Cinema em alta: novos cineclubes, festivais, mostras e debates põem a sétima arte em evidência na Zona Sul
Fonte: oglobo.globo.com | Data: 14/03/2026 05:15:00
Enquanto o mundo do cinema volta os olhos para Hollywood, na expectativa da cerimônia do Oscar, amanhã, a Zona Sul mostra que a experiência cinematográfica não se resume ao tapete vermelho. Entre cineclubes de bairro, festivais internacionais, sessões ao ar livre e retrospectivas históricas, a região vive uma temporada intensa dedicada à tela grande e mostra por que é um dos territórios mais cinéfilos da cidade. Ao longo das próximas semanas, a programação reúne desde animações para crianças e documentários sobre a Amazônia até debates filosóficos, curtas-metragens de dezenas de países e um mergulho na obra de uma importante documentarista da Europa contemporânea.
A maratona cinematográfica começa hoje com a estreia do festival Cine Enseada, iniciativa do centro cultural da Fundação Getulio Vargas, que transforma sua esplanada em uma grande sala de cinema aberta ao público. Com sessões gratuitas até terça-feira, o evento oferece uma programação que cruza cinema, arte e reflexão ambiental. Ao longo de quatro dias, o festival apresenta filmes, debates e atividades educativas organizadas em torno de quatro eixos temáticos: “Sonhar com a terra”, “Criar com a terra”, “Aprender com a terra” e “Ouvir a terra”. A proposta é pensar o cinema como ferramenta de reflexão sobre as urgências ecológicas do presente e sobre as formas de imaginar outros futuros possíveis.
— É um evento cercado por uma dupla responsabilidade: realizar a escolha criteriosa dos filmes que integram a primeira mostra da FGV Arte e, ao mesmo tempo, consagrar um novo espaço dedicado ao audiovisual na cidade, ampliando as oportunidades para que as produções brasileiras sejam mais exibidas e alcancem novos públicos —explica Ricardo Cota, que divide a curadoria do festival com Maria Fernanda Baigur, coordenadora da FGV Arte.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/3/T/QUFy8DTla3apppsqqYnQ/osonhodapedra-photo-1.jpg)
A abertura, hoje, às 15h, será com uma sessão voltada para o público infantil, com a animação “Perlimps”, dirigida por Alê Abreu, cineasta indicado ao Oscar por “O menino e o mundo”. Em seguida, o festival apresenta o documentário “Ailton Krenak: o sonho da pedra”, dirigido por Marco Altberg, seguido de conversa com o próprio Krenak. A programação de estreia termina com o longa “Minha terra estrangeira”, realizado pelo Coletivo Lakapoy em parceria com Louise Botkay e João Moreira Salles, que discute identidade indígena e os impasses políticos recentes do país.
Festival Curta e mostra com sessões gratuitas
Amanhã a programação na FGV continua com sessões voltadas para crianças e adultos. Entre os destaques está a animação “Ainbo: a guerreira da Amazônia” e o curta “Recife frio”, de Kleber Mendonça Filho, que imagina uma mudança climática improvável no Nordeste brasileiro. O encerramento do dia fica por conta do documentário “O sal da terra”, dirigido por Juliano Ribeiro Salgado e Wim Wenders, sobre a trajetória do fotógrafo Sebastião Salgado.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/N/c/y91WAwQ72N47UlxruvLw/photo-1-dsc-1336.jpg)
Nos dias seguintes, o festival apresenta uma série de produções que abordam questões ambientais e sociais, incluindo obras como “Ilha das Flores”, de Jorge Furtado; e “Amazônia Sociedade Anônima”, de Estêvão Ciavatta. A programação inclui debates com realizadores e pesquisadores, reforçando a proposta de transformar o cinema em espaço de diálogo entre arte e pensamento contemporâneo. Inscrições e mais informações no site portal.fgv.br.
O fim do mês traz um dos eventos tradicionais do audiovisual na cidade. Entre 25 de março e 1º de abril, o Festival Curta Cinema chega a sua 35ª edição com sessões gratuitas no Estação NET Rio, em Botafogo. Ao longo de oito dias, o festival apresenta mais de 130 curtas-metragens de 33 países e de 15 estados brasileiros, com produções exibidas nas mostras Competição Nacional, Competição Internacional e Primeiros Quadros, dedicada a novos realizadores. Criado em 1991, o evento consolidou-se como um dos principais espaços de circulação do curta-metragem no Brasil e na América Latina.
— O curta é o formato ideal de pesquisa de novas linguagens e surgimento de novos realizadores, e os festivais cumprem papel fundamental na difusão cultural e na formação de público — afirma o idealizador do festival, Ailton Franco.
Ao longo de mais de três décadas, o festival revelou novos cineastas e acompanhou a trajetória de diretores que hoje participam de eventos internacionais como os festivais de Cannes, de Berlim, de Veneza e de Locarno. Além de exibir filmes premiados nesses circuitos, o Curta Cinema mantém um diferencial importante: os dois principais prêmios, nacional e internacional, qualificam automaticamente os vencedores para concorrer a uma vaga no Oscar na categoria de curta-metragem, de acordo com as regras da Academy of Motion Picture Arts and Sciences.
