Se Lula não aceitar que ainda precisa se provar na crise, pior para o Brasil
Fonte: jc.uol.com.br | Data: 13/03/2026 20:10:41
Presidente é capaz de engolir a vaidade e admitir que ainda precisa provar ser capaz de pilotar o Brasil em crises sucessivas? E nem é uma pandemia.
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A trajetória política de Luiz Inácio Lula da Silva sempre esteve profundamente conectada ao ambiente em que o país e o mundo se encontravam. Lideranças nacionais governam dentro de circunstâncias econômicas, sociais e geopolíticas que podem facilitar ou dificultar suas decisões. Lula teve sorte nas duas primeiras oportunidades. Agora, o palco está cheio de obstáculos.
O terceiro mandato do presidente ocorre justamente em um momento em que essas circunstâncias são muito mais adversas do que aquelas que marcaram seus governos anteriores. Isso transforma a atual etapa de sua carreira em um grande teste de liderança política. E o problema, para o Brasil, é que o líder petista não pareceu estar muito empolgado para provar nada a ninguém nos últimos três anos.
Durante a pandemia, Jair Bolsonaro enfrentou uma crise global de proporções muito superiores às turbulências atuais e acabou perdendo o rumo político. Errou tanto quanto podia e acabou não se reelegendo.
Nada se compara a uma pandemia, mas Lula agora governa em um cenário internacional instável e em um país muito mais fragmentado do que aquele que encontrou duas décadas atrás. Por isso a maior dificuldade talvez seja o petista acreditar que não precisa provar mais nada pra ninguém. Porque ele precisa. Ou se aposenta.
Ventos favoráveis
Os dois primeiros governos de Lula se desenvolveram em ambientes consideravelmente mais confortáveis. O país chegou a 2003 após um longo processo de estabilização econômica iniciado ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso. A inflação estava controlada e o arcabouço macroeconômico havia consolidado bases importantes para o crescimento. Lula surfou aquilo.
Poucos anos depois, o cenário internacional ampliou ainda mais essas condições. A economia global entrou em um ciclo de expansão forte e os preços das commodities dispararam. O Brasil se beneficiou diretamente desse movimento. Exportações cresceram, receitas aumentaram e o país viveu um período de prosperidade econômica relativamente raro em sua história recente. Lula surfou aquilo.
O presidente demonstrou habilidade política ao conduzir o país nesse ambiente e ao transformar aquele ciclo favorável em capital político duradouro. Parte relevante de sua popularidade nasceu justamente da capacidade de associar o crescimento daquele período à condução do governo.
País instável
O Brasil que Lula reencontrou no terceiro mandato é muito diferente daquele cenário. O ambiente político tornou-se mais polarizado, os consensos institucionais são mais difíceis de construir e a disputa ideológica passou a ocupar o centro da arena pública.
Essa mudança altera profundamente a forma de governar. Estratégias políticas que funcionavam em um ambiente mais previsível encontram hoje resistências maiores. O sistema político tornou-se mais fragmentado e a opinião pública reage de maneira mais imediata e intensa aos acontecimentos do dia a dia.
Escândalos
Outro fator que pesa sobre o ambiente atual é o impacto acumulado dos escândalos de corrupção associados ao campo político da esquerda nas últimas décadas.
Durante muitos anos o Partido dos Trabalhadores construiu parte importante de sua identidade política sobre a ideia de ética pública e transformação social. Essa narrativa teve papel central na ascensão do partido ao poder.
Esse capital simbólico, porém, sofreu abalos profundos ao longo do tempo. Episódios como o Mensalão, o Petrolão e as investigações da Lava Jato atingiram diretamente essa imagem. Mesmo com disputas jurídicas e revisões posteriores, o efeito político desses acontecimentos permanece presente no imaginário de parte do eleitorado.
Por isso, quando surgem novos episódios controversos envolvendo estruturas do governo, como as discussões recentes relacionadas ao Banco Master ou aos problemas no INSS, o impacto tende a ser maior. O desgaste decorre da memória política acumulada ao longo dos últimos anos. Quando há roubo, pensa-se logo na esquerda.
Mundo turbulento
O cenário internacional também adiciona novas pressões ao governo. A escalada de tensões no Oriente Médio e o conflito envolvendo o Irã provocaram impactos imediatos sobre o mercado global de energia. O aumento do preço do petróleo pressiona combustíveis e amplia riscos inflacionários.
Mesmo quando as causas são externas, o efeito político costuma recair sobre os governos nacionais. A população tende a cobrar respostas internas para problemas que muitas vezes se originam fora das fronteiras do país.
E, é preciso repetir, se o presidente continuar acreditando no que disseram a ele sobre não ter que provar mais nada a ninguém, vai se afundar e afundar o país junto. Porque a única chance de ele não ter que provar nada a ninguém era se nunca mais tivesse se candidatado.
Imagine um piloto experiente, que poderia estar aposentado em casa assistindo televisão, decidindo voltar ao trabalho e, perante todos os computadores usados na aviação atualmente, decide que “não precisa provar nada a ninguém”. Seria o contexto de uma grande tragédia.