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O que falta para o cinema brasileiro ganhar tração

Fonte: valor.globo.com | Data: 13/03/2026 05:10:06

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Vença ou não vença a disputa pelo Oscar de melhor filme ou filme internacional na noite de domingo (15), com “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, a indústria do audiovisual no Brasil está a um passo de decolar definitivamente, deixando no passado “voos de galinha”. Mas ainda há pássaros na pista de decolagem que podem impedir, ou atrasar, a concretização desse momento tão sonhado por diretores, atores, produtores, distribuidores e exibidores de filmes brasileiros.

Na opinião consensual apurada pelo Valor junto a grandes players do cinema brasileiro, o que falta não é dinheiro, mas, sim, planejamento estratégico. Há muita expectativa com relação ao projeto de regulamentação do streaming que se encontra em tramitação no Congresso.

Seria o último pilar do arcabouço regulatório e de organização do fluxo de dinheiro para financiar essa indústria, com recursos gerados dentro de seu próprio sistema. Sem necessidade de dinheiro público ou renúncia fiscal, ou, ao menos, sem dependência.

O projeto de lei 8.889/2017, de autoria do deputado Paulo Teixeira (PT-SP), hoje licenciado para integrar o Ministério do governo Lula 3, foi aprovado pela Câmara em novembro de 2025, com 330 votos a favor, 118 contra, e três abstenções. O projeto está sob análise do Senado.

Conhecido como PL do Streaming, ele prevê cota de tela de 10% para conteúdos brasileiros e a cobrança da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine) sobre a receita das plataformas de streaming. Se transformado em lei nos termos em que passou pela Câmara, o PL 8.889 estabelecerá alíquota máxima de 4% para o streaming e permitirá que até 70% do valor seja usados pelas plataformas em projetos próprios. Também foi incluído no projeto a Condecine Remessa (sobre a remessa de lucros das big techs para o exterior). A estimativa é de que a futura lei possa injetar mais de R$ 1 bilhão por ano na produção do audivisual brasileiro.

Procurada pelo Valor, a Strima, entidade fundada por cinco grandes plataformas de streaming que atuam no Brasil: Glopoplay, Netflix, Disney +, Max (HBO) e Prime Vídeo (Amazon), enviou a seguinte nota de posicionamento sobre as discussões em torno da regulamentação do streaming no Brasil: “A Strima considera legítimo e necessário o debate sobre a regulamentação de streaming. A entidade entende que qualquer proposta deve considerar as transformações recentes na forma como obras audiovisuais chegam ao público, bem como a dinâmica atual de produção e oferta de conteúdos no Brasil e no cenário global. A Strima entende que eventuais medidas regulatórias devem levar em conta a realidade do mercado e as contribuições técnicas apresentadas ao longo do debate público realizado nos últimos anos”. O texto, assinado pelo diretor-executivo Luizio Felipe Rocha, conclui: “A Strima reafirma que permanece à disposição do Congresso Nacional, do Poder Executivo e dos demais agentes do setor para contribuir com o debate e apoiar a construção de políticas públicas que fortaleçam o audiovisual no Brasil, estimulem investimentos e ampliem o acesso do público às obras”.

O Brasil é, de fato, um protagonista na geração de receita com a exploração do audiovisual

O arcabouço de regulamentação e sustentação financeira do setor audiovisual brasileiro, por meio de um mecanismo de reinvestimento setorial, começou a ser construído no primeiro governo do presidente Lula, entre 2003 e 2006, quando Gilberto Gil era ministro da Cultura e Sérgio Sá Leitão foi seu chefe de Gabinete e secretário de Políticas Culturais do ministério.

Ali foi estruturado o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), que movimenta mais de R$ 1 bilhão por ano para essa indústria, com recursos gerados por suas próprias empresas de produção, distribuição e exibição de conteúdo audiovisual. A Condecine foi criada pela Lei do Audiovisual e regulamentada em 2006 pela lei que criou o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA).

“O Brasil é protagonista mundial do consumo audiovisual. A gente é top 2, top 3 em todas as plataformas no mundo; depois dos Estados Unidos já é o Brasil. A gente é top 5, top 8, dependendo do ano, em bilheterias de cinema no mundo. A gente é um top grande nas TVs a cabo, temos um parque de televisão aberta gigantesco. Então, o Brasil é, de fato, um protagonista na geração de receita com a exploração do audiovisual”, diz Fabiano Gullane, sócio da Gullane Filmes, baseada em São Paulo, e responsável pela produção do último filme brasileiro a chegar perto de um Oscar: “O Ano em que meus pais saíram de férias”, de Cao Hamburger, que entrou na shortlist em 2008. Ficou entre os dez melhores, mas bateu na trave, porque naquele ano eram selecionados só cinco filmes (em lugar dos dez atuais) para disputar a estatueta dourada.

Bruno Wainer, diretor da Distribuidora indepente Downtown Filmes, veterano com décadas de atuação no setor cinematográfico, desde que se iniciou na produção de “Bye, bye, Brasil” (1978), de Cacá Diegues, expressa hoje aos 65 anos, uma mescla de cansaço com as idas e vindas da indústria cinematográfica brasileiro e paixão ainda acesa pelo cinema. Quando Bruno começou no ofício, ainda adolescente, Cacá Diegues já era seu tio, casado com a cantora Nara Leão, musa da Bossa Nova e irmã da mãe de Bruno, a jornalista e escritora Danuza Leão, que foi mulher do jornalista Samuel Wainer, e com ele teve rês filhos, sendo Bruno o caçula.

A época de ouro do cinema italiano, de Pasolini, de Fellini, coexistiu com os western spaghettis”

— Bruno Wainer

Ele foi codistribuidor de “Central do Brasil” (1998), dirigido por Walter Salles e estrelado por Fernanda Montenegro, primeiro filme brasileiro a ganhar um Oscar.

Bruno avalia que a base da indústria tem que ser os filmes de vocação popular, de maior capacidade de se comunicar com o público. E que também é necessária a inovação, o olhar ousado.

“O Cacá Diegues me ensinou uma coisa, com dados, que é o seguinte: a fase mais gloriosa do cinema de autor italiano, de Fellini, de Visconti etc, foi na fase do western spaghetti e das comédias populares”, relembra Wainer. “Esses sucessos populares inundam o mercado de dinheiro. Uma coisa não exclui a outra, elas são complementares; você tem que fazer uma repartição equilibrada desse dinheiro entre quem já é consagrado e quem ainda está começando, e até entre quem já foi consagrado mas eventualmente deixou de fazer sucesso”, acredita Wainer.

Os números mais recentes da frequência às salas de cinema de todo o Brasil, compilados pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) parecem indicar que essa distribuição não está sendo muito bem feita. Segundo levantamento publicado no último 24 de fevereiro pela Filme B/Ancine, 54,7% dos filmes brasileiros lançados em 2025 não chegaram à marca de mil ingressos vendidos.

“Falta capacidade de gestão. Gasta-se muito dinheiro com filmes que ninguém vê. E, por outro lado, durante muito tempo trabalhou-se com muito pouco dinheiro para ser competitivo em um jogo de capital intensivo”, diz o ex-ministro Sérgio Sá Leitão.

É preciso conhecer gente, para que nasçam os projetos de coprodução internacional”

— Josephine Bourgois

Josephine Bourgois, fundadora do Projeto Paradiso, que financia a ida de atores, diretores e produtores brasileiros aos grandes festivais de cinema do mundo, como Berlim, Cannes e Veneza, pontua outro aspecto vital para a indústria deslanchar: “É preciso estar lá, circular, conhecer gente, trocar ideias, para que nasçam os projetos de coprodução internacional”, diz Bourgois.

Já Márcio Fraccaroli, sócio da Paris Filmes, a maior distribuidora do Brasil, se declara menos otimista com o futuro. Ele acha que o país tem volume de investimento suficiente para garantir produção nos próximos cinco anos. “Mas, agora vai? Acho que não. Tem que investir nas grandes casas, não em produtores boutique”, diz Fraccaroli.

Segundo Elisabetta Zenatti, vivice-presidente de conteúdo da Netflix Brasil, “a audiência das produções brasileiras aumentou 60% no segundo semestre do ano passado, e diversas produções nacionais ficaram entre as mais vistas globalmente”.

“O Brasil tem um dos melhores conjuntos regulatórios para a indústria audiovisual do mundo. Comparável ao da França, melhor que o da Itália”, afirma Gullane. Mas não pode prescindir da regulamentação do streaming. “Estivemos na boca do gol, em 2018, para completar com a regulamentação do streaming, mas o acordo desmoronou aos 45 minutos do segundo tempo”, lamenta Gullane. Chegou a hora? Essa é a pergunta que todos no cinema brasileiro estarão se fazendo após a noite do Oscar.