— O maior peso dessa qualificação é o reconhecimento e a atenção internacional para um festival que pode aportar grande valor às obras exibidas — destaca Franco.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/5/f/DX9s4uTGGzUMhyK45OmA/beckermann-ruth-c-nini-tschavoll.jpg)
No fim do mês, a Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro apresenta a primeira retrospectiva brasileira dedicada à cineasta austríaca Ruth Beckermann. Realizada entre 26 de março e 5 de abril, a mostra reúne filmes produzidos ao longo de mais de quatro décadas de carreira da diretora, considerada uma das principais vozes do documentário europeu contemporâneo. A programação inclui curtas, médias e longas-metragens realizados entre as décadas de 1970 e 2020, além de uma masterclass gratuita com a própria cineasta, que vai conversar sobre seu processo de criação e sobre o papel do documentário na contemporaneidade.
No primeiro fim de semana, os filmes exploram questões ligadas à história judaica na Áustria e às memórias do período pós-guerra europeu. Nos dias seguintes, o foco recai sobre obras que investigam conflitos sociais, ativismo juvenil e tensões culturais do presente. Entre os títulos exibidos estão “A valsa de Waldheim”, vencedor do prêmio de melhor documentário no Festival Internacional de Cinema de Berlim, além de obras mais recentes como “Mutzenbacher” e “Favoriten”. A programação também inclui “Os sonhados”, filme que recria a correspondência entre a escritora austríaca Ingeborg Bachmann e o poeta Paul Celan, explorando a relação entre literatura, memória e imagem.
A retirada gratuita dos ingressos pode ser feita no site mam.rio/ingressos ou 30 minutos antes da sessão na bilheteria da Cinemateca.
Laranjeiras é polo de cineclubes
O polo cinematográfico de Laranjeiras vive um movimento complementar, mais íntimo e comunitário com a revitalização dos cineclubes. Desde o início do ano, dois novos espaços de exibição passaram a funcionar semanalmente no bairro, ambos com curadoria do produtor e cineasta Cavi Borges. As sessões são gratuitas.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/4/y/HkbKP4RpygXvydWzphFw/cine-mercadinho-sao-jose-foto-2.jpg)
Um deles é o Cine Mercadinho São José, com sessões ao ar livre todas as terças-feiras, às 19h, no terraço do centro comercial. A projeção é feita na parede de um prédio vizinho, enquanto o público vê os filmes sentado em cadeiras de praia, em um ambiente informal e comunitário. A proposta é exibir principalmente documentários brasileiros ligados à música, de samba a hip-hop, passando por funk, soul e cultura negra. Entre os próximos títulos estão “Alô Terezinha” e “O homem pode voar”, ambos dirigidos por Nelson Hoineff, além do documentário “Mussum”, de Susanna Lira.
Às quintas-feiras, às 18h, o Cineclube Casas Casadas ocupa uma sala com cerca de 60 lugares no complexo cultural que abriga a RioFilme, a Cavideo e o Cine Carioca José Wilker. A proposta é realizar sessões seguidas de debate com realizadores, atores ou convidados ligados ao tema do filme exibido. Para semana que vem está prevista a exibição de um filme de Cacá Diegues, que morreu em fevereiro do ano passado.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/Q/H/jI8c1ASViB5YtVwLph3A/whatsapp-image-2026-03-10-at-15.22.15.jpeg)
A programação na região também abre espaço para experimentações que dialogam diretamente com a cultura popular carioca. No próximo dia 28, às 15h30, o Arte Sesc Flamengo recebe a estreia do curta documental “Sonho e delírio”, obra que propõe uma imersão sensorial no universo dos bate-bolas. Dirigido por Marcio Nolasco e produzido pela Fluxorama, o filme constrói uma narrativa poética ao combinar fotografias do artista visual Luiz Baltar com a narração do texto “Cordões”, escrito pelo cronista João do Rio no início do século XX. A produção mostra a preparação das fantasias e a expectativa que antecede a saída às ruas; depois, a explosão de cores, sons e movimentos que toma conta do espaço urbano durante a folia. O curta busca fazer o espectador sentir a força estética e comunitária dessa tradição carnavalesca. Após a sessão, a equipe participará de um debate com o público. A entrada é gratuita.
Para quem gosta de pensar o cinema além da sala de exibição, a programação cultural da região inclui a palestra “Filosofia e cinema: encontro vital”, no próximo dia 24, às 19h, no Sesc Copacabana; e no dia 16 de abril no Arte Sesc Flamengo. O encontro parte do livro “A tela que pensa: filosofia, cinema e vida”, escrito pela filósofa Bia Antunes em parceria com Luame Cerqueira, e propõe refletir sobre a potência do cinema como forma de pensamento. Durante a conversa, a autora mostra como imagens, narrativas e ritmos cinematográficos podem abrir caminhos para compreender a experiência humana e provocar novas formas de olhar para o mundo. Gratuita e acessível para pessoas surdas e com deficiência auditiva, a atividade contará com intérpretes de Libras.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/7/D/msRp5CTBmmaSddDvRKFw/img-8170.jpeg)