dos mandantes do crime e, de fato, a Marielle é devidamente citada no filme. Me parece uma força motriz para mostrar que o filme chega na hora certa.

Eu espero que sim. Estávamos com dificuldades para poder divulgar, mas eu concordo com você, a gente tá num momento muito importante do Brasil em que, pela primeira vez, a gente tem esses assassinos sendo condenados.

A Marielle é um símbolo para todos os adolescentes, para todo movimento negro, para todo movimento feminista. O fato de ter sido feito justiça foi algo citado pelo elenco em uma sessão do filme como fundamental, desse momento que a gente está vivendo.

E nos adolescentes, a senhora percebeu potenciais futuros cineastas? Isso também te despertou uma esperança nesse sentido? 

A gente trabalhou com três grandes grupos de teatro de comunidade, o Nós do Morro, que é da favela do Vidigal, com o grupo Vozes, que é do Pavão Pavãozinho Cantagalo e com o grupo Instituto Arteiros, que é da cidade de Deus. Todos esses adolescentes são pessoas que têm um trabalho muito importante, muito interessante em grupos muito bons e todos eles têm alguma intenção artística.

Uma das meninas está na faculdade, porque, como  a gente filmou em 2023, alguns já se formaram, já estão na  universidade, outros estão trabalhando. E por exemplo essa menina, Raquel, que é muito legal, hoje é cenógrafa, está estudando cenografia e já está trabalhando. Tem uma outra menina, que é a Júlia, que já está trabalhando com o roteiro e que eu pretendo chamar para trabalhar comigo no próximo filme. Essa realidade que é muito boa de ver. Agora, são pessoas que estão nesses grupos. Uma das coisas que me doía, é que eu conhecia essas pessoas que em todos os filmes eles acabavam aparecendo e fazendo papel de bandido, que é o que nos sobra nos grandes filmes de ficção.

Eu queria muito que eles pudessem mostrar a sua capacidade de articulação, mostrar a sua inteligência e o seu conhecimento. A ideia do filme parte muito dessa minha experiência com eles nos filmes de ficção. De como eles estavam restritos a uma representação que acabava ficando um pouco caricata.

Outra coisa é que eu não esperava, dentro do ensino público, com os salários horríveis que os professores têm, encontrar tantos professores dedicados e preocupados em trabalhar, em ter discussões com os alunos. Isso você vê no filme também.

Essa escola, que a gente não pôde filmar, porque houve uma operação policial, na base do Complexo Alemão, tinha uns professores incríveis, muitas aulas alternativas, isso também me deu muita esperança. 

Agora, realmente tem que pôr dinheiro no sistema público, tem que pagar bem a professora, tem que deixar que a alimentação seja boa, em suma, tem muita coisa para ser feita, porque o material humano é maravilhoso. Eu fiquei muito impressionada. 

Quero falar agora deste momento do cinema nacional. A gente está às vésperas do Oscar com a possibilidade de uma dobradinha brasileira, dois anos seguidos levando uma estatueta. Queria perguntar o que achou do filme Agente Secreto.

Eu vi num telão grande num festival, muito bonito!

É um momento muito bom para o cinema brasileiro. Ano passado em Berlim, a gente teve muitos filmes e vários prêmios. Esse ano de novo a gente estava com vários filmes lá. Isso é bom. Eu me lembro que teve uma época, que o cinema argentino tinha esse papel.

A gente tem que ter uma política pública mais desenvolvida para o cinema.

A gente vive um momento em que os filmes médios do Rio e de São Paulo estão com muita dificuldade, tem muita gente desempregada. O cinema é uma coisa muito artesanal, a gente emprega muita gente e estamos precisando de um plano melhor voltado para o cinema brasileiro

Não é possível mais essa selvageria, dessas plataformas entrarem aqui [no Brasil] e não terem obrigação de nenhum tipo de pagamento.Eu pago imposto, eu pago com a Condecine [Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional] e eles não pagam nada. 

É uma briga grande, que está no congresso, a gente ainda não conseguiu levar, mas é fundamental a gente conseguir realmente fortalecer o cinema brasileiro e essa imensa quantidade de gente que trabalha e se dedica ao cinema e estão tendo problemas. 

Apresentaram uma proposta, mas muito insatisfatória. Os números são muito irrisórios perante o tamanho que é o mercado nacional.

Eles tem muito lobby, eles conseguiram baixar muito o que a gente tava pedindo, que já era menos da metade do que, por exemplo, tem na França. A gente continua tentando. Queremos ver se conseguem votar ainda neste semestre.

Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.

O programa de rádio Conversa Bem Viver vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 7h, na Rádio Brasil de Fato. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo. A versão em vídeo é semanal e vai ao ar aos sábados a partir das 13h30 no YouTube do Brasil de Fato e TVs retransmissoras.

Assim como os demais conteúdos, o Brasil de Fato disponibiliza o programa Bem Viver de forma gratuita para rádios comunitárias, rádios-poste e outras emissoras que manifestarem interesse em veicular o conteúdo. Para ser incluído na nossa lista de distribuição, entre em contato por meio do formulário